Algo A Dizer
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Pedagogia do suprimido

Por Daniel Russell Ribas

Os vetores jornalísticos deste Algo a Dizer – arte, cultura e política – se entrelaçam e se fundem na obra e na vida do músico, escritor e agitador cultural Zeh Gustavo. Da militância sindical à presença constante nas manifestações deste vibrante 2013; das resenhas de cinema publicadas no Algo, em que publicava como Gustavo Dumas, aos poemas de “Idade do Zero” (Escrituras, 2005) e “A Perspectiva do Quase” (Arte Paubrasil, 2008); dos sambas do Terreiro de Breque ao carnaval do Cordão do Prata Preta, Zeh Gustavo mantém voz viva e atuante a ecoar nas ruas, nas rodas de samba e nas redes sociais.

Brincando sério com um expoente de nossos melhores e mais humanos ideais, o educador Paulo Freire, o autor lança agora “Pedagogia do Suprimido”, pela editora Verve, e concedeu essa entrevista ao editor e escritor Daniel Russell Ribas, às vésperas do primeiro lançamento do livro (dia 21/8, no Boteco Salvação, no Rio de Janeiro).

Daniel Russell Ribas – Como surgiu a ideia do livro “Pedagogia do Suprimido”?

Zeh Gustavo – Eu notei que estava morrendo. E pelas garras torpes de meus algozes. Sim, podem me chamar de neurótico, eu realmente vejo coisas. Daí fui buscar na infância como isso começou. Na memória de como foi se instituindo essa proposta de apagamento de nosso viço e ânimo, que nunca aceitei mas na qual eu já me afogava, quase me dando por suprimido. Existe um curso geral de desabrasamento do indivíduo; uma pedagogia de morte em vida. Tento repisar esse movimento, radiografá-lo poeticamente, sempre no busco de suas rachaduras, desde antes no apontamento de uma possível via de contramão.

Daniel Russell Ribas – Como foi o processo de escrita? Os poemas são escritos para o livro ou eles se juntam e formam a obra?

Zeh Gustavo – Eles se juntam. E se formam. E disformam a obra. Para conseguir um constructo fragmentário como um livro de poemas, que ainda por cima tem a pretensão de querer dizer um sem-naipe de coisas, é preciso uma dose imprecisa de ritmo literário e vida pulsante. O autor tem que manter o controle do leme dessa nau libertária, sem se tornar um burocrata. Não é tarefa das mais fáceis não.

Daniel Russell Ribas – O título “Pedagogia do Suprimido” referencia a obra de Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”. Quais foram as inspirações para o livro?

Zeh Gustavo – A compressão foi tanta que o oprimido suprimiu-se. É desesperador notar a expiração progressiva dos sentidos de vida de hordas de seres urbanos. Mas também é inspirador, claro. Freire propôs uma educação libertária feita pelo e para o oprimido. Eu flagro o que se sucedeu, a que ponto chegou o regime que Freire denunciava, regime que evidentemente extrapola os ambientes escolares e universitários. Deu numa educação midiática, que se afirmou como provedora de gado para o mercado. Desumanizante, tecnicista, maquinal e emburrecedora. Falam hoje em necessidade de investimento maciço na educação. Se for nessa educação supressora, eu tô fora dessa reivindicação! Prefiro passear pelos escombros do que sobrou.

Daniel Russell Ribas – Segundo o autor Rodrigo Domit, seus livros anteriores, “Idade do Zero” e “A Perspectiva do Quase”, formariam as duas primeiras partes de uma trilogia. “Pedagogia do Suprimido” foi escrito com isso em mente ou se trata de uma obra independente?

Zeh Gustavo – A obra é circular. Redundante mesmo, eu diria. Eu volto aos meus incômodos. Eles continuam lá, dentro e fora de mim. A literatura não vem resolver nada. Só faz complicar, contestar, perturbar. As questões vão e voltam. A trilogia pode virar tetralogia. Pode nem obedecer mais a qualquer lógica de alinhamento, de preferência vai ser é assim mesmo, como você disse, “obras independentes” (elas existem?). Nesse fluxo, o suprimido esteve sim para quase, já foi um zero e pode se tornar uma mera vírgula.

Daniel Russell Ribas – Recentemente, o país passou por uma onda de manifestações populares como não se via há 20 anos. Acredita que seu livro “Pedagogia do Suprimido” reflete este Brasil atual e suas reivindicações?

Zeh Gustavo – Sem dúvida. Meu livro é de diagnóstico. E pretende reexcitar. E o que as ruas têm feito é isso: libidinar um mundo estéril, frio, dopado pelo consumo, guiado pelo racionamento de emoções, pela comercialização e descartabilidade das gentes. As pessoas parece que estão descobrindo que estavam a agir de mortas. Sentiram ao menos o cheiro do próprio mofo. O suprimido pode sim estar em rebelação.

Daniel Russell Ribas – A poesia deve ter uma função social ou transcender este conceito? Como lida com isso no seu trabalho?

Zeh Gustavo – A poesia carrega como linguagem um potencial transgressor, uma força de desarrumação do código e dos valores estatuídos, que não devem ser ignorados por quem a pratica. É muito triste o escritor alienado do próprio poder criativo, posto a reproduzir a fala mansa do poderio. A poesia mexe com as profundezas da linguagem. Não à toa, escritores chapa-branca, a editorialeza reinante e os pseudointelectuais mortos de espírito costumam inclusive escarnecer do fazer poético. Poesia é uma baita duma arma. Tem que saber empunhá-la, manejá-la para atirar na putada. Certeiramente, pela palavra, no alvo: pá!

Daniel Russell Ribas – Muitos de seus textos abordam a cultura popular em um ambiente urbano, com o tempo e suas mudanças sendo fatores presentes. Isto seria uma preocupação/ identidade autoral? Quais temas lhe atraem como escritor?

Zeh Gustavo – Não me pré-ocupam temas. Poesia mistura muita voz. A do autor é apenas uma delas. Como tô aí sempre, sou da rua, da música, tenho medo da morte e nutro sentimentos de amor e desejos de revolução, ouço muito por aí. Isso me ajuda a criar, sim, entra na obra. Não vou falar de tecnologia, nem de dias amenos, vazios existenciais de egos ocos por demais, como vejo em romancinhos de vida acadêmica que têm por aí. Prefiro outros vazios existenciais, repletos de demônios, questões e também com uma ânsia de fé, ainda que de viés, na luta e na vida que ainda resiste humana.

Daniel Russell Ribas – Sua poesia costuma narrar histórias em versos. Você definiria seu estilo como poesia narrativa? Caso sim, por que este estilo?

Zeh Gustavo – As histórias compõem um cenário para uma dramatização poética. Estão a serviço da poemação. As narrativas não são lineares, são emersões de lembramentos, impercepções sobre o cotidiano, sagração de desajustes oportunos à poética que tento. Será estilo, isso? Sei não.

Daniel Russell Ribas – Além de escritor, você é músico. Acredita que suas manifestações artísticas interferem uma na outra, são complementares ou independentes?

Zeh Gustavo – Autores que não se conformam com muros fazem isso, em profusão. Sérgio Ricardo pinta e borda, escreve e aboia, canta e encena. Machado de Assis não era poeta e dramaturgo? A akadimia tenta dizer que não, que não dá pra fazer bem mais de uma coisa, fica comparando como um autor se vira ao variar de gênero criativo... Bobeiragem, da pura. A vida é veias e vozes. Tudo se cambeia.

Daniel Russell Ribas – Como sua literatura se encaixa na produção contemporânea?

Zeh Gustavo – Ela não se encaixa. Nem foi feita para isso. Seria uma crueldade com a pobrezinha. Faço uma poesia para descortinar e reavivar sentidos, não para enquadrar nada nem ninguém. Tampouco vou servir para ser enquadrado, também. Não vai funcionar. Daí que me ignorem, tudo bem. Quando todos os bares estão fechados, eu sempre dou meu jeito de desentocar uma última dose de trago. Tá servido, meu kamba?

Daniel Russell Ribas é editor e escritor

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Comentários
  Zeh Gustavo
20/08/2013

Valeu, pessoal do Algo! O primeiro lançamento do livro será neste dia 21/8. Mais informações em: https://www.facebook.com/events/164798287043875/?ref=22
 
  Alaine
05/10/2013

Gosto da forma do Zeh Gustavo. Seu discurso caprichoso, porém, sem tanta vaidade. Típico dos artistas que não vendem a alma, emprestam apenas, quando dá na telha. Arte, só se for oxigenada,vibrante e pura! A 'acadimia' tá cheia de lixeratura!
 
 

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