Simplesmente Cristina

Por Áurea Alves

Foi uma honra atravessar a Baia da Guanabara para encontrar essa mulher, de atitudes simples e convicção pétrea em relação à sua opção artística. Ela é uma das mais importantes intérpretes do samba, valorizando-o em sua essência, na obra de seus grandes compositores, de Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira ao próprio irmão, Chico, priorizando o repertório produzido em torno da escola de samba Portela, especialmente o de sua Velha Guarda.

Maria Christina Buarque de Hollanda, ou Cristina Buarque, tem dez discos gravados e inúmeras participações em discos. Um repertório especialmente rico, por trazer registros importantes da obra de compositores desconhecidos, como inúmeros compositores da Velha Guarda da Portela, e de outros fundamentais da história da música popular brasileira, como Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa.

Embora não se considere pesquisadora ou responsável por projetos, é fato que seu nome está associado a trabalhos importantes para o samba. Participou de shows como "O samba é minha nobreza" (2001). Atualmente acompanha o grupo paulista Terreiro Grande e foi homenageada em um disco da também paulista Banda Glória. Participa do coro que acompanha Paulinho da Viola e, sempre que preciso, se apresenta ao lado da Velha Guarda da Portela. E pensa em gravar um disco com sambas de Paulinho da Viola.

Nesta conversa, Cristina fala de seu prazer de cantar o que gosta, do jeito que gosta e, com sua nobreza e simplicidade quase que de pastora, ensina o caminho das pedras para quem aprecia o samba.

Algo a Dizer - Cristina, como iniciou a sua carreira? Como foi sua formação?
Cristina Buarque - Minha formação foi praticamente assim: Miúcha, minha irmã mais velha, tinha um hábito de ouvir músicas e cantar. Ela ensinava vocais para a gente, meio Ataulfo Alves e as Pastoras, enfim. A gente se reunia e cantava, uma espécie de Família Trapp (alusão à família do musical "A Noviça Rebelde"). Todo mundo cantava, todo mundo ouvia. Em casa! Uma coisa que eu fiz desde criança e achava que era normal toda pessoa fazer isso. Não sabia que havia gente que cantava e gente que não cantava, para a gente cantar era normal. Nem sei te dizer como foi que virou profissão. Eu participei do disco do Paulo Vanzolini ("Onze sambas e uma capoeira", 1967), com 16 anos. Ele era amigo dos meus pais. Depois, eu participei de algumas faixas dos discos do Chico, mas tudo assim: não achava que era profissão. Só fui convidada a fazer um disco em 1974, eu já com vinte e poucos anos. Então, foi meio que sem querer. Eu não tinha a intenção de me profissionalizar. Estudei fonoaudiologia, mas não fui até o final, até porque eu tive filho e não dava para conciliar.

Cantar foi meio que por acaso, não tem uma data certa. Eu não comemoro cinquenta anos de carreira. Primeiro foi com 16, depois com vinte e poucos. E mesmo porque eu não gosto de cantar em shows. Gosto de cantar assim, entre amigos, num bar. Desse negócio de show nunca gostei, e se até essa idade eu não gostei, então eu não vou gostar mesmo! Fico nervosa. Eu faço! Mas, eu fico nervosa. Eu sou cantora porque hoje em dia não sei fazer outra coisa.

Algo a Dizer - Você trata a carreira como se fosse decorrente de seu gosto musical.
Cristina Buarque Tem mais de lazer do que de profissão. Profissionalmente, por exemplo, estou fazendo coro do Paulinho da Viola, aí eu acho uma delícia, porque eu fico lá atrás! E não é aquela coisa de ter um monte de gente olhando para você. Quem tá sofrendo é ele (risos)! Isso eu acho muito gostoso. E é um ambiente muito legal, com os músicos, o Paulinho. Eu gosto sempre de trabalhar num ambiente legal. Quando o ambiente não é bom, eu não gosto. Então é uma coisa que eu me divirto, o que eu tenho feito mais, ultimamente, é o trabalho com o Terreiro Grande, que é aquela farra. No show deles faço quatro músicas na frente, mas eu já entro com eles e sento direto.

Algo a Dizer - No palco, você cumprimenta o seu público, e os apresenta...
Cristina Buarque É. Da última vez foi assim. Mas, de outras vezes havia sido diferente. Quando eu fiz a primeira vez com eles, eu abria o show. Fazia quatro músicas, eu sofria, até que cantava "Já chegou quem faltava" (Nilson Gonçalves). Eles chegavam tocando os instrumentos. Era linda a entrada deles! Aí, eu ia pra trás e ficava lá. É que eu não gosto de ficar na frente. Tem gente que gosta de "mostrar a barriga", diz que é gostoso. Eu não acho nada gostoso! Acho horrível! Eu só fico feliz quando chega o bis: é a última música, pronto, acabou! Deu certo. Ou não deu. E, antes do show, eu tenho insônia, cheia de preocupação. Realmente não é como eu gosto de cantar. Eu gosto de cantar só com os amigos.

Algo a Dizer - Você gravou seu primeiro disco em 1974, e estourou com "Quantas lágrimas" (Manacéa). Por que você partiu para esse caminho, especificamente o samba tradicional, se afastando da MPB, a tendência forte da época?
Cristina Buarque Mas, eu ouvia o quê? Ataulfo Alves, Ismael Silva, que meu pai e minha mãe gostavam muito. E eu tenho um irmão mais velho, que mora em São Paulo, que tinha muitos desses discos assim: Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Cyro Monteiro, Silvio Caldas. E eu ficava ouvindo esse negócio. Inclusive, o primeiro disco que eu comprei era de reedições de gravações de discos em 78 rpm, uma compilação. Então, eu sempre gostei disso. Até quando chegou a minha adolescência. Aconteceu o "Rosas de Ouro" (espetáculo produzido por Hermínio Belo de Carvalho em 1965), o surgimento de Paulinho da Viola, Zé Kéti, Jair do Cavaquinho, Élton Medeiros... Uma outra geração. Já não era o Cartola, não era o Noel, o Ataulfo Alves. Uma outra turma que vem depois. Paulinho era contemporâneo de Chico e Dori Caymmi. Geniais, pessoas que eu sinto falta. Depois disso, ainda teve um pouco de coisa boa, mas não aconteceu tanto. E aí eu continuei curtindo aquilo! Eu também curti a Bossa Nova. E eu gostava do João Gilberto. E, na MPB, Sidney Miller foi alguém de quem eu gostei muito, escutei muito. Os baianos, o Tropicalismo, o começo do Tropicalismo... Mas sempre mais ligada ao samba. Hoje em dia, acho que chegou a certo ponto que eu fico mais no samba. Volto para aqueles sambas antigos e o choro. Já quase não compro disco. Às vezes ouço algo diferente, para satisfazer alguém, boto um disco ou outro. Mas, depois eu volto para as minhas velharias (risos).

Algo a Dizer - Até porque você é uma desbravadora, uma pesquisadora! Gravar Manacéa em 1974, ainda que houvesse uma presença do samba.
Cristina Buarque Foi por acaso. O sucesso foi por acaso. Porque ele tinha gravado. em 1970, naquele disco lindo que o Paulinho da Viola fez (Portela, passado de glória, RGE). E eu gostava tanto desse disco, que falei: "quero regravar uma música". Porque havia sido um disco que não foi bem distribuído na época. Acho que agora estão relançando. Mais uma vez. E por tudo isso, eu queria gravar no meu primeiro disco. Uma coisa que estava na minha cabeça no momento. Qualquer uma das músicas daquele disco! E foi escolhida a que fez sucesso. Uma música que já tinha sido gravada, não era inédita! Foi por acaso.

Algo a Dizer - A viúva de Manacéa falou de algumas reminiscências dos encontros entre você e eles...
Cristina Buarque É que quando eu gravei o disco, eu não o conhecia. Eu conheci o Manacéa no ano seguinte. Fui à casa dele e a partir daí ele me chamava às vezes. Eu morava em São Paulo e ele me ligava: "Minha mulher vai fazer um peixe", dizia ele. E aí, juntava aquela turma da Velha Guarda da Portela. E algumas vezes ia ao pagode da Doca. Era pertinho, na outra rua, perto da casa dele. Depois disso é que eu passei a ter contato direto com ele. Mas, foi assim, gravar sem conhecer o autor.

Algo a Dizer - Em sua trajetória você sempre se dedica ao resgate, como fez também com Wilson Batista...
Cristina Buarque É o que eu gosto mais. Eu ouço coisas mais atuais, mas, ainda, não gosto tanto quanto eu gosto das antigas. Tem essa geração que apareceu na década de 1960, e depois teve o Aldir (Blanc), já na década seguinte, e é muito bom. Tem gente boa que apareceu depois, mas genial não tem mais!

Algo a Dizer - Você teve a oportunidade de se encontrar com várias gerações.
Cristina Buarque Eu ainda conheci gente como Pixinguinha, Donga. Donga, mais. Mas, foram Pixinguinha e João da Baiana que me apresentaram ao Donga. Ismael Silva, que já vem lá de trás... Bem, eu já sou mais velha (risos).

Algo a Dizer - E hoje você faz esse trabalho com o Terreiro Grande, que é um exemplo da nova abrangência do samba. Uma experiência diferente, em que você está trazendo pessoas novas, que estão gravando os grandes nomes do samba. Como é que foi esse contato com eles?
Cristina Buarque Eles são paulistas. Eu fui fazer um show em São Paulo com o Paulão Sete Cordas. E aí um dos integrantes do Terreiro Grande foi ao show e nós conversamos. Ele falou do projeto de homenagens aos compositores de samba de terreiro de escolas de samba que ou eram compositores desconhecidos ou eram compositores que poucas vezes foram gravados. Ele me convidou para assistir a um show deles. Demorei um pouco para ir, quando fui fiquei superemocionada, pois o que eles estavam fazendo ninguém fazia. A levada é mais cadenciada, mais lenta, que é como era a da Velha Guarda da Portela. Eu falo a da Portela porque foi a que eu conheci mais. Hoje é tudo muito corrido. O que me lembrou as coisas mais antigas, mesmo. Os instrumentos, também. É que hoje batem com força, e no Terreiro existe certa delicadeza em que o cara que faz o solo pode ser ouvido, e se entende a melodia e a letra. Hoje em dia, numa roda de samba, só se ouve o coro cantando. Então, o que eles fazem me lembrou uma coisa que já nem existia mais e de que eu tinha até esquecido, que era diferente. Aí, eu disse: "Pô, isso é o que se fazia antigamente". Foi uma emoção muito grande. Depois, eu fui mais algumas vezes, fiquei amiga deles. E aí, quando me convidaram para fazer uma apresentação no teatro da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, em São Paulo), eu disse: "Vou tentar, né?!" Porque eles não são pessoas de palco, têm outras profissões. Tem gente que acorda às três horas da manhã pra trabalhar. Vida dura! Mas, eles gostam de se encontrar e quase não se encontram, por dificuldade financeira. Acabam se encontrando uma vez por mês, ou duas vezes. Porém, eles têm um lance de um pesquisar e passar para os outros. Aprendi sambas com eles que eu não conhecia. É um negócio incrível. E não fui eu que passei muita coisa para eles, não! Ao contrário, eles tinham muitas coisas que eu não conhecia. Aí, a gente falou: "Vamos tentar!". Começamos colocando um microfone no boteco, depois colocamos som no violão, no cavaquinho. E acabou dando certo o show. Eu tinha medo de eles ficarem muito retraídos no palco. Estavam acostumados a ficar numa mesa, tocando, com cerveja, cachaça. Mas eles foram muito bem! Daí a coisa pegou vulto. Eles fizeram a Fecap há dois anos e fizeram esse ano. Depois, fizeram show no Rio, fizeram roda de samba. Às vezes cola, mas é difícil. Aqui no Rio, principalmente, pois é difícil trazer o povo de Sampa. São 16 pessoas! E outra coisa, a imprensa. Tem essa dificuldade, mesmo. Eles vieram quatro vezes ao Rio e não saiu uma nota no jornal! Por mais que tenha sido mandado material, que eles conheçam a gente, que já saibam do disco. É alguma coisa assim. Sei lá, tem gente que fala do ranço passadista, né? Outras vezes, os caras acabam tomando uma certa antipatia.

Algo a Dizer - Bem, eu assisti a um dos shows, aqui no Rio, logo no primeiro dia, em que você fez uma menção a essa falta de divulgação etc.
Cristina Buarque Ah é, esse show lotou! Isso porque a Caixa (Caixa Econômica Federal) pagou uma grana para propaganda, com outdoor, lambe-lambe, essas coisas assim. Sei que pagou, pois na prestação de contas havia itens ligados à divulgação. Das outras vezes, a gente não colocou nada disso, porque a gente não tinha dinheiro. A gente cansou de mandar nota para a imprensa e não sair nada, nada, nada. Quando eu digo nota, é porque não é nem uma matéria. O que tem funcionado é a internet e os amigos que divulgam de boca em boca, por exemplo. O Gabriel, que se apresenta lá na rua do Ouvidor, divulga à beça. As pessoas vão espalhando. A coisa do Terreiro Grande já tomou um vulto, já tem mais gente se chegando. Pessoas que de alguma forma tomaram conhecimento, né? É isso. Pois, se depender da imprensa tradicional... Mesmo se tentar uma assessoria de imprensa, não rola!

Algo a Dizer - Além da Fecap, onde mais a casa encheu?
Cristina Buarque Ah, sim. Além da Fecap, teve também o Sesc Pinheiros (São Paulo), que eles já lotaram. Somente na primeira vez da Fecap é que não lotou, tinha pouquinha gente. Mas, depois... Na última semana lá, a divulgação já foi boa, aí acabou enchendo.

Algo a Dizer - É uma opção da imprensa de não divulgar, de não se interessar. No entanto, o público está presente. No Teatro Nelson Rodrigues havia um público extremamente jovem, interessado em samba, independente de ser um grupo novo que apresenta essa música considerada antiga...
Cristina Buarque Pois é. Apesar de se tocar uma música antiga, eles gostam também de tocar músicas recentes que não fizeram sucesso. É uma oportunidade das pessoas ouvirem que existem essas músicas também. Sabe, é um trabalho muito bonito. São músicas não muito conhecidas, mas eles colocam uma ou outra música conhecida no meio. Então é uma coisa assim de informação, de formação. Há essa coisa profissional assim, em relação ao Rio, que São Paulo tem mesmo.

Algo a Dizer - Você forma um público relacionado em busca da boa música. E esse público vai, e acaba divulgando e levando outras pessoas.
Cristina Buarque Então: as pessoas gostam de ir a show e ouvir música que já conhecem. Agora, se vão a um show e há músicas que elas nunca ouviram, pensam assim: "Que música é essa? Quem é esse compositor de que eu nunca ouvi falar?". Elas ficam curiosas, vão procurar saber. Descobrem que são pessoas que estão lutando, ou que são pessoas que compunham e morreram na miséria, nunca gravaram. Ninguém sabe quem eram. De repente, essas pessoas podem ser mais conhecidas. Por que não? Qual o motivo por que não se podem cantar essas coisas? Por que só cantar as coisas que estão sendo feitas hoje, coisas essas que a qualidade, muitas das vezes, não é tão boa?! Esse negócio de dar força para o compositor atual é muito legal. Mas você também pode cantar coisas bonitas de quem ninguém conhece.

Algo a Dizer - Existem diversos intérpretes que gravam. O Zeca Pagodinho, por exemplo, grava sambas de compositores da Velha Guarda da Portela e faz sucesso. E as pessoas que gostam do Zeca Pagodinho não sabem que esse mesmo compositor que ele gravou tem muitas outras músicas tão boas quanto.
Cristina Buarque E aí fica aquela coisa. O Zeca grava, e as pessoas ficam centradas no Zeca. Não é culpa do Zeca, é verdade. Mas, as pessoas ficam achando que é dele. Ele grava um monte de gente, amigos dele, da Velha Guarda, pois ele tem essa coisa de ajudar as pessoas. Mas, como eu disse, as pessoas acham que é música dele e não vão procurar outras coisas dos outros compositores que ele grava.

Algo a Dizer - E gravar essas pessoas acaba gerando direito autoral a eles, não é verdade?!
Cristina Buarque É. Muita gente morreu e a coisa foi embora junto! A maior parte já morreu. E é a família que vai ser beneficiada. Mas o negócio é divulgar a música boa. Porque tinham esses caras que compunham músicas tão boas, e eram tantas, que o cara que gravar ou cantar essas músicas acabará fazendo uma música tão boa quanto ou pelo menos à altura do que já foi feito. E antigamente tinha muito isso, era um cara fazendo uma música de qualidade aqui, outro fazendo outra ali. E assim ia. Hoje em dia, o que se tem por aí... Não tem mais qualidade. A qualidade é o de menos, agora.

Algo a Dizer - Têm de buscar a obra de compositores mais antigos, como referência para sua música...
Cristina Buarque Exatamente! Para se chegar ao que se chegou hoje. E é nisso que eu vejo muita diferença no músico que toca samba e o cara que canta samba e é do choro. Porque o cara que toca choro tem que estudar. Ele não sai tocando. Ele tem que estudar. Tem que pegar a referência, Pixinguinha, Jacob (do Bandolim), Waldir (Azevedo). Para poder fazer alguma coisa. Aí, o cara tem uma referência para fazer uma música, hoje. Já no samba, não. O cara não sabe quem foram Ataulfo Alves, Noel Rosa... Escuta um samba do Noel Rosa num show e nem sabe quem foi o cara. As pessoas não têm mais noção! Já no choro o pessoal estuda mais. Por isso você vê coisas boas. A Escola Choro de Rua, que prepara o pessoal para o choro, onde o pessoal que estuda o choro é também ligado ao samba, por exemplo... Então, hoje em dia, você está vendo muito mais gente tocando samba, com conhecimento, conhecendo harmonia, do que havia há dez anos. Por causa do pessoal da escola do choro, pois, se dependesse do pessoal do samba, isso não ocorreria.

Algo a Dizer - É executar bem para valorizar um bom samba?
Cristina Buarque Exatamente. Essa é a escola deles. Eles têm aquela coisa que o chorão também tinha, tinha que numa roda saber tocar, sem precisar ler. Não é aquela coisa de estudo formal, né? Os caras entram numa roda e vão tocando, vão ouvindo. Sabem tirar a harmonia. Então, é uma coisa que faz melhorar a qualidade dos instrumentistas.

Algo a Dizer - Existe um bom número de jovens compositores de samba. Você tem percebido nessa chamada Geração Lapa alguma coisa interessante? Ou você acha tudo muito tímido?
Cristina Buarque Alguns. Têm alguns que estão assim, engatinhando. Fazem coisas boas, mas eu não sou assim fã do trabalho de nenhum. Mas têm coisas boas. Porque sempre têm, né? Não geniais! Tem um pessoal que está compondo há muito tempo, e agora está começando a melhorar um pouco.

Algo a Dizer - Alguns membros da Velha Guarda da Portela têm um vínculo com a própria fundação da escola, mas isso está se extinguindo. O que fica depois? O que você sente que pode alicerçar o futuro?
Cristina Buarque Olha, isso é difícil. Porque numa escola de samba a gente não tem muito samba. No pessoal de Oswaldo Cruz, o pessoal mais novo não valoriza os velhos, não! Quando eu comecei a frequentar aquilo, com vinte e poucos anos, havia um pessoal da minha idade que sentia um orgulho de ver os velhos tocar. Assim, tinha eu e algumas pessoas, até do lugar mesmo, que tinham certa reverência. Depois, com o passar do tempo, quando eu ia numa roda de lá, vi que começaram a aparecer pessoas vindas de outros lugares, da Zona Sul, e que abriam o capô do carro e tiravam um tantã e três pandeiros querendo tocar, querendo participar. Aí, acabou perdendo aquela coisa. De você ouvir o cara cantando... Virou uma pancadaria, uma batucada, no mau sentido, é claro! Por fim, as pessoas foram se espalhando. E hoje eu sinto que os novos gostam de outro tipo de samba, dizem: "Ah! Isso é coisa de velho!" Não dão o devido respeito, o devido valor. Não dão muita bola para o pessoal da antiga. Muito embora, na Portela o presidente da escola invista na educação das crianças que quiserem aprender, para manter a raiz. Até porque, na quadra da Portela tem baile funk! E essa coisa do ritmista da escola de samba... Bem, o samba ficou muito mais corrido, então o cara tem que dar uma paradinha para dar uma descansada. Então, nesse sentido, mudou tudo. Mudou tudo! Eu acho até que as coisas têm que evoluir, mas nesse caso vejo que mudou para pior! O samba não é mais melodioso. E os meninos novos, se forem fazer um samba-enredo, acabam entrando nessa onda que está agora, essa de refrãozinho marcheado. Aí, quando se escuta um samba antigo, por exemplo Silas de Oliveira, o cara diz: "Pô, como era bom!". Mas ninguém quer fazer mais, ninguém faz!

Algo a Dizer - Se você perde a referência...
Cristina Buarque Você ouve. Por exemplo, na feijoada da Portela. O cara vai e escuta o povo cantando um samba antigo da Portela. O cara curte, canta. Mas não passa disso! Se os caras cantarem um samba ruim, eles também vão cantar. Os velhos compositores estão morrendo, os velhos que cantavam também estão morrendo. E essa mocidade que está aí não tem interesse. Aí, você chega em São Paulo, tem show em que se canta só isso! Aí, você pensa: "Bem, então tem alguém fazendo isso!". Eu cheguei a pensar que nunca mais iria ouvir essas coisas...

Algo a Dizer - É interessante...
Cristina Buarque Por isso rolou certa esperança. Quando eu falei que em São Paulo tinha gente fazendo isso, disseram: "Ah! Então a gente devia fazer isso!". Foi quando começou aquele negócio do samba na "Ouvidor". Os caras começaram a pesquisar. Mas, mesmo assim lá não é todo mundo que quer fazer a mesma coisa. É somente uma parte do grupo que quer permanecer. Isso é uma coisa que aqui no Rio ainda não tinha ocorrido. Tinha o samba tradicional, que tem pessoas que chamam de samba de raiz, mas não é isso. É o samba do jeito que era antigamente, sem essa correria e essa batucada. Um resgate desses compositores que eram tão bons, assim. Porque o resto tem muita gente fazendo. Tem gente que diz que eu não gosto de pagode. Mas não é isso. Eu acho que tem espaço para todo mundo.

Algo a Dizer - Você chegou a frequentar os ensaios das escolas de samba? Por exemplo, da Portela?
Cristina Buarque Muito pouco. Ensaio, ensaio mesmo, muito pouco. Meu vínculo é com a Velha Guarda. Meu vínculo sempre foi com a Velha Guarda. Eu fui à Portela. Eu fui aos ensaios. Fui à disputa de samba-enredo. Mas, o mínimo possível, porque era, e ainda é, aquele som muito alto. Por isso, eu preferia ficar com os velhos, que não é aquela barulheira toda. Mas, eu fui sim. Na Mangueira, na Portela... No Jacarezinho, que eu fui durante um tempo, quando o enredo era o Candeia. Fui aos ensaios para ver como é que era. Para poder desfilar. Até para não chegar de gringa, né (risos)?

Algo a Dizer - Outro aspecto... Na questão da indústria fonográfica: nós falamos na atitude do músico, do compositor. Com relação à reprodução, com os novos recursos, hoje é cada vez mais difícil, senão inviável, se produzir um disco tal qual se produzia há vinte ou trinta anos atrás...
Cristina Buarque Seria inviável! Até existem algumas gravadoras pequenas que tentam. Mas, multinacional... Antigamente, você só tinha multinacional! E isso é uma coisa que eu não sei dizer como é que era. Tinha alguma coisa que me parecia ser incentivo. A gravadora fazia os discos que queria fazer e depois fazia alguns discos para conseguir um abatimento no imposto. Aí o samba entrava nessa leva, dos que eles faziam para conseguir o benefício. Não divulgavam muito. Esses discos venderam pouco. Não era uma coisa que poderia ser atrativa. Nunca foi! Eu nunca fui disputada por nenhuma gravadora, por exemplo (risos). Mas era uma coisa que você tinha uma facilidade de gravar enorme. Eu gravei meus dois primeiros discos em São Paulo, foram músicos daqui para lá e foi uma coisa de primeira qualidade. Teve até orquestra, com violinos, violoncelos. Tinha isso. Hoje, o que que você tem? Praticamente nada! Tem é um tecladinho. Tinha o lance do período. Você pagava o período e não o pacote, como é hoje. O músico recebia muito bem. Também se gastava mais para fazer um disco.

Algo a Dizer - E os recursos digitais, como a internet, de multiplicação da execução da música, como você vê?
Cristina Buarque Eu acho muito bom para divulgar o espaço. Onde vai tocar, por exemplo. Agora, o cara grava um disco. O outro vai e baixa. Aí, para as gravadoras, deve ser ruim. Eu não sei! Para te falar a verdade, eu nunca me preocupei muito com isso não (risos). Mas, eu acho que alguns discos que estão fora do catálogo poderiam ser disponibilizados. Não vejo nenhum problema, não! Por outro lado, vejo que acaba criando uma facilidade com relação aos sambas antigos. De qualidade. Porque o cara fuça, fuça e fuça e acaba encontrando alguém que colocou lá. Aí o cara baixa. Está muito mais fácil hoje do que há algum tempo atrás. Digo: conseguir essas músicas antigas. Com a internet isso ficou mais fácil, o que eu acho legal, mas tem coisas nela que eu não aprovo, não. Por exemplo, o cara baixar para ele ouvir, eu não acho errado não! Mas, tem aquele cara que quer baixar para fazer dinheiro. Gravar um monte de discos para vender... Isso, para mim, é que está errado!

Algo a Dizer - Você acha que se deveria criar um modo mais ágil de remuneração dos direitos autorais para o artista?
Cristina Buarque Esse troço eu não sei dizer como funciona. Não sei mesmo! Nem imagino como é que se poderia fazer com um negócio desses.

(Nesse momento saímos do bar e continuamos a conversa na casa de Cristina, que põe em audição um CD com músicas de Wilson Batista.)

Algo a Dizer - Você tem bom ouvido (risos)!
Cristina Buarque É! Eu gosto de ouvir...

Algo a Dizer - Como funciona a escolha do repertório, a eleição de uma obra para interpretar?
Cristina Buarque A minha preocupação principal é: desde que eu goste! Eu não tenho assim: "Ah! Isso não vai fazer sucesso!". Eu nunca me preocupei com isso. Eu gravo aquilo que eu gosto de cantar. É isso! Porque eu nunca fiz assim... um projeto. Nada disso, não.

Algo a Dizer - Você participa da produção de seus discos?
Cristina Buarque Não. Sempre alguém produz. Eu ajudo um pouco, né?!. Mas, eu não entendo disso, não. Principalmente da parte técnica, que eu não entendo muito. Mas, eu já tenho bastante noção do que dá para ajudar. Eu dou meus palpites, como quem vai tocar e em que faixa. Mas, nada além disso.

Algo a Dizer - Há alguma referência de voz, de cantora, que te marcou?
Cristina Buarque Que me marcou? Gente que eu gosto tem um montão. Aracy de Almeida eu acho o máximo até hoje! Mas, tem um monte de gente. A Carmen Miranda, também. Depois, do pessoal mais para cá, tem a Alaíde Costa, a Clara Nunes, que também gosto bastante. Hoje em dia, eu gosto muito da Tereza Cristina, da Mônica Salmaso, Mariana Bernardes, que canta na Lapa e tem uma voz linda! A irmã dela (Alice), que está começando agora. Tem muita gente boa. Poxa, eu gosto de tanta gente!

Algo a Dizer - Sim, já deu para ter uma boa ideia de suas referências e do estilo de interpretação que você gosta. Você também compôs, né? ("Marcha da saideira", com Mauro Duarte e Lefê, e "Deixa eu viver na orgia" com Mauro Duarte, são exemplos de obras assinadas por Cristina.)
Cristina Buarque Não. Não! Só de brincadeira. Não teve nada de sério nisso, não! Foi mais esse negócio de bloco. Aí, eu completei uma letra. Teve uma outra que o pessoal achava curta e eu acrescentei alguma coisa. Mas, tudo brincando, sem pretensão alguma! Fazer sério assim, eu não sei fazer não. Eu mesma não me considero uma compositora (risos). Só se for mesmo numa brincadeira. Aí eu faço. E que também é uma coisa que tem que ter talento, né? Que para fazer uma coisa ruim é preferível não fazer!

Algo a Dizer - Existem pessoas que querem compor e acabam fazendo pastiche daquilo que gosta...
Cristina Buarque Exatamente! O cara quer fazer uma coisa em determinada linha, acaba imitando e não fazendo uma coisa tão bem feita. Eu tenho consciência total de que não faria bem feito, por isso nem me atrevo (risos).

Algo a Dizer - Cada um tem o seu papel na música. E eu acho que você tem o seu, muito importante, por sinal!
Cristina Buarque Meu papel, no fundo, é gostar. Gostar do que eu faço! E divulgar aquilo que eu gosto. Bom, em resumo: eu não gosto de compor e não gosto de cantar (risos)!!!

Algo a Dizer - Quanto ao futuro, Cristina, você tem algum projeto de gravar um disco daqui mais para frente? Ou não? Você continuará no ritmo do seu prazer?
Cristina Buarque Eu estou com uma coisinha em andamento, que é esse negócio do Candeia, lá na Fecap, que foi gravado. Então, está sendo mixado lá em São Paulo. A gente pegou um amigo nosso que também é músico e compositor, que tem um estúdio, que está vendo isso. Está sendo mixado. E deve sair até o final do ano, por aí. Agora, esse papo de projeto meu, eu quero fazer um disco assim e assado, não tenho nada, não. Se aparecer... Meu projeto é me aposentar e viver em Paquetá e tentar sustentar a minha velhice, mas isso está difícil! Também, está difícil para todo mundo! O que eu quero mesmo é morar aqui e não fazer mais nada! Ainda assim, a gente tem que viajar, fazer shows, essas coisas. Bem, tem sempre alguma coisa, né? Por exemplo, teve a Banda Glória, que foi uma coisa muito gostosa de fazer, depois veio o Terreiro Grande. O engraçado é que depois que eu me aposentei, eu fiz três discos assim, um em cima do outro! Primeiro foi com a Glória, depois a homenagem ao Mauro Duarte, e agora o Terreiro. E olha que estava há quase dez anos sem gravar. De repente, fiz um montão (risos)! Talvez um dia eu ainda venha a fazer um disco só do Paulinho (Paulo César Pinheiro). Porque a produção dele é enorme, não cessa. Talvez eu ainda faça.

Transcrição: Douglas Naegele

  jorge roberto martins
21/9/2009

cristina buarque é artista rara - mno taçlento, na grandeza humana.
 
Nome*:
E-mail**:  
Comentário*:
 
*Campo obrigatório
**O e-mail não é obrigatório e não será exibido no comentário
 

contato@algoadizer.com.br | Webmaster: Renan C. Sardinha | Design - Pat Duarte - Av Paralela.com