Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

As veias abertas das relações cotidianas

Por Maria Luiza Franco Busse

“Há suor humano na argamassa do seu calçamento.”

João do Rio

Palavras-chave: rua, virtual, mobilidade, comunicação e simbólico

O traçado das ruas e o desenho das plataformas virtuais são modos de dizer como devemos nos movimentar nesses espaços de mobilidade física e simbólica. No primeiro caso, o ambiente é concebido na perspectiva de lugar coletivo para uso do indivíduo. Já no plano virtual, o indivíduo protagoniza a concepção e se encarrega de coletivizar os próprios percursos existenciais imprimindo comunicação ao seu aparato simbólico. Entretanto, apesar da natureza diferente, o que se verifica em ambos é a presença concreta do conflito que desde sempre caracterizaram as ruas, mas não necessariamente a virtualidade cibernética que pressupõe a possibilidade de cada um manejar com absoluto domínio e autonomia as relações e manifestar como bem entende as vontades, desejos, idiossincrasias e tudo mais o que tiver em potência. Isso, na grande maioria das vezes, sem a mediação das regras elementares da sociabilidade que balizam o vaivém cotidiano das ruas onde toda sorte de gente se cruza, esbarra, partilha o mesmo pavimento, testemunha eventos, atua e assiste, mesmo sem querer, às transformações do comportamento tanto urbanístico e arquitetônico quanto político e social que marcam a passagem do tempo do cotidiano histórico.

Uma tentativa de entender

A modernidade tirou de cena o particular do indivíduo cultivado pelo mundo grego e trouxe o geral da comunidade para protagonizar a História. Hegel rivalizou com êxito o lugar de Aristóteles, mas teve suas idéias disputadas por Marx que as releu e reconstruiu a partir da dialética sustentada no chão da História.

Essas correntes de pensamento que vêm de longe, com alguns séculos de diferença entre o estagirita e os alemães, calçam até hoje o nosso cotidiano. E, mesmo que invisíveis e imperceptíveis para muitos, estão presentes na motivação que dá origem às manifestações das quais as ruas e as redes sociais vêm sendo o chão do tenso e efetivo entrechoque de costumes e aspirações. Ainda que sem compreensão e esclarecimento, estão vivas no simbólico dos gestos e das falas comuns do dia a dia que agora se veem diante da possibilidade de mais espaço de expressão em conseqüência das novas forças produtivas criadas, desenvolvidas e colocadas no mercado para consumo massivo desde a segunda metade do século XX. O PC, personal computer, e suas cada vez mais nano-derivações, trouxeram de volta a potência do indivíduo e a tecnologia da conexão em rede se encarregou de ligá-lo ao coletivo, ainda mais radicalmente depois do acesso em tempo real. O mundo digital traçou vias de sem número de mãos, sentidos e direções que, por analogia, desembocaram no ambiente público e geral das ruas. E vice-versa. O comunitário vaivém compulsório ou nem tanto das ruas, também tomou o rumo do particular e passou a caminhar nas estradas do novo arsenal produtivo.

Marx, tempos burgueses

A literatura em prosa e verso sentiu a dinâmica burguesa no ir e vir das cidades modernas, traduzidas na compressão do tempo e do espaço urbano desenhado com a tinta da exclusão. A melancolia, sentimento superior à gravidade e menor que a tristeza, tornou-se porta-voz de imagens das ruas tomadas por construções materiais e imateriais que varrem de cena estéticas sociais diferenciadas. Como, por exemplo, a impressão sentida pelo poeta Charles Baudelaire em ‘Os olhos dos pobres’: “Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.

De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: “Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes.” Os olhos do menino: “Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós.” Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.

Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: “Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?”

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!”.

Ou ainda, também de Baudelaire, a metáfora de ‘O cisne’, em que o poeta faz representar os desfavorecidos lançados no contexto da uma realidade da qual não foram convocados a participar:

“Andrômaca, só penso em ti! O curso de água,

Espelho pobre e triste onde já resplendeu,

De teu rosto de viúva a majestosa mágoa,

 

O Simoente falaz que ao teu pranto cresceu,

Agora fecundou minha fértil saudade,

Como eu atravessasse o novo Carrossel.

Morto é a velha Paris (a forma da cidade

muda bem mais que o coração de uma infiel);

 

Só em pensamento vejo os campos de barracas,

Os fustes aos montões, as cornijas rachadas,

Os muros de um verniz verde, as ervas opacas,

O vago ferro-velho a brilhar nas calçadas.

 

No outro tempo existiu neste ponto um aviário;

Lá vi uma manhã, quando sob a amplidão

Clara, o trabalho acorda e o lixo funerário

Manda ao ar silencioso obscuro furacão,

Um cisne que, ao deixar sua gaiola, as palmas

Dos seus pés atritando o pavimento iníquo,

Arrastava no chão as grandes plumas claras.

 

Junto a um riacho sem água, a ave abrindo o seu bico,

Suas asas banhou na poeira, num desmaio,

E dizia a sonhar com seu lago natal:

“Água, não choverás?” Não trovejarás, raio?”

Eu vejo este infeliz, mito estranho e fatal,

Às vezes para o céu, como um homem ovidiano,

Para o céu de um azul cruel e tão irônico,

Contorcendo o seu colo, o mais convulso e insano,

Enquanto envia a Deus o seu riso sardônico!

 

Paris mudou! Porem minha melancolia

É sempre igual: torreões, andaimarias, blocos,

Arrabaldes, em tudo eu vejo alegoria,

Minhas lembranças são mais pesadas que socos.

 

Também diante do Louvre uma imagem me oprime:

Penso em meu grande cisne, o do gesto feroz,

Exilado que ele é, ridículo e sublime,

Roído de um desejo infindo! Como em vós

Andrômaca, a tombar dos braços de um esposo,

Gado vil, para as mãos de Pirro tão sereno,

Junto a tumba vazia, em langor doloroso

Viúva de Heitor além de ser mulher de Heleno!

 

Vou pensando na negra a fanar cor de terra:

Busca de pés na lama e de olhar tão bravio

Ausentes coqueirais que sua África encerra

Atrás do muro imenso, o da bruma e do frio;

Em quantos a Fortuna, e para sempre, rouba

Seu bem melhor! Nos que se alimentam de dor,

Onde soem mamar, como de boa loba,

Nos órfãos a mirrar mais secos de que a flor!

E na floresta, que meu pobre corpo trilha,

Soa como buzina uma velha lembrança.

Penso no marinheiro esquecido numa ilha...

Nos vencidos de sempre e nos sem esperança!”.

 

Diferente da centralização liberal-burguesa de Napoleão III (1848-1870), traduzida nos cafés e bulevares que inspiraram a melancolia de Baudelaire a escrever As Flores do Mal, a concepção de cidade aqui apresentada diz respeito à participação direta dos seus cidadãos, entendendo que essa modalidade democrática não prescinde da representação institucional que vem a ser a mão visível da Política, mediação fundamental para a urbanidade do convívio no geral e no particular.  

A cidade é um organismo vivo formado por todos que nela vivem. A esse universo heterogêneo cabe aos cidadãos o direito e o dever de edificá-la e promover mudanças de acordo com suas aspirações e desejos. Foi o que se viu nas jornadas de junho iniciadas dia 6, em São Paulo, pelo Movimento Passe Livre, que se apresenta como autônomo, horizontal e apartidário, e tem como reivindicação pontual revogar o aumento do preço da passagem dos transportes. Para o MPL, essa é uma conquista que marca e assegura o caráter público dos meios de locomoção de massa. Ao chamado “Vem pra rua, vem, contra o aumento”, responderam do luxo ao lumpen. A rua reverberou nas redes sociais. Diferentes grupos, indivíduos e classes, saltaram da virtualidade dos protestos para as principais vias das cidades com bandeiras outras que iam do combate à corrupção, à luta por educação e saúde padrão Fifa, à redução do preço da ração canina.

A cidade e a rua, as veias abertas do cotidiano urbano, se confirmaram como lugar estratégico de manifestações e enfrentamentos, apresentando um nível de impacto muito superior ao regularmente verificado na incontinência verbal das redes sociais. A fala das redes tomou corpo literal no dizer das ruas. Mais, no corpo-a-corpo travado entre os contrários à representação política e os a favor das instâncias parlamentares como meio de realização dos objetivos.

No Brasil, não é arriscado afirmar que a noção de vida urbana para todos teve início no governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva, depois de 10 anos de políticas neoliberais implementadas pelos presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Vale lembrar que essas políticas tinham por finalidade manter o país em situação de dependência do modelo capitalista que, na etapa atual, tem perfil financeiro, ou seja, cenário em que o dinheiro se retroalimenta por inversões dispensando a produção e, em conseqüência, promovendo desemprego em larga escala.

A reversão dessa política subalterna e de estrago social sem medida tirou mais de 42 milhões de brasileiros da situação de miséria, o país registrou pleno emprego e as cidades passaram a integrar uma nova classe trabalhadora com acesso aos bens de consumo. ‘Que Alegria’, de 2008, música de Roberto Lopes, Zé Roberto, Alamir, sucesso na voz de Zeca Pagodinho, é um forte indicador  de como os pobres receberam o novo rumo governamental. Segue a letra:

Que alegria, limpei meu nome e o seu também

Estou em dia

Já paguei seu Claudionor do armazém

To empregado, reformei nosso barraco

Botei piso, tirei taco, graças a Deus tá tudo bem

Também comprei uma TV, geladeira e um fogão

Mobiliei quarto, sala e cozinha à prestação

 

Quero uma loura estupidamente suada

Alô, do balcão!

Com meu amor, eu vou junto no karaokê

Lembrar nossa canção

Me traz uma porção de salaminho e calabresa

Mas, antes, passa um pano aqui na mesa

Vamos brindar a nossa volta

Porque eu tenho certeza

Que a nossa chama esteve sempre acesa (meu bem)

 

Vivi uma fase no fundo do poço

Guardava janta pra comer no almoço

Catei garrafa, papelão, latinha

Vendia de tudo pra ter uma graninha

Porém, agora me sinto contente

Você comigo é o melhor presente, amor

 

Muitos dos espaços, vontades e desejos urbanos antes freqüentados pelas classes alta e média, essa formada por profissionais liberais especializados e escolarizados, com acesso ao lazer e à cultura, passaram a ser compartilhados pelo povo até então submetido às políticas de escassez. A idéia de cidade já não era mais exclusiva.

O automóvel, símbolo de conforto e sinal externo de melhoria de condição, ganhou lugar privilegiado na relação estratégica entre mercado interno de consumo e desenvolvimento nacional com políticas de facilidade de crédito direto e desoneração fiscal. Todos foram às compras. Aos altos e médios, somaram-se os novos trabalhadores agora incorporados à cidade. E as ruas ficaram intransitáveis. Assim como seu subterrâneo, o metrô, que não foi concebido para um país potente para os seus cidadãos, com considerável fluxo diário de trabalhadores. Desde o golpe de 1964 até o governo Lula, não era essa a aposta. Sobretudo com a vitória do neoliberalismo na América do Sul.

Mas a derrota veio, as forças progressistas ganharam, e a cidade acabou se mostrando o que é: uma grande praça de disputa. Nas redes sociais, aparecia o desconforto com as reformas que permitiram a ascensão de miseráveis e desassistidos. Mesmo sem muita clareza, o incômodo parecia manifesto. Nas trocas do facebook, twitter e outras ferramentas digitais de comunicação, havia um novo som no ar que mais se assemelhava a ruído. Entre os dois, um espaço de silêncio que precisava ser quebrado e a convocação do MPL foi a deixa. “O povo na rua é gente pra caralho”, dizia uma das palavras de ordem mais presentes nas primeiras manifestações.

De fato era muita gente migrada das redes e que trazia como ponto comum, em meio à diversidade de apelos, a bandeira do apolítico e do apartidário. Essa é, a meu ver, a novidade semiológica que o estar das redes sociais trouxe para as ruas. Um modo de significar relações sem mediação, direto, que supõe prescindir da política tanto no seu aspecto filosófico quanto institucional.

Maria Luiza Franco Busse é jornalista e doutora em Semiologia pela UFRJ

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Comentários
  Anticolono
01/03/2014

O texto "Os olhos do pobre" foi escrito em SEGUNDA e não em TERCEIRA pessoa do singular!
 
 

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