Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Banco de amigas

Por Marilena Montanari

Chega uma hora na vida em que acabamos ficando sozinhas. Se existem companheiros, eles estarão mais preocupados em cuidar da horta, jogar baralho ou se reunir com os amigos do que  em ficar com você.

Os interesses, que antes eram comuns por força de uma convivência pacífica, hoje se dividem. Não há mais necessidade de se pensar tudo igual.

Filhos e netos ficam e vão. Crescem, casam-se, escolhem amigos e, aos poucos, vão se esquecendo daquelas jornadas de prova com a mãe que tomava a lição ou marcava presença nas festas da escola e até em incômodas reuniões de diretoria. Esquecem-se das brincadeiras que só a vovó maluquinha fazia ou daquele macarrão com letrinhas, sempre a mesma pedida na casa da nonna.

Todos vão alçando voo na busca de uma vida a ser construída longe da casa materna. Talvez em outro país tão bom para se morar como os Estados Unidos; em algum rincão da Venezuela ou num hospital plantado no meio de Roraima. Podem ainda morrer de calor em Cuiabá ou se encolher de frio em Curitiba.

Como ficamos, então?

Algumas mulheres se envolvem em grupos de internet, dança, canto, ginástica, igreja e, nesse caminho, vão refazendo sua rede de relacionamentos.

Outras voltam a trabalhar ou se empenham em tarefas voluntárias.

Mas uma conquista permanece para sempre: as amigas. Falo essencialmente do universo feminino. Conheço sólidas relações entre amigos. Tão boas quanto, embora diferentes.

Amigas se importam umas com as outras. Trocam confidências. Destilam segredos e pecados em confiança.

Aí eu penso na coitada da Eva. O dito popular diz que Adão foi feliz por não ter sogra, mas não registra a infelicidade da Eva por não ter tido amigas.

Amigas são sinceras e podem até ser um tanto grosseiras. A verdade às vezes machuca, mas tem de ser dita. Sabemos que podemos contar com elas “na alegria e na tristeza”. São implicantes algumas vezes. São mulheres. E quantas mulheres deliciosamente implicantes, enérgicas, chatas mesmo nos puseram na linha ou nos mostraram o lado escondido de defeitos que não enxergávamos ou que despertaram sentimentos que nem sabíamos ser capazes de expressar? Elas nos fizeram perceber a própria mesquinhez ou, ao contrário, nossa infinita capacidade de fazer o bem.

Não seria bom se houvesse um banco de amigas?

Se baixasse a deprê e sua conta estivesse negativa, você deveria sacar aquela amiga zen, que só tem palavras de estímulo, que te acha o máximo. E, rapidinho, você equilibraria suas finanças afetivas.

Poderia sacar também uma amiga chique cuja simples presença lhe dá prazer. Ela viria com uma porção de ideias modernas e ainda lhe faria o empréstimo de um vestido deslumbrante para você arrasar na festa.

Algumas você teria que aplicar no VGBL Elas te darão um bom rendimento. São aquelas que conhecem todo o mundo, que vão atrás de patrocínio para o seu projeto, que investem no seu sucesso.

Outras você preferiria não arriscar. Guardaria na Caderneta de Poupança. Rendimento lento, certo e para sempre. Só mexeria se fosse muito necessário. Essas garantem seu futuro.

Certamente, as amigas que moram perto de você e que dividem almoços e mimos com os netos, você precisaria resgatar quase a toda hora. Num momento de aperto, elas olhariam a casa, dariam comida para os cachorros e ainda levariam uma torta cremosa de espinafre se soubessem que você teria visitas e não daria conta do recado.

No cofre, você guardaria as amigas que sabem tudo, lentamente substituídas pelo Google: tem que ou tem de? / Como fazer uma torta de queijo? / Como tirar mancha de café? / Como se conjuga o passado remoto do verbo dire em italiano? / Liquidação, onde? E teria de tomar muito cuidado para não perder a chave.

Se você é uma andarilha, passaria no banco e levaria de carona aquela amiga sempre pronta a pegar uma estrada com você. Aqui mesmo ou do outro lado do mundo. Viajando com amigas tudo pode acontecer. Mancadas e acertos que ficarão só entre vocês. No entanto, trata-se de uma operação de risco. No fim da viagem poderão selar esse companheirismo para sempre ou nunca mais irão se falar.

Infelizmente, nem sempre as coisas iriam bem e teríamos de encarar o movimento de sobe-e-desce das aplicações na Bolsa. As perdas e ganhos do mercado viriam conosco. Uma não pode mais andar. Outra está em agonia. Aquela vem perdendo os movimentos para uma esclerose múltipla. A mais querida geme de dor numa UTI. E sofreríamos com elas.

Entretanto, nossos corações, gestores de tantas ações, saberiam o momento exato de comprar e vender. Embora tudo estivesse em baixa, acreditaríamos na alta das pequenas coisas repartidas e confidenciadas. E,  se fôssemos nós a adoecer e chovessem e-mails e telefonemas de quem se preocupasse conosco,  esse ganho  extra  poderia nos levar à cura.

Em parcelas, na garantia de um cartão de crédito.

Penso que esse banco deva ser edificado “do lado esquerdo do peito”, como diz a canção. E que as aplicações deverão ser contínuas. Amigas de colégio, de faculdade, de clube, de cinco minutos atrás. Não importa. Investir em um Título de Capitalização de amigas é lucro certo.

Marilena Esberard de Lauro Montanari é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP. Tem artigos espalhados em revistas e folhetins; atua em empresas como consultora para a produção de textos e instrutora de cursos de Redação e Gramática. Publicou o fichário SOS-Língua Portuguesa, em parceria com Edna Maria Barian Perrotti

Envie seu comentário:
Nome:*
Email:**
Comentário
Imagem de verificação

*Campo obrigatório
**O e-mail não é obrigatório e não será exibido no comentário
 

contato@algoadizer.com.br | Webmaster: Marcelo Nunes | Design - Pat Duarte