Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Na enfermaria

Por Valéria Lopes

— Dona Lurdinha, não achei a 9.1, trouxe essa aqui, ó.

— Deixe eu ver...

— É outra marca, mas o vendedor disse que dá de mil a zero na sua.

— Clô, não era pra comprar! Não tinha, me ligava...

— Mas é melhor, dona Lurdinha, o homem garantiu. Tá escrito aqui: louro acinzentado com mais poder de brilho. Deve ser muito boa.

— Vou usar, porque não vou à festa com fios brancos aparecendo.

— Também acho.

— Vai misturando, enquanto pego os grampos e o pente.

— A consistênça é maravilhosa, vê... E não fede tanto.

— Quero ver se  o resultado é bom, isso, sim.

— Dona Lurdinha, ontem, aproveitei a folga pra visitar a Ludimila, minha colega que fez xerectomia. A senhora já fez xerectomia?

— Hã??

— XERECTOMIA! Aquela operação que tiram tudo da barriga da mulé...

— Histerectomia, criatura!

— Eu lá sei falar esse palavrão?! A senhora não vai acreditar o que aconteceu naquela enfermaria... A Ludimila, coitada, toda estrupiada, me contava da operação, quando o homem, da cama ao lado, que tinha um tubo enfiado bem aqui, ó, no estômogo, deu de se mexer.

— Ah, deve ser o tubo de alimentação...

— Nossa, como a comida passa por um tubinho de prástico? Credo!

— Clô, preste atenção, tá pingando tinta em cima de mim!

— DESCULPA, DONA LURDINHA! Então, né, o homem deu de gemer.

— Estava roncando?

— Antes fosse. Ele tava  peidando, se revirando e se esticando, tentando me segurar, parecia que queria alguma coisa. Eu disse: “Desafasta, moço! Vou chamar a enfermeira...” Não deu tempo. Ele deu um pum alto, mas tão alto e começou a puxar a fralda. Foi tudo rápido. Quando dei por mim, o homem tava pelado, todo borrado e o pior: botando a mão na merda e jogando pra tudo quanto é lado.

— Caraaaaca! Era velho?

— Eeera. As coisa tudo murcha, quase não dava pra ver de tão pequeno que era o pinto dele boiando na merda.

— Minha nossa senhora... Ai, ai, ai!

— A senhora tá rindo? Corri pro corredor: “Socorro, corre, enfermeira! O velho endoidou e tá jogando merda nim todo mundo! E tá puxando o tubo também.”

— Coitadinho!

— Quando eu tiver cabelo branco, vou comprar essa tinta pra mim... É boa mesmo... Aí, a minha colega se cobriu com o lençol todo borrado de merda, até a cabeça. Eu arriei embaixo da cama. Para de rir, dona Lurdinha!

— Putz grillow, cada uma que te acontece... Passa direito no cocuruto, porque tá cheio de fio branco aí.

— Aqui na frente também. Tô caprichando, podexá. Daí, vinheram um médico e duas enfermeira. O médico, dona Lurdinha, era uma paisagi. Aquele ali, se jogasse merda nimim, eu dizia: “Joga mais! Me lambuza!”

— Eu, hein, Clô! Que nojo!

— A senhora precisava de ver QUIHOMI... Lindo de morrer, de viver, de deitar e rolar... Ele pegou um lençol e fez de cortininha, se protegendo, sabe? E foi se aproximando do velho e dizendo: “Joga mais, seu Neves, pode jogar!”

— Meu Deus do céu!

— Dona Lurdinha, acho que o tal do seu Neves não cagava há séculos, porque a fralda, a cama, a parede, já tava tudo sujo e ainda saía mais cocô! Quase que chamo Raul e despejo os bofe pra fora, me segurei por causa do médico, aquele espetáculo de homem fazendo a cena de como dar o bote no velho adoidado, não era pra se perder...

— E conseguiu?

— Rãrã... Jogou o lençol em cima do velho prendeu com força, enquanto a enfermeira aplicava a injeção nele.

— Nossa mãe!

— Logo, logo, o homem dormiu e começaram a limpar.

— Ele deve ter surtado por causa de algum remédio...

— O quarto fedia, mas fedia tanto... Daí, a Ludimila olhou pra minha cara e deu de rir. Ela ria e segurava a barriga, dizendo: “Ai, não posso rir, tá doendo tudo...”

— Ataque de riso atrasado?

— Não. Era porque tinha cocô bem no meio da minha testa. Corri pro banheiro e lavei. Ainda bem que aprendi com a senhora a carregar um gelzinho na bolsa. Foi a sorte. Esfreguei sabonete e passei o gel.

— Que perigo! As fezes podem estar contaminadas...

— Não diga isso nem brincando, dona Lurdinha. Deus me livre, eu ficar doente. Se bem que se fosse pra ser tratada por aquele médico, valia a pena.

— Não fale besteira, Clô!

— Ó, que maravilha de tinta! Não tem mais nenhum fio branco. Agora, é só esperar mais uns minutos pra lavar.

— Vou ver no espelho...

— Vai, enquanto lavo a vasilha e o pincel.

— CLÔÔ!!

— Que susto, dona Lurdinha, que foi?

— Olhe a cor que tá ficando o meu cabelo? Quiimerda!

— Icha! Parece um  cinza, meio azulado, meio prata, meio num sei o quê... Dona Lurdinha, me desculpa, me perdoa, mas não tive culpa. O homem me garantiu que era ingual que nem a outra cor, só que melhor. E a senhora só gosta de coisa boa... Quer que eu compro outra com o meu dinheiro?

— Tsc... Eu, hein! E não dá tempo pra esperar a farmácia entregar... Ai, meu Deus, daqui a pouco o Rodrigo Otávio chega e vai querer sair logo...

— Já sei, dona Lurdinha! Eu tenho uma peruca lá no meu quartinho. É loura,  como o seu cabelo. Comprei pra ficar parecida com a senhora. Quer que eu pego?

— Aff!

Valéria Lopes é escritora

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Comentários
  Maria Balé
09/07/2013

Valéria, primeiro, tive que parar pra rir de 'xerectomia'... Depois de rir muito, retomei a leitura e, éca, que nojo do companheiro de enfermaria da amiga da Clô... Saúde pública, tudo junto e misturado. Ô, My God! E o cabelo de cor indefinida, que mico! Agora, quero saber se a Dona Lurdinha foi à festa com a peruca loira. Espero pelo próximo capítulo. Beijos
 
  Vera Regina
12/07/2013

Depois divulga a marca da tinta, por favor! Fiquei imaginando como seria uma xerectomia... Beijos.
 
 

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