Algo A Dizer
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Revisitando Bandeira

Por Afonso Guerra-Baião

Maçã

(Manuel Bandeira)

 

Por um lado te vejo como um seio murcho

Por outro como um ventre

Cujo umbigo pende ainda o cordão placentário

És vermelha como o amor divino

Dentro de ti

em pequenas pevides

palpita a vida prodigiosa

Infinitamente...

 

E quedas tão simples

Ao lado de um talher

Num quarto pobre de hotel

 

Nesse texto a maçã aparece como objeto de um olhar, tal como classicamente se dá em sua relação com os pintores. A diferença é que, enquanto ao olhar do pintor ela é uma natureza morta, aqui, ao olhar do poeta, ela é aproximada ao ser vivo, ao ser humano. Ela é comparada a partes do corpo humano: seio, ventre, por sua forma arredondada. O pequeno caule é comparado ao cordão placentário. Junto com o humano ele é aproximada à divindade – ao amor divino: o vermelho, cor do sangue, púrpura dos reis, envolve sua polpa, no interior da qual as pevides (sementes) são fontes milagrosas de vida eterna. No final, ainda animada, pois ainda interlocutora, destinatária da fala do poeta, ela sofre uma redução: ela é aproximada à condição de objeto pictórico, de natureza morta, ela é aproximada aos objetos, ao mundo inanimado, colocada ao lado do talher, no quarto de um hotel. O quarto de hotel é pobre, a maçã “queda” e se torna simples. Ela que se apresentava numa perspectiva de progressiva complexidade, retorna ao simples, ao estático, ao inerme. A viagem do poeta através da maçã, a viagem da maçã através do poema, é metáfora da  relação dinâmica entre a transcendência e a imanência dos seres, entre a simplicidade e a complexidade da existência: essa dialética é uma marca característica de toda a obra do grande poeta pernambucano.

No 13 de outubro fez 45 anos que partiu para sua Pasárgada aquele que, no verso de Guilherme de Almeida, foi “Manuel, bandeira do Brasil”.

Afonso Guerra-Baião é professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo

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Comentários
  Valéria S. Dantas Lopes
06/11/2013

Tão bom revisitar Manuel Bandeira quanto revistar você, Afonso! Belo poema, perfeita análise. Parabéns! Um abraço, Valéria Lopes.
 
  Maria Balé
10/11/2013

Afonso, só você, conhecedor da gênese e da força da poesia para focar sua luz sobre o que, até então, pra mim, era (quase é, ainda) hermético. Uma aula magna. Aprendi mais um vocábulo: pevide. Muito bom! Um beijo
 
 

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