Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Entrada triunfal

Por Valéria Lopes

— Senhor, por favor, dirija-se para trás da faixa amarela. Há objetos de metal, moedas, celular?

O rapaz retorna e coloca, na caixa de acrílico, a carteira e o celular.

PIPIPI...

— Por favor, senhor, verifique se não há moedas nos bolsos... – o segurança estica o pescoço – Guarda-chuva, caixa de óculos...

O rapaz puxa o forro dos bolsos para fora da calça. Põe a agenda, uma caneta e o jornal, dentro da caixa. Retorna à faixa amarela.

PIPIPI...

— Senhor, há metal junto ao seu corpo? Pinça, tesourinha, alicate... Moeda escondida em algum lugar?

A fila aumenta e o calor insuportável contribui para a impaciência das pessoas que desejam entrar logo no banco, por causa do ar condicionado. O burburinho começa.

— Ei, meu jovem, tire o cinto! – grita o guardador de carros.

O rapaz suando e visivelmente irritado, afrouxa o cinto e o coloca na caixa.

PIPIPI...

— Senhor, por favor, tem certeza de que não há nada, nenhuma moeda?

Ele tira a camisa e tenta passar. As mulheres não se contém.

— Oba! Tá começando a ficar bom...

PIPIPI...

— Senhor, há alguma coisa travando! A porta...

— A porta é o ...! Olha aqui, quer ver como entro nessa joça?

Abre o botão da calça e abaixa o zí­per, sem nenhum constrangimento.

O tumulto é inevitável:

— Que espetáculo! E eu que reclamei de vir ao banco hoje!

A mulherada instiga:

— TIRA! TIRA! TIRA!

— Senhor, senhor, – grita o segurança – não há necessidade de...

Já sem a calça, só de cueca, tira os tênis e as meias.

Os aposentados que jogam buraco na praça, em frente ao banco, já estão de pé presenciando a baderna. Até as pombas param de ciscar as migalhas de pão.

— Jesus, perdoe essa pobre alma! O mundo está perdido. – resmunga uma senhora tampando os olhos com a bolsa.

Os clientes, dentro do banco, se dispersam para a entrada e ficam a espiar através do vidro. Batem palmas, gritam. Tem gente até que tira foto com o celular.

Alto, musculoso, tatuagem egípcia no braço esquerdo, abdômen de tanquinho. E quase pelado.

— Iiiih quer aparecer... Já fez o showzinho dele. – diz o motoboy raquítico.

— Se o senhor não liberar esta porcaria, vou tirar a cueca e mostrar pra todo mundo o meu piercing e olha – começa a pular – não cai moeda nenhuma, porque tá escondida. Quer procurar?

— TIRA! TIRA! TIRA!

A porta é liberada.

Vem gerente, subgerente, caixa, coordenador, faxineiro, todo mundo tomar satisfação com o rapaz que se defende dizendo que chegara ao seu limite.

— O senhor há de convir que sua atitude é um atentado ao pudor, é contra a moral e os bons costumes, há senhoras no banco. Aqui é um lugar de respeito e de ordem – fala a gerente, tentando se impor, mas sem conseguir desviar os olhos do dote do rapaz. – Peço-lhe que me acompanhe. Vou levá-lo ao toalete para se recompor.

Ele a segue sob os olhares e os falares animados dos clientes:

— Olha o cofrinho dele, menina!

— Que homem! Ô, lá em casa...

— Uma paisagem!

— Espia o andar...

— Que pegada deve ter, hein?

— Esperta, essa gerente...

Quando ele volta, todos batem palmas. Já é uma celebridade.

— É isso mesmo, você tá certo. Outro dia, quase tiro a roupa toda também. – diz uma mulher de bermuda de lycra e toalhinha no ombro – Só não fiz porque não estava depilada.

— É de propósito, só pode ser... Ladrão quando quer, entra. Gente de bem é barrada e dizem que é a porta, ora! – esbraveja um aposentado cheio de envelopes na mão.

As meninas do caixa ficam a disputar quem vai atender o rapaz.

O sistema cai.

— Vai demorar?

— É imprevisí­vel...

— Odeio banco.

— Eu também. Mas hoje tá valendo a pena. Vai ficar pra História...

O aposentado anda de um lado para o outro.

O raquítico rói as unhas.

A mulher, de bermuda de lycra, não tira os olhos do rapaz sarado. De vez em quando, seca o suor da testa com a toalhinha que traz no ombro.

O sistema volta.

A fila anda.

O aposentado bufa e grita:

— Se o sistema cair novamente vou me enforcar que nem o Getúlio Vargas!!

Já de saí­da, o rapaz sarado, passa pelo aposentado e diz com um sorriso irônico:

— E da próxima vez que eu for barrado, na porta do banco, vou dar um tiro no peito que nem Tiradentes.

Valéria Lopes é escritora

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Comentários
  Elisabeth Dantas Palhares
06/11/2013

Muito bom! Sua criatividade não tem limite. A-do-rei! Mil beijos!
 
  Alexandre Brandão
07/11/2013

Divertidíssimo, Valéria. A moça com o lencinho no ombro (que não é um quadro de Vermeer) é o máximo.
 
  Maria Balé
10/11/2013

Sensacional, Valéria! Uma narrativa tão precisa para ocorrências cotidianas quanto bem-humorada. Você transformou o trágico em poética engraçada. Tô com peninha do motoboy raquítico. Foi embora se sentindo inferiorizado pelos atributos do cliente sarado. Adorei! Beijos
 
 

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