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É a bufunfa, irmão, é a bufunfa, irmão

Por Maria Luiza Franco Busse

Em 24 de junho de 2013

Em seu livro ‘Quinhentos anos de periferia’, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos do governo Lula, Samuel Pinheiro Guimarães, chama atenção para as técnicas de informação que afastam o cidadão do debate e da atividade política a partir do “achincalhamento da política e da cidadania”, com as devidas conseqüências de caráter nefasto para a relação entre a sociedade e suas instituições democráticas representativas.

No acontecimento das manifestações que tomaram o país, inicialmente motivado pela redução do aumento da tarifa dos ônibus, o alerta do ‘embaixador do povo’, como o diplomata de carreira também é conhecido, parece ter confirmado o efeito da detratação sistemática que a Política e a classe política vêm enfrentando da grande imprensa, assim chamada por sua concentração de poder econômico.

O sintoma primeiro veio na forma de rechaço à presença dos partidos políticos na manifestação, o que foi saudado em matérias, editorais e comentários em colunas sociais. Uma pedagogia de despolitização que se estendeu a toda representação constituída, o que chega a comprometer a seriedade dos periódicos como a nota ‘No mais’, publicada na coluna Ancelmo Gois , em O Globo de domingo, dia 23 de junho. Dizia:

‘Quem chamou a atenção foi a cientista política Maria Celina D’Araujo:’ “Durante a ditadura, a violência foi um recurso usado pela esquerda para mudar o país. Dilma aderiu a ela. Hoje, a violência continua, não apenas como vandalismo, mas como ideologia de vários grupos. É a ideologia do confronto político pela força”. ‘Celina concluiu’ – continua a coluna: “Saia justa para a esquerda ex-violenta que está no poder”. ‘Fiz sentido’, observa o texto em seu epílogo.

Efetivamente, trata-se de um caso de ideologia do confronto político pela força, mas, dessa vez, confronto discursivo travado no campo midiático. A cientista política e o autor da nota sabem que, no tempo da ditadura, o que eles desqualificam e banalizam como vandalismo era a guerrilha que lutava pelo fim da opressão que suprimiu as liberdades democráticas e espancava, prendia e torturava os que manifestassem até mesmo em pensamento visto como ameaça à estabilidade do regime. Hoje vivemos na democracia. Não há o que confundir. Os guerrilheiros depuseram as armas e entraram na via institucional para continuar a travar o combate que é direito e dever de todos os  cidadãos que compartilham o território da pólis. Sabemos que a escrita jornalística é ideológica e o que faz a diferença é o conceito relacional que essa escritura tem com o leitor. Nesse caso, obscurantista.

Pois é em sentido oposto a essa relação acima que se inscreve a coluna assinada pelo nosso representante no Fundo Monetário Internacional, Paulo Nogueira Batista Jr. No artigo ‘Ação direta’, publicado no sábado, dia 22 de junho, no mesmo jornal, Paulo pratica o esclarecimento e provoca a reflexão num esforço de repolitizar a política no espaço que lhe cabe dialogar com os leitores. Dentre outros momentos, observa que “a desilusão com a democracia representativa” vem ganhando corpo nos quatro cantos do planeta e lança a questão que verbaliza a insatisfação: “Para que votar? – pergunta o cidadão. E com razão.

“O mercado domesticou a urna. O eleitor vota, o político se elege, mas o poder econômico dá as cartas antes, durante e principalmente depois das eleições. O dinheiro sempre mandou, não há dúvida. Mas, nos tempos recentes, manda como nunca. A turma da bufunfa é a face oculta, ou nem tanto, dos poderes eleitos. Estes fazem, não raro, mera figuração. Nos bastidores, o bufunfeiro exerce sua insidiosa influência. Uma das razões é o custo gigantesco das campanhas políticas. Sem apoio da bufunfa, nenhum partido, nenhum candidato é competitivo. Em uma palavra: a política foi colonizada pelo dinheiro. E a democracia se transfigurou em plutocracia”.

Em poucas linhas e claro como recomenda a regra primeira do texto jornalístico, Paulo desloca para a ordem da consistência e, novamente, do esclarecimento, o discurso vazio, menor, vingativo, raivoso e manipulador com que a mídia trata e trabalha o tema da corrupção, modo que mais desinforma e promove deliberada confusão, muito distante e aquém do sentido popular, transgressor e ampliado do velho guerreiro Abelardo Chacrinha Barbosa que dizia estar aí para confundir. “É a cabeça, irmão, é a cabeça, irmão”, cantava o compositor de vanguarda Walter Franco nos idos de 1972, numa melodia que bem acolhe a atualização para “É a bufunfa, irmão, é a bufunfa, irmão”, no sentido sistêmico e politizado com que Paulo faz pensar o assunto.

Maria Luiza Franco Busse é jornalista e doutora em Semiologia pela UFRJ

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