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Memórias de Machado de Assis
Por Maria Balé
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”
Com esta frase Machado de Assis termina o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881 que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira.
Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e faleceu no dia 29 de setembro de 1908, filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de Maria Leopoldina Machado de Assis. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco sobre sua infância e início da juventude, porém, sabe-se que foi um autodidata, subverteu as adversidades e tornou-se um dos maiores escritores brasileiros.
Em 1855, aos 16 anos, publica seu primeiro trabalho literário, o poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito.
A verdade derradeira de Memórias Póstumas de Brás Cubas é paradoxalmente concebida como o único legado humanitário deixado pelo protagonista, um defunto que após o próprio enterro se debruça a analisar o sentido, e a falta deste, dos seus 64 anos de vida. Morreu em conseqüência de pneumonia, resultado do ataque de vento encanado ao abrir a janela para refrescar as idéias fustigadas pela angústia da procura de alívio para a melancolia da humanidade. É o que o autor define como morrer de uma idéia grandiosa.
Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra atemporal, a ser lida a cada tanto e, a cada leitura, a contundente poética da narrativa nos inocula de forma distinta.
Quando li pela primeira vez, por exigência do colégio, me detive no princípio do jovem Brás Cubas que reza três requisitos imprescindíveis para um homem sentir o gosto fresco de uma boca de ninfa: levar flores, tocar leve nos braços e mirar com olhos ternos. Me apaixonei pelo fugaz roçar de lábios nas alamedas da adolescência. Na linguagem machadiana, tempos de inocência rústica...
Na segunda vez que li, já não usava os uniformes do ginásio e o canto das cigarras nas tardes quentes das aulas de “Língua Pátria” se calaram nos desvãos da vida adulta. O Brás Cubas que veio a mim trazia em seu âmago os ecos hamletianos das promessas seladas no leito de morte da mãe; o duelo entre o ser e o não ser responsável.
As delícias dos beijos pueris foram esmagadas pela sensação de carregar uma pedra na garganta, a concretização das culpas que assolam o jovem filho de Bento Cubas que amarga a certeza de que sua vida é vaga e vazia. Vê na morte desabafo e liberdade. Um alento para meu luto pela morte da minha mãe.
A despeito das cores cinzentas do momento fúnebre, os ensaios sobre a função do nariz que o jovem Brás Cubas escreve para aliviar a sua orfandade me livraram do doloroso complexo pela carência de estética nasal. Aprendi, por sorte, que, muito além de belo ou feio, meu nariz é uma dádiva, um campo irrigado de vida.
Em nova leitura, o que me instiga são os insólitos diálogos entre Brás Cubas e Quincas Borba, um mendigo que herda fortuna e retorna para devolver o relógio roubado. Enquanto se alimentam, divagam sobre Filosofia, considerada como a comida, ou seja, bem temperada, dá um bom caldo cujos nutrientes são absorvidos e o que não serve será desprezado. Nietzsche, não duvido, adoraria sentar-se à mesa com eles...
Como viverei a próxima leitura?...
As alegrias do dolce far niente de uma vida sem carências e excessos, suas delícias e seus dissabores, as dores, os amores, as dúvidas, a impermanência, a transitoriedade, o despotismo do tempo e os caprichos da natureza, as múltiplas possibilidades de embriaguez quando se está atento ao que nos cerca configuram os pressupostos de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
A última frase do livro, eloqüência subversiva a luta pela preservação da espécie, um dia alimentou minha antagonia com Brás Cubas. No entanto, em tempos atuais onde a insanidade sem trégua abrevia vidas, aborta futuros, enterra crianças, o que ecoava pessimismo, me soa como remissão.
E viva Joaquim Maria, o Machado de Assis!
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