Algo A Dizer
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Raízes urbanas

Por Marilena Montanari

— Como? Um abacate amassou seu carro? Na avenida? O senhor está me gozando?

— Não estou, não. É verdade. Estacionei naquela alameda ali, embaixo de um abacateiro. Um fruto caiu e amassou o capô. Apesar de tudo, tive sorte. Antes ele do que eu!

Dá para imaginar um diálogo como esse na maior metrópole da América do Sul? Abacates caindo maduros dos pés?

Pois é a realidade. Tudo bem, não é em todo bairro, mas, de vez em quando, nos deparamos com goiabeiras, ameixeiras, pitangueiras e (cuidado!) até pés de jaca espalhados pelas ruas. Assim, displicentes. Alguém cuida? Alguém rega? Podas são necessárias porque atrapalham a rede elétrica ou de telefonia. Fora isso...

Morrer com a poluição? Ficar sem ar? Nunca. Impedidas de se locomover, as árvores dão um jeitinho de fazer sua parte. Oferecem abrigo e alimento a uma infinidade de pequenos organismos, enfeitam e oferecem frutos, ainda que meio encardidos de fuligem. Quebram o céu cinzento escancarando flores para um sol sedutor.

E os passarinhos? Já repararam neles? Todos os cantos e matizes cabem numa só primavera. Trinados e estranhos ruídos também.

Não é que outro dia acordei com um toque-toque misterioso no telhado? A princípio me assustei. Depois percebi um sabiá gigante tentando quebrar em pedacinhos comestíveis a ração da cachorra. Vejam só. Uma filada aqui, uma rasteira de algum poodle estressado, uma escapada do bote de um angorá de unhas afiadas, tudo vale o risco. Isso é que é capacidade de adaptação!

Como aquelas árvores de que falava, guerreiras. Mesmo vivendo apertadas num minúsculo espaço de terra rodeado por concreto, elas desnudam indecorosas raízes nas calçadas. Parecem dizer: — Com licença, precisamos respirar!

Vira e mexe, tropeço nelas, distraída, e até me intimido, quase pedindo desculpas. O caso é que costumo caminhar olhando para o alto. Saio de manhã bem cedo. Prefiro respirar esse arzinho frio, mas um pouco menos poluído, quando ainda não há muitos veículos circulando.

Gosto de observar os ipês amarelos, as quaresmeiras cor-de-rosa e lilás, as patas-de-vaca brancas e os vários tons das trepadeiras, enroscadas nos muros e portões, ou colorindo telhados sem graça.

Cruzo com amigos e vizinhos muitas vezes sem me dar conta da presença deles, tão entretida nas minhas observações. E corro o risco de pisar no lixo, que se acumula aqui e ali, nas calçadas, nas portas das casas, dos restaurantes, dos colégios...

Infelizmente, dói a constatação de que nós, moradores da grande cidade, silenciosos e agressivos como uma doença crônica e invasiva, estamos contaminando nosso hábitat. Redutos de fétidos detritos vêm disfarçados num paisagismo exuberante e paliativo.

Que não consegue esconder os ratos, senhores absolutos do espaço urbano. Eles já não habitam apenas favelas malcheirosas, mas desfilam felizes como personagens de desenho animado nos forros dos telhados das casas mais nobres. 

Como deixamos isso acontecer? Até pequenas atitudes irresponsáveis como jogar o papel do sorvete na rua ou displicentemente atirar a bituca do cigarro no meio-fio podem causar um grande transtorno quando entopem bueiros ou são engolidos por aves e outros pequenos animais.

Muitos grupos já perceberam a ameaça e estão, cada um a seu modo, desenvolvendo tarefas que ajudam a melhorar o meio ambiente: despoluir rios; reciclar matéria-prima; impedir queimadas; reflorestar; cuidar da biodiversidade.

Senão, daqui a pouco sumirão do mapa urbano as audazes raízes esparramadas nas calçadas e, do jeito que as coisas estão, aqueles pássaros atrevidos dos quintais poderão até virar seres mutantes: uma maritaca que late, um bem-te-vi que mia...

Até as cores serão restos de memórias. Fragmentos indecifráveis de luz E precisaremos fazer um esforço danado para não sucumbir à mesmice dos mais de 50 tons de cinza que se espalharão na sem-graceza da vida superurbana.

Marilena Esberard de Lauro Montanari é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP. Tem artigos espalhados em revistas e folhetins; atua em empresas como consultora para a produção de textos e instrutora de cursos de Redação e Gramática. Publicou o fichário SOS-Língua Portuguesa, em parceria com Edna Maria Barian Perrotti

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Comentários
  Valéria S. Dantas Lopes
03/12/2013

Parabéns, Marilena. Adorei. Caminhei com você, com o olhar atento e o coração aflito. Por que as coisas são tão difíceis, não é mesmo? Um beijo.
 
 

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