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Internacionalismo literário a propósito de Vicinczey

Por Jonuel Gonçalves

A noção de internacionalismo parte da existência de valores universais e do ser humano como realidade universal, por cima das características locais. Aqui será usada no sentido de autores e conteúdos que atravessam fronteiras geográficas e de língua.

Nesse quadro, Stephen Vicinczey parece-nos um bom e durável caso de estudo.

Há poucos meses, uma editora de Buenos Aires publicou mais uma tradução em espanhol de “Um hino á mulher madura”, publicado pela primeira vez em 1965 em inglês, sendo o autor de origem húngara e o livro se (des)localize em vários países e dois continentes.

De então para cá foram dezenas de edições em várias línguas e o texto continua classificado como um clássico erótico do século XX.

Não é assim tão erótico. Três ou quatro anos depois, a literatura saída dos contextos insurrecionais de 1968 já tinha gerado bem mais intensidade no gênero. Mas por aquela altura “O amante de Lady Chaterly” ainda estava no topo das referências erótico-literarias.

A recusa inicial dos editores não desmontou a vontade de Vicinczey. Ele não é um daqueles “muitos autores que já na primeira recusa de uma editora desanimam e param de escrever” como disse Flávio Moreira da Costa no paiol literário do “Rascunho” em Curitiba, onde acrescentou: “o grande teste do escritor é a teimosia”.

Vicinczey é teimoso e pagou ele próprio a primeira edição. Em seguida deu sorte. Mandou o livro a Graham Green que gostou e propôs nova edição.

No Brasil o livro foi traduzido por Mário Molina para a Record em 1985 (salvo erro de minha parte) e hoje só é encontrável em raros sebos. Encontrei um por doze reais.

O autor tem sido simultaneamente considerado como escritor apátrida, húngaro, canadense, inglês ou apenas universal e, quando ouvi falar dele lembrei um antigo colega, que por alturas de maio 68 morava no quarto ao lado do meu num lar internacional de estudantes em Paris. Não era escritor nem tinha nome parecido, apenas era também de origem húngara e tinha lutado na insurreição de Budapeste em 1956. Como Stephen Vicinczey.

“Um hino á mulher madura” está ambientado no clima pré e pós insurrecional, com uma cascata de relacionamentos sexuais de um jovem que opta radicalmente por mulheres mais velhas, contraponto de Lolita.

A derrota da rebelião inseriu o autor no mundo dos milhões de refugiados e, por uns tempos, viveu no Canadá. Mas já antes do exílio tinha visto três textos proibidos pela ditadura então em vigor na Hungria.

De 1956 a 1965 trabalhou em ofícios vários no Canadá e aprendeu inglês com a sofreguidão de quem quer escrever para ser publicado. Aprendeu bem inglês mas isso não é suficiente. Sofreu as mesmas rejeições que quase todos os autores iniciantes sofrem.

Faz parte da grande crônica literária, lembrar que Marcel Proust foi recusado por André Gide, para dar uma idéia da extensão das recusas. Por outro lado, o fato serve de desculpa aos editores que deixam escapar obras de relevo, sobretudo se elas ganham notoriedade em outras mãos.

Nos mesmos anos em que Vicinczey procurava editor, um africano da Costa de Marfim fazia os mesmos caminhos, com o romance intitulado “O sol das independências”, que ninguém queria, até porque o clima do livro retratava como as novas elites aliadas do ocidente desviavam as independências para os despotismos. Chamava-se Ahmadou Kourouma e dizia “sou sempre opositor”. Incomodo.

Em 1968, um editor do Canadá arriscou e desde então até morrer, em 2003, Kourouma afirmou-se como um dos mais significativos escritores africanos. Pouco antes da morte disse com amargura: “o sucesso veio muito tarde”.

“O nome da Rosa” de Umberto Eco foi recusado por uma editora francesa alguns anos atrás e ano passado três editoras do mesmo país devolveram os originais de “Benevolentes”, vencedor do Goncourt poucos meses mais tarde.

Os exemplos são sem fim e o Brasil tem muitos. Mas não falemos nisso porque todos nós queremos ser publicados e é melhor não atrair retaliações.

O mais interessante no “Hino á mulher madura” é que qualquer de suas edições teve pouco marketing e pouca critica. Daí seu sucesso ser objeto de curiosidade e alguma pesquisa acadêmica. Sem duvida a edição de 1967 no Reino Unido acertou num momento histórico em que o combate político-cultural era altamente favorável a livros que desrespeitassem a ordem sexual em vigor.

Pode dizer-se que maio 68 foi derrotado politicamente mas derrotou os conservadores no plano da moral sexual e, por extensão, em outros aspectos culturais. Vitórias rapidamente mundializadas de forma tão irreversível que hoje muitas delas parecem quase puritanas.

“Um Hino” é um livro elegante, cheio de insinuações, revela seduções repentinas, tipo Balzac, mas não entra no explicito. Apesar disso, o erotismo é um bom foco para abordar o internacionalismo em literatura. Tal como a luta contra a fome e a opressão, sexo é algo em que o espírito universal prevalece.

São raros os que dizem que fome purifica, que opressão é a melhor forma de governo e que sexo não melhora com aumento do erotismo. Melhora muito. Por isso é celebrado pelas artes de todos os povos e por isso todas as inquisições tiveram o cuidado de o atacar como parte do ataque á liberdade.

A colaboração na rádio, televisão e instituto de cinema canadenses, facilitou a redação de um bloco de artigos político-filosoficos (“The rule of chaos”, não conheço edição em português) publicado em 1969 quando Vicinczey já morava em Londres.

O romance que publicou depois, “O milionário Inocente”, não teve o mesmo sucesso do “Hino” nem impediu que novas edições deste continuassem a sair. Perante os dois livros, alguns críticos compararam-no a Milan Kundera, talvez porque também vinha do leste europeu, passou a escrever numa língua que não era a sua inicial e porque estávamos na década de 80, com cada vez maiores fissuras no muro de Berlim.

Foi nessa década que Stephen Vicinczey trabalhou vários ensaios, depois agrupados no “Verdade e mentira na literatura”, do qual só encontrei em português uma edição de Lisboa. Perdido numa estante meio esquecida e ao preço de doze euros.

Parece-me a melhor contribuição de Vicinczey á literatura, resultante da trajetória do autor em publicações como a London Review of Books, a Harper’s, o Writer’s Monthly, o ‘Guardian” e o “Times”. Aborda questões literárias francesas, alemãs, inglesas, russas e norte-americanas.

Componentes do livro, como “Os dez mandamentos de um escritor”, “Anatomia de bobagens sérias ou a Baía dos Porcos do sistema literário USA” ou “Uma paixão pelo impessoal”, servem até hoje para debate, mesmo quando se discorda deles ou se exige mais demonstração.

Um crítico norte-americano foi por outra via de comparações (comparar é mania no oficio de criticar) ao dizer que Vicinczey “como Joseph Conrad e Nabokov, faz parte dos escritores estrangeiros cujo domínio da língua inglesa é capaz de provocar inveja a muitos daqueles que a tem como língua materna”. Mais uma vez comparam com outros do leste europeu, região do mundo habituada a fornecer escritores para outras literaturas. Em virtude do sufoco que tem sido a história dessa região do mundo.

Pela mesma razão de sufoco histórico, África tem mandado grande parte de seus grandes escritores para a Europa ou América do Norte, sem que precisem mudar língua ou nacionalidade. O sul-africano JM Coetzee dá aula nos Estados Unidos na mesma língua em que debatia na Cidade do Cabo. O congolês Allain Mabanckou dá aula em inglês também nos States mas seus livros têm a primeira edição em Paris. A nigeriana Chamamanda (prêmio do Commonwealth para melhor primeiro livro), passa mais tempo nos Estados Unidos que na Nigéria, enquanto a cameronesa Calixthe Beyala mora em Paris direto, como vários magrebinos.

Todos eles são bilíngües desde a infância.

Na mesma categoria entra a Índia, local de nascimento dos pesos pesados Salman Rushdie, baseado em Londres e Kiran Desai, em Nova York.

Nas ultimas décadas alguns escritores chineses – um dos quais premio Nobel – ganharam espaço na literatura ocidental escrevendo em francês ou inglês e nisso se comparam a leste-europeus.

O Brasil também beneficiou de aportes deste tipo. Clarice Lispector e Salim Miguel, embora se trate de casos em que, apesar de nascidos na Ucrânia e no Líbano, a verdadeira língua materna deles é o português, porque aqui chegaram na primeira infância. Já Otto Maria Carpeaux chegou mais tarde e tornou-se bom jornalista e um dos melhores ensaístas nacionais.

Se esqueço alguém desculpem.

Tudo isto ilustra um daqueles aspectos que ganharam fôlego através da multi-culturalidade, trans-culturalidade ou dos diversos significados de hibridismo: a identidade do escritor ou a inutilidade de tal definição.

Para quem considera que identidade é importante, a busca é laboriosa. Apenas pelo passaporte não chega, porque há milhões de pessoas que têm dois ou até três. O local onde seus livros têm primeira edição já foi significativo, hoje não é mais, principalmente em inglês, espanhol e francês. Pior ainda com o indicador de residência, de tão elevado é o numero de pessoas – escritores incluídos – que se movem tipo Corto Maltese ou tipo Tuareg.

A inserção territorial dos conteúdos seria outra pista identitária. Válida para a maioria, não serve para minorias importantes.

Shakespeare não deixou de ser inglês porque, alem do decisivo personagem que avaliou existir “algo de podre no reino da Dinamarca”, colocou “Romeu e Julieta” e “Julio César” na península italiana. Isabel Allende, chilena nascida no Peru e fixada nos USA, cria personagens que circulam entre a cordilheira dos Andes e a costa da Califórnia. Marie Ndiaye faz o mesmo entre França e Senegal. V.S. Naipaul vai de Trinidad á Índia com passagens pelo Reino Unido.

Revelações literárias recentes em inglês, francês e espanhol permitem acreditar que esses exemplos vão multiplicar-se.

Este conjunto de situações dificulta a fixação de identidade num razoável bloco de escritores, segundo critérios tradicionais. Setores cosmopolitas têm tendência para considerar que tais critérios são hoje insuficientes e até afirmam a inutilidade da busca. Segundo outros, é o cruzamento de varias situações atípicas que gera novas identidades.

Talvez num ponto se possa chegar a acordo parcial. A língua em que o autor trabalha (materna, veicular ou adquirida) é identificador. Seria ela a pátria do escritor.

Há tambem um ponto de desacordo que, não obstante, transmite soluções para alguns. De fato, certas literaturas nacionais incorporaram tantos elementos universais que não têm dificuldade em inserir escritores oriundos de fora de seus territórios ou com temáticas que se deslocam para outros territórios. Estados Unidos, Canadá e, em menor escala, Reino Unido e França, estão nesta categoria, á qual poderíamos acrescentar o Brasil nas devidas proporções.

Outras literaturas são mais herméticas e exigem ancestralidade e temática locais, sendo em muitos casos condicionadas politicamente. Há exemplos em todos os continentes e mostram grandes oscilações, consoante a fase política.

Stephen Vicinczey deixou de ser oficialmente escritor húngaro entre 1956 e o final da década de 80, após o que voltaram a reinvindicá-lo como tal. Se ele quiser...

É obvio que assistimos a novo aumento do internacionalismo em literatura. Todavia, subsiste a dúvida se tal aumento é irreversível e vai tornar-se maioria ou se é mais um reforço para as literaturas nacionais mais abertas. De certa forma acompanha a atual fase da globalização, que tanto pode consolidar-se como suscitar novos sentimentos nacionais ou comunitários.


Jonuel Gonçalves é doutor pela UFRRJ. Autor de vários livros, capítulos e artigos em Ciências Sociais e um romance “Café Gelado”. Comentarista da TV Futura. E-mail: jogo34@hotmail.com
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