Complô

Por Vivian Pizzinga

O Maurício saiu do metrô e em plena Avenida Rio Branco sentiu que havia mais pessoas na rua do que aquelas que podiam habitar o mundo. Estranhamente, nunca se sentiu tão apertado. E olha que o vagão do metrô não estava lá essas coisas de vazio. Mas a esquisita e desconhecida sensação que tinha agora do lado de fora dos subterrâneos da Terra era a coisa mais desconfortável que lembrava de ter sentido. E, olhando bem para os rostos daqueles que apareciam à sua frente, sentia que todos o olhavam de modo inquiridor. Era como se dirigissem a Maurício uma pergunta fundamental: ‘o que você faz aqui? O que o senhor faz de sua vida? O que o senhor tem feito de útil ultimamente?’ Era como se cobrassem uma atitude que faltava a ele, mas qual? Maurício passou a andar apressado, sem coragem de encarar os rostos que vinham na direção contrária. O curriculum que trazia no envelope pardo para deixar na agência de empregos estava bem seguro e, de uma certa forma, Maurício começou a temer que se esfarelasse. Se esfarelasse sim, diante da pressão que ele fazia com a mão, pressão que não conseguia conter por causa da pura tensão de ter de ultrapassar todos aqueles rostos e todas aquelas mudas exigências e tanta gente assim na rua.

Não demorou muito para chegar à Rua Sete de Setembro e entrou no prédio, onde a agência estava situada. A fila para o elevador era repleta de outras caras pouco amigáveis. Quando alguém, por ventura, o olhava, ele sentia novamente a indagação intransigente: ‘diga-me, o que tem feito de sua vida que valha a pena sua mãe ter posto você no mundo, meu caro?’ Ou uma variante: ‘tem cumprido aquilo que lhe cabe de modo honesto e maduro?’ Ele não sabia onde mais enfiar a cara e de que modo deixar de escutar o que estava nas entrelinhas daqueles sérios rostos muito dedicados ao bem comum. Era estranho: ninguém o conhecia, por que estariam exigindo dele uma postura que ele nem sabia bem qual era? O ascensorista era o pior de todos: seu olhar exigindo o andar correto quase esmagava a respiração de Maurício, que saiu do elevador e foi correndo para fora do prédio, desistindo de deixar o curriculum e distanciando-se de modo aleatório daquele lugar, daquela gente. Como era cheio do centro do Rio! Onde podia ir que pudesse encontrar alguma paz? Andou meio desatinado por algumas ruas e finalmente pegou um ônibus com destino à Zona Norte e o trocador também o encarava de modo hostil, era como se dissesse: ‘você fez por merecer o dinheiro que carrega para pagar a passagem, seu cretino?’ Os outros passageiros, em seus sisudos semblantes e em tom de voz cada vez mais grosseiro, também tinham especial interesse em Maurício: ‘amiguinho, escute essa – sua existência no mundo é quase dispensável, ouviu bem?’ Ele foi para o fim do ônibus, botou a cabeça para fora da janela e, inesperadamente, vomitou. O que estava acontecendo? O que havia com as pessoas naquele dia que não o deixavam sossegado? Chegou em casa, após ter subido sua rua quase caindo e se arrastando, suado, o curriculum amassado, a camisa um pouco desabotoada, o cabelo em desalinho, e trancou-se sem hesitações. O melhor era ficar ali até todo aquele complô passar.

Vivian Pizzinga é psicóloga e escritora

  CARLOS ZÜRCK CRUZ
12/1/2010

... essa menina escreve que é uma maravilha, sucesso é o que te desejo, você é merecedora!
 
  Mauricio de Assis
14/11/2009

Você é muito versátil! Este texto tem uma estilística bem diferente daqueles em que você acompanha o fluxo de consciência das personagens assim como os extremamente mais realistas. Contudo, o sentimento de angústia é o mesmo, a atmosfera densa está sempre presente...
 
  Tatiana Ramos
1/7/2009

Vi, como sempre visceral, AMEI! Bjcoas
 
  Ana Frota
23/5/2009

Muito bom, Vivian! Uma excelente narrativa de um dos mais sofridos dos dramas humanos. Você soube mostrar muito bem e com simplicidade a enorme complexidade dos sentimentos de inadequação e de não pertencimento. Continue, amiga!
Beijo
 
  Anny
22/5/2009

uau, parece um pesadelo meio kafkiano! mto bom como sempre! bjssss.
 
  Cadé
20/5/2009

Fala HP !
sempre um grande texto. com certeza todos nós alguma vez nos sentimos assim... o eterno drama... utilidade pra alguém ? pra vida ?...
grande abraço. escreva mais...
 
  Deborah Geller
20/5/2009

Vivian, acho que o "Complô" fala de um conflito de escolha profissional, que é tão real. Mauricio talvez ainda não tenha descoberto o talento dele ou então descobriu, e não consegue caminhar nessa direção. Isso dá enjôo mesmo.
Ótimo texto.
 
  johandson
20/5/2009

esse maurício é mais uma vítima paranóica do mundo moderno
 
  Laura Pozzana
20/5/2009

Legal, senhorita Pizzinga.
No complô ou na dura realidade me senti dentro, com vontade de dar uma mão para Maurício, olhar para o céu azul e, quem sabe, dar a sorte de ver passar uma gaivota qualquer.

Bem, deixando a psicóloga de lado, mando um beijo amigo e agradeço a socialização dessa escrita. Vai!!
 
  Nânie
20/5/2009

Gostei muito. Deliciosamente descrita a auto-sabotagem se projetando como um complô de todos. Literatura das melhores aliada à psicologia. Ou seria o contrário? Parabéns à psicóloga escritora. Continue!
 
  Rodrigo Domit
20/5/2009

... esse mundo sem rostos, aqui em volta, na tela, acostuma mal

gostei muito do texto ... transtorno-descritivo
 
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