João Callado - liberdade para a música

Por Áurea Alves

É tentador na apresentação da obra de um artista destacar-se uma eventual ascendência nobre, que em algum momento pudesse ter determinado a qualidade de seu trabalho. Do mesmo modo, o seu envolvimento com nomes igualmente talentosos poderiam também servir como ponto de partida para a análise de um trabalho, num esforço primário de contextualização. O que determina a qualidade e a importância do trabalho de um artista é seu talento e sua relação com um universo mais amplo, social, não necessariamente herdado geneticamente e tão pouco apreendido em bancos de escola. O que pode variar é a forma como o contexto é percebido pelo artista e como este projeta o seu talento, colocado em ação, independentemente de suas origens familiares e demais relações pessoais, ainda que estes possam interferir ou auxiliar em alguns aspectos. Mas, como define o historiador Giulio Argan, a arte é o modelo do fazer segundo livres escolhas assim é a partir destas que se deve entender a obra de um artista.

A primeira década do século XXI consolidou canais livres para divulgação da música, através da internet. Embora não tenham sido mudadas as relações de mercado, é fato que a facilidade de exposição e registro de produções independentes colocam o público em contato com trabalhos contemporâneos de qualidade. E isto é apresentado por João Callado no álbum que leva seu nome lançado em julho deste ano pela gravadora Biscoito Fino.

Formado em Artes Plásticas, começou a tocar na Lapa há mais de 11 anos, no pioneiro Grupo Semente e no grupo de choro Abraçando o Jacaré. Estabeleceu nesse período um contato mais profundo com a Música Popular Brasileira e sua diversidade de gêneros e. com ela, o cavaquinho.

Durante esse tempo aperfeiçoou-se tecnicamente, passando pela experiência de tocar pelo Brasil e pelo mundo com o Semente e Teresa Cristina, além de acompanhar os principais nomes do samba. Estudos, pesquisa e o aprendizado cotidiano no fazer música, foram inseridos num momento em que a música popular no mundo, transborda os padrões de mercado. Naturalmente um repertório consolidou-se sendo inevitável, como aconteceu com Teresa e Pedro Miranda, a produção de um disco próprio.

Livre para produzir sem se integrar a algum mainstream do samba ou do choro, apresenta-se como compositor e arranjador, num trabalho de qualidade tanto quanto exemplar do que se pode esperar de um artista dessa geração.

Com a assumida extensa influência, do popular Zé Ketti ao erudito e moderno Ligeti, exercita seu talento, ora utilizando os recursos instrumentais típicos dos regionais de choro e dos grupos de samba, ora - e isto é o fundamental neste trabalho - lançando um olhar contemporâneo, sem degradação, a diversos gêneros musicais brasileiros.

Do sentimento projetado nesses ritmos dançantes, João enfatiza o banzo e a melancolia, que certamente carregam, pela delicadeza do toque dos instrumentos escolhidos, a sutileza da pulsação evidenciando a sonoridade dos ritmos a ser percebida, assim, de um modo diferente.

Nos temas instrumentais é a marimba e o vibrafone que ocupam o lugar de tambores como ocorre nas faixas Jongo, Samba-enredo e Tambor de Crioula. Ao mesmo tempo vale-se de um quarteto de saxofones, flauta, clarinete, contrabaixo acústico e piano, que em faixas como a delicada Risquei seu nome na areia e Cinelândia, um tango brasileiro a la Ernesto Nazareth, remete à sonoridade do início do século XX.

Com o apoio de ótimos cantores, as letras também realçam a melancolia, às vezes, própria dos gêneros escolhidos, como a modinha ou sambas como Vazio, Ilusão e o contundente Vício e paixão, muito bem interpretado pela voz forte e dramática de Áurea Martins. A tristeza, a solidão na multidão são mostradas como algo finito, com certo cinismo, lembrando a abordagem do tema por Paulo Vanzolini.

O cavaquinhista apresenta-se como solista apenas em Flor Amorosa de Joaquim Calado e atua no acompanhamento mantendo de choro e sambas, com sua característica de toque exato, quase econômico, firme e, distinto no contraponto à voz ou ao solo.

João divide a produção musical com Luiz Filipe de Lima e Márcio Pereira e em sua página no MySpace (http://www.myspace.com/joaocallado) podem ser ouvidas Cinelândia, Jongo, Samba-enredo, Choro para dois, e Tambor de crioula. No site da gravadora (Biscoito Fino) o leitor pode, se achar relevante, obter as informações adicionais sobre a família de João Callado. O bastante é falar do belo trabalho de um compositor que opta por tratar a seu modo alguns gêneros da música popular brasileira e os apresenta ao público tal quadros em uma exibição. É para apreciar sem moderação.

Ficha Técnica:
01- Tambor de Crioula (instrumental)
02- Enganado Coração voz: Teresa Cristina
03- Cinelândia (instrumental)
04- Jongo (instrumental)
05- Vazio voz: Alfredo Del-Penha
06- Choro pra Dois (instrumental)
07- São Jorge/Marte (instrumental)
08- Risquei Teu Nome na Areia voz: Soraya Ravenle
09- Samba-Enredo (instrumental)
10- Ilusão (João Callado/Moyseis Marques) voz: Moyseis Marques
11- Trio (instrumental)
12- Vício e Paixão (João Callado/Ivor Lancellotti) voz: Áurea Martins
13- Flor Amorosa (Joaquim A. Callado) (DP)
14- Choro Sonata (instrumental)

Áurea Alves é jornalista e edita o blog UNBUBBLE http://unbubblebr.wordpress.com e em inglês http://unbubble.wordpress.com (dedicado a divulgação de trabalhos pouco ou desconhecidos).

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