Algo A Dizer
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A Origem da Feijoada

"Meu pai dizia que a rede fazia parte da família. A rede colabora no movimento dos sonhos"
Luís da Câmara Cascudo

Por Cristiane Turon

A frase acima é do maior estudioso da história da alimentação que o Brasil já teve. Como a feijoada é um prato tipicamente brasileiro, me pareceu bastante apropriada a menção à rede, para a qual todos deveriam ter o direito de se encaminhar após uma lauta refeição com esta iguaria.
Mas vamos ao que interessa, a origem do prato mais famoso do país é controvertida e suscita discussões acaloradas. Seria ela um prato nascido nas senzalas, ou uma variação dos cozidos portugueses?
Durante muito tempo acreditou-se que, de fato, a feijoada havia sido criada pelos escravos, que recebiam os “restos” dos porcos dos seus senhores, como orelha e pé, e os misturavam com feijão preto e água.
Atualmente esta versão é bastante contestada. Vários motivos são citados para tal, já que os portugueses, assim como os demais europeus, não desperdiçavam nenhuma parte dos animais destinados ao consumo, em virtude dos vários períodos de escassez alimentar, via de regra, ocasionados pelas guerras e pestes que os acometeram. Assim, estas partes dos porcos não eram consideradas “restos”.
Por outro lado, sabe-se que a base da alimentação dos escravos no Brasil era formada por farinha de mandioca ou de milho, as quais se misturavam água e alguns temperos.
Já o português, não tinha o hábito de consumir o feijão regularmente, preferindo as favas. Da mesma forma os nossos índios, que apesar de utiliza-lo, preferiam a mandioca.
O consumo regular do feijão foi consolidado, na verdade, pelos brasileiros, ou seja, pelos descendentes dos africanos, portugueses e indígenas.
Luis da Câmara Cascudo ensina que o consumo do feijão se incorporou ao nossos hábitos graças aos bandeirantes paulistas e aos vaqueiros nordestinos, que se alimentavam basicamente de farinha de mandioca, carne seca e feijão. Eram os farnéis, constituídos de misturas secas desses alimentos (que se conservavam melhor), com algumas variações dependendo da região. O feijão era também plantado nos caminhos por onde passavam esses desbravadores e colhidos quando retornavam, sendo preparados nos pousos.
Da mesma forma, o ilustre folclorista- que diga-se de passagem não gostava dessa denominação, preferindo a de professor, o que levou-lhe a dizer em português castiço certa vez: “Os jornais, na melhor ou pior das intenções, me chamam de folclorista. Folclorista é a puta que os pariu. Eu sou um professor”- lembra que os africanos não tinham o costume de cozinhar o feijão misturado com outros ingredientes, preferindo preparar separadamente cada alimento para preservar-lhes o sabor, e também porque julgavam essas misturas indigestas.
É mais provável, portanto, que a nossa ilustre feijoada descenda dos pratos europeus que misturam carnes, legumes, verduras e grãos (favas, feijão e grão-de-bico), como o cozido português, o cassoulet francês, o cozido madrileño e a casserola italiana.
De toda sorte, o prato é conhecido como uma iguaria popular, reforçando a tese da colaboração dos africanos para a sua difusão. Também é certo, que mesmo não tendo nascido nas senzalas, o prato deve ter sido inicialmente preparado por uma cozinheira escrava da casa grande, que na falta de algum ingrediente para o preparo do cozido português, lascou-lhe o feijão preto.
Há registros de que a feijoada começou a ser servida em estabelecimentos comerciais no Rio de Janeiro, mais precisamente no restaurante G. Lobo no final do séc. XIX, que segundo consta passou a ser acompanhada de farofa, arroz, couve e laranja. Nesta mesma época, popularizou-se a feijoada da baiana Tia Ciata.
Os pesquisadores paulistas, dizem que esta iguaria nasceu por lá, tendo como fundamento a popularização do feijão por obra dos bandeirantes paulistas, e a tradição dos seus restaurantes de servirem o prato semanalmente.
Carioca ou paulista, o certo é que a nossa feijoada simples ou completa é o primeiro prato brasileiro de que se tem notícia, e segundo os entendidos de plantão, será sempre incompleta...
Cristiane Turon é tecnóloga em Gastronomia
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