Algo A Dizer
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Questão de ordem

Por Afonso Guerra-Baião

Vejo pichada em muros da cidade a frase: “Morte ao capitalismo”. Penso ouvir nela ecos de palavras de ordem das manifestações públicas que estão acontecendo nos grandes centros. Pesquiso na web, a mesma ferramenta de mobilização desses movimentos. A busca me conduz direto ao site do PSTU, cujas bandeiras vejo onipresentes nas coberturas feitas pelas emissoras de televisão, e lá encontro o título de um editorial: “O capitalismo mata; morte ao capitalismo”.

Tudo bem. Talvez não se trate de simples protesto contra o aumento das tarifas de ônibus ou contra os gastos com as Copas. Talvez se trate mesmo do começo de uma revolução. Como saber? Estou longe da zona do agrião e perto demais no tempo para poder entender (quanto mais para julgar) algo que é, no mínimo, complexo. Mas, na busca de entender melhor o que se passa, tento dialogar. Não dialogar com a polícia, pois um dos comandantes já declarou que “com o Choque não tem diálogo”; não dialogar com os governantes, pois não tenho representação para isso; dialogo com meus iguais, esses cidadãos que se mobilizam no exercício de seus direitos: não com todos esses, mas com aqueles que chegaram mais perto de mim, com sua consigna escrita nos muros, provocando minha resposta. E minha resposta não dever ser paternalista nem liberal, mas crítica e problematizadora, como queria Paulo Freire. Ela é na verdade uma questão. Eis a questão: “Morte ao capitalismo” não é uma frase qualquer, ela é uma sentença de morte. Ora, uma sentença de morte é um discurso de poder, o que parece justificar a afirmativa de Roland Barthes de que o poder está “emboscado em todo e qualquer discurso, mesmo quando este parte de um lugar fora do poder. O poder está não somente no Estado, nas classes, nos grupos, mas ainda nas modas, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nas informações, nas relações privadas, e até mesmo nos impulsos libertadores que tentam contestá-lo”. Essa sentença justifica também o que disse Michel Foucault: “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo, e sim porque provém de todos os lugares. Isto implica que as próprias lutas contra o seu funcionamento não possam ser feitas de fora, do exterior, pois nada nem ninguém está livre de poder”.

Termino propondo outra palavra (não de ordem, mas de sedução), aquela com que Barthes encerra sua Aula: “Nenhum poder, um pouco de saber e o máximo possível de sabor”.

Afonso Guerra-Baião é professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo

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Comentários
  Valéria S. Dantas Lopes
21/07/2013

Oi, Afonso, bom-dia! Vejo isso e sinto tanto alívio quanto preocupação. Alívio, pela atitude, em despertar, ainda que em tempo, a indignação; preocupação, pelo rumo que levam, levaram e levarão as atitudes. Tudo é muito confuso, há uma mistura de interesses, eu acho. Não entendo de política, me irrito com as leis e, como qualquer pessoa de bem, quero um país mais justo e melhor. Seu texto é excelente, Afonso! Adorei que tenha finalizado com saber, poder e sabor. Tudo na vida começa pela boca. E o sabor enriquece o saber, combatendo o poder. As atitudes devem ser prazerosas e, se preciso for, perder para o poder. É complicado, né? Adorei. Um abraço, Valéria Lopes.
 
 

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