Algo A Dizer
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Estados da consciência social: urbanização, internet e redes sociais¹

Por Leonardo M. de Mesentier

"Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças."

Charles Darwin

Coletividades sociais – classes, grupos sociais, formações sócio-territoriais – possuem uma compreensão do mundo e de si mesmos, compartilhada por seus membros. Essa compreensão, que as coletividades sociais compartilham, do mundo e da sua própria existência, será aqui indicada pela expressão consciência social². A consciência social está em permanente transformação, o que não significa evolução, mas estruturas importantes, que condicionam o processo de formação da consciência permanecem relativamente estáveis, por períodos de longa duração, determinando aquilo que se pode chamar³ de “estados da consciência social”. No entanto, além das transformações cotidianas pelas quais passa a consciência social, o processo histórico apresentou também mudanças nas estruturas que condicionam os estados da consciência social.

Georg Simmel tratou da consciência social a partir das condicionantes associadas a formação das grandes metrópoles e Georg Lukács abordou os problemas da consciência de classe associados ao conflito de classes em sociedades que se industrializavam. A hipótese teórica que se pretende sugerir aqui é a de que as atuais manifestações de rua estão associadas às mudanças no processo pelo qual se produz e se reproduz a consciência social, implicando na tendência a um novo estado da consciência social.

Ao longo da história recente do ocidente, acompanhando o processo de urbanização⁴ da vida social, é possível reconhecer diferentes momentos do estado da consciência social. Essas mudanças, mais cedo ou mais tarde, implicaram em mudanças nos sistemas políticos. Jacques Le Goff assinala que, ainda no mundo feudal, o desenvolvimento do comércio obrigou o comerciante a ler, escrever, contar e viajar, privilégios até então dos clérigos. A vida letrada e a experimentação existencial proporcionada pelas viagens transformou a consciência do comerciante e, tendo o comerciante como um vetor, a nova consciência (Renascimento) se difundiu, corroendo as bases do sistema de poder do mundo feudal, dando origem aos regimes absolutistas. Em seguida, o processo de formação e expansão de cidades, que produziu a multiplicação dos contatos sociais e a confrontação social da desigualdade entre a corte e o resto, bem como o desenvolvimento da imprensa e da produção de livros alimentou a corrosão dos regimes absolutistas, dando origem a estados republicanos (Revolução Francesa), inicialmente monarquias constitucionais. Posteriormente à revolução industrial, a urbanização se acelera, surgem metrópoles e grandes cidades e com elas o conflito e auto-reconhecimento dos grupos sociais (identidades), a segregação sócio-territorial, uma sociedade civil cada vez mais complexa, a expansão e dinamização da vida pública (Habermas). Os sistemas políticos precisaram se modificar e não há formação sócio-territorial urbanizada, com mais de 85% de sua população vivendo em cidades, que não tenha adotado um regime de democracia representativa.

Não se pode desconsiderar, portanto, que o avanço da urbanização e dos processos de comunicação – incluindo nesses um maior domínio da leitura e da escrita, por um maior número de indivíduos – vem determinando mudanças importantes nos estados de consciência social, às quais se podem associar mudanças nos sistemas políticos. Sendo assim, é possível considerar a hipótese teórica de que fenômenos como a internet (com seus blogs, Wikileaks, redes sociais) combinada ao aumento do número de pessoas que dominam mais de uma língua, bem como o aumento de viagens internacionais, esteja representando um conjunto de condições que configuram um novo estado da consciência social. Os protestos antiglobalização, os fóruns sociais mundiais, os OCUPA, a solidariedade internacional, as manifestações mundo afora, inclusive no Brasil, podem ser compreendidas a partir da ideia de que existem novas condicionantes para a formação da consciência social. 

Pode ser útil recorrer ao conceito de inteligência coletiva formulado por Gramsci, para avançar na reflexão sobre o papel da internet, especialmente das redes sociais no processo de formação da consciência social. Gramsci diz que o partido é a inteligência coletiva da classe social. Aqui a palavra inteligência não quer indicar superioridade intelectual, mas sim capacidade de pensar, quer dizer, capacidade de analisar, de ter ideias e propostas sobre o mundo, boas ou más, certas ou erradas. É também a inteligência uma das faculdades que determina a vontade e a coragem do sujeito para realizar seus objetivos e vontades, pois é a inteligência que indica, ao sujeito, os limites e possibilidades presentes na sua existência, ainda que, também nisso, nem sempre acerte.

Se a inteligência não livra os indivíduos de equívocos, o mesmo se pode dizer das coletividades. No entanto, o partido é visto por Gramsci como o lugar privilegiado de construção da consciência social de classe, superior aos sindicatos porque suplanta as segmentações de classe, sendo abrangente e geral; isso é que importa. No partido, afirma Gramsci, todo trabalhador é um intelectual, isso é, alguém que analisa, tem ideias e propostas; e é o contraditório dialético das individualidades que participam do debate no partido, que possibilita o desenvolvimento da consciência social da classe.

Generalizando a tese de Gramsci é possível indicar que todo lugar onde os membros de uma coletividade possam debater sobre o mundo e sobre seus interesses no mundo se constitui numa forma de inteligência coletiva, numa forma de realização da consciência social de uma coletividade. Pode-se, portanto, considerar que a internet – especialmente, as redes sociais – está determinando importantes mudanças na forma como se dá o processo de construção da consciência social, na contemporaneidade.

Mas redes sociais são muito diferentes dos partidos. Os partidos são centralizados, hierarquizados, relativamente homogêneos ideologicamente, com fronteiras e estruturas definidas e estáveis. As redes socias são descentralizadas, horizontais, heterogêneas do ponto de vista ideológico e suas estruturas são fluidas e mutantes. Essa perspectiva ajuda a explicar, por exemplo, o descompasso entre os partidos políticos e as manifestações políticas que estão se processando no Brasil, mas também permite supor que a interação entre esses dois tipos de inteligência coletiva será de extrema relevância para o futuro do movimento que está nas ruas.

Notas:

1- Interpretar acontecimentos sociais quando eles ainda estão acontecendo representa um enorme risco para qualquer pesquisador e o autor desse texto não se julga, de modo algum, a pessoa mais preparada para essa tarefa. Mas ser um sábio das questões resolvidas pareceu ser uma alternativa ainda pior.

2- A cultura se sobrepõe à consciência social, estabelecendo um sistema de linguagens, símbolos e representações pelos quais a consciência se expressa, definindo os limites e possibilidades da consciência; mas é a consciência quem cria e recria a cultura.

3- Na falta de melhor ideia.

4- Considerando a urbanização de um ponto de vista abrangente, trata-se de um processo que tem implicado na permanente, intensa e crescente transformação de toda a vida social em vida urbana, o que envolve não só a criação, expansão e transformação de cidades, mas também a formação de uma rede urbana cada vez mais integrada – incluindo represas, portos, estradas, meios de comunicação de informação, de transmissão de energia – e ainda modificações no campo, onde o modo de produção e o modo de vida passam a estar crescentemente subordinados ao urbano; um processo que em sua totalidade constitui um modo de vida cada vez mais homogeneizado espacialmente, no âmbito de economias nacionais territorialmente articuladas pela interdependência econômica e política.

Bibliografia:

GRAMSCI, A. “Os intelectuais e a organização da cultura.” 4ªEd. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

HABERMAS, J. “Mudança estrutural da esfera pública.” Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

LE GOFF, J. “O apogeu da cidade medieval.”São Paulo: Martins Fontes, 1992.

LUKÀCS, G. “História e consciência da classe.” Porto: Publicações Escorpião, 1974.

SIMMEL, G. “A metrópole e vida mental”, in: Velho, G. (org). “O FENOMENO URBANO.” Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.

Leonardo Mesentier é arquiteto, doutor em Planejamento Urbano e Regional, professor da UFF, com diversos artigos publicados em livros e periódicos científicos sobre desenvolvimento urbano e patrimônio histórico-cultural.
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