Algo A Dizer
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Os Black Blocs, as grandes mídias e confusão de sentidos na cultura contemporânea

Por Leonardo M. de Mesentier

Alguns artigos já foram escritos sobre os Black Blocs, uns simpatizando, outros criticando(1). O objetivo aqui não é nem reproduzir, nem polemizar com essas análises. O que se busca é avaliar a natureza cultural do fenômeno Black Bloc e só nesse sentido considerações anteriores sobre o fenômeno interessam. Assim, as questões que se colocam são as seguintes: Os Black Blocs ganharam espaço nas mídias no rastro das manifestações populares que eclodiram a partir de junho de 2013. Mas por que, apesar de condenados pelas grandes mídias e governos, os Black Blocs cresceram, se difundiram? Dentro do processo, como a forma como as grandes mídias se apropriam das ações dos Black Blocs se reflete sobre o comportamento dos integrantes do grupo e quais os desdobramentos que se podem esperar em vista disso?

Na sociedade contemporânea não faltam motivos para um jovem se revoltar. Empregos precários, corrupção política, desrespeito cotidiano aos direitos de cidadania, são alguns motivos, entre outros, que justificam a revolta em geral e em especial da juventude. Está claro que de alguma forma o conteúdo que move as ações dos Black Blocs é a revolta social, mas porque para alguns jovens essa forma cultural pareceu o melhor caminho para demonstrar publicamente a sua revolta social? Nesse sentido, considerando que os Black Blocs são um fenômeno coletivo, que para existir requer a constituição de uma identidade coletiva Black Bloc, cabe antes perguntar: como se forma essa identidade?

Breve comentário sobre a formação das identidades sociais

As identidades coletivas são necessárias para dar coesão às coletividades sociais: nações, cidades, classes, grupos sociais e tantas outras coletividades sociais. Também, para dar sentido à própria existência em sociedade os indivíduos precisam constituir identidades que os vincule às coletividades sociais.

Assim, identidades individuais se constroem como mosaicos de identidades coletivas: mulher e rubro-negra e sambista e professora, por exemplo. Mas já nesse caso, observa-se que essa combinação que parece socialmente razoável no início do século XXI, traria problemas, objetivos e subjetivos, para seu portador, na primeira metade do século anterior.

Para que as identidades coletivas formem o mosaico que articule uma identidade individual, é preciso que as diversas identidades coletivas não apresentem fortes conflitos entre si, na sua relação com contexto cultural no qual se insere. As identidades precisam se coadunar entre si, tanto em relação aos valores aos quais essas identidades se associam, quanto às suas formas de representação, ambas em interação com o universo cultural que as contextualiza. Quem determina o grau de tolerância de convivência de uma identidade coletiva com outra, no âmbito das identidades individuais é o contexto cultural que as envolve. Se hoje uma mulher pode vestir uma camisa de torcida e ir sozinha ao estádio e se no passado não podia, é porque o contexto cultural mudou

Então, para responder por que para alguns jovens a identidade cultural Black Bloc pareceu o melhor caminho para demonstrar publicamente a sua revolta, será necessário antes examinar em que bases culturais, em que traços da cultura contemporânea, essa identidade está assentada.

A confusão de sentido: base cultural da identidade Black Bloc.

De alguma forma, valores como a negação dos partidos, a ação heróica e a forma não pacífica de protesto, ou seja, a crença na violência como solução para as contradições, são elementos que compõem a tática Black Bloc. Portanto, apesar de se afirmarem como um movimento de natureza contra-hegemônica e rupturista, não se pode deixar de considerar que esses elementos presentes na tática Black Bloc – negação dos partidos e, portanto, da política; a ação heróica; a violência como elemento da solução de contradições – correspondem a valores e representações culturais amplamente difundidos pelos organismos da cultura hegemônica.

As grandes mídias, assim como a hegemônica cultura cinematográfica hollywoodiana, quase sempre apresentam os movimentos próprios da política, necessários às mediações de interesses e de conflito, como um jogo de ações incoerentes, onde a única finalidade dos atores é a manutenção do próprio poder.(2) Assim, é comum se ouvir  condenações genéricas do tipo “político é tudo corrupto”, “político não presta”, “política é um toma lá dá cá” e um sem fim de outras afirmações do mesmo tipo, que expressam a condenação do senso comum à política.

Assim, a descrença de uma parte da sociedade, especialmente da juventude, na política e nos partidos, tomou forma na palavra de ordem “sem partidos” e na hostilidade às bandeiras dos partidos, presentes nas manifestações de junho, de 2013, no Brasil. Nesse contexto, é mais fácil um jovem revoltado com o mundo em que vive, afirmar sua identidade a partir de um tipo de atuação na esfera pública que se reivindica não partidária, como fazem os Black Blocs, que construir sua identidade a partir da participação em partidos políticos.

Passeatas sem discursos, ocupações e ações diretas. O foco é na ação. A ação é o discurso. Não é de se estranhar que a passagem do predomínio das representações estéticas centradas na palavra, como a literatura e o teatro, para o predomínio das representações estéticas centradas na ação, como o cinema, fosse acompanhada do aparecimento de formas de intervenção na esfera pública onde a ação seja o elemento principal do discurso.(3) Os Black Blocs não distribuem panfletos, não realizam discursos, nem apresentam propostas de governo. O máximo que realizam nesse sentido é a repetição de palavras de ordem genéricas.

A ação dos Black Blocs requer coragem e bravura, pois os expõem e ao confronto e às represálias da polícia. Nesse sentido também, as ações dos Black Blocs correspondem à cultura hegemônica hollywoodiana, onde nos filmes de ação se assiste à luta do bem contra o mal, onde o bem é representado por um herói, que manifesta sua capacidade heróica em uma ação não pacífica sobre a fonte de todo o mal. O heroísmo está arraigado no imaginário do senso comum cultural, onde o herói é uma figura que reúne em si os atributos necessários para superar um problema do seu tempo. Sua presença na cultura ocidental vem tanto da tradição clássica greco-romana, quanto da tradição bíblica (David contra Golias).

É também a referencia à força da cultura hollywoodiana na formação juvenil que ajuda a entender a misturas de nomes e outras representações de personagens de história em quadrinhos, de filmes da Disney e de vídeo games; e a presença das mascaras de Batman e Guy Fawkes lado a lado com símbolos anarquistas.

Ainda que os Black Blocs sejam infinitamente menos violentos que a polícia, quebrar uma vidraça ou enfrentar um policial implica no recurso à uma ação não pacífica, isto é, uma ação que de alguma forma é violenta. Nos filmes hollywoodianos, seja pelo domínio das armas de fogo, seja pelo domínio das chamadas artes marciais, o herói vence o inimigo, pela aplicação maciça de energia violenta, quase sempre com pouca elaboração de natureza intelectual. Numa ação como aquela dos heróis dos filmes hollywoodianos, portanto, a componente das práticas violentas não pode faltar. Adicione-se que a sociedade brasileira é violenta de muitas formas, portanto, não se poderia esperar que a revolta viesse a se manifestar de uma forma completamente não violenta.

Ação direta, uma obra aberta e multi-editada.

Toda simbolização precisa levar em conta a leitura que o receptor fará da mensagem. Como ensinou Umberto Eco, toda obra estética é aberta porque não comporta apenas uma interpretação. A interpretação varia segundo o universo cultural do intérprete, que participa ativamente na construção final do significado do objeto estético. No entanto, certas obras possibilitam um escopo interpretativo mais amplo que outras.

No caso das ações diretas, no contexto brasileiro, adiciona-se um complicador: a mensagem é multi-editada. Exceto para os participantes das manifestações, o contato com as ações diretas é mediado pela edição que dela fazem dois agentes culturais importantes: as grandes mídias, que se dirigem ao grande público; e as novas mídias que produzem suas edições para o público da internet.

Para que as pessoas vejam numa representação estética uma ação anticapitalista é preciso que na cultura do público a noção de capitalismo já exista, associada aos elementos presentes naquela representação. Assim, do ponto de vista simbólico, as depredações dos Black Blocs estão se constituindo em obras abertas a tal ponto que, enquanto os militantes de esquerda enxergaram nelas cenas de caráter insurrecional, outros viram ali sinais de fascismo; enquanto os jovens revoltados encontram nelas expressão de sua insatisfação, a maioria silenciosa vê apenas balburdia e desordem ameaçadora. No dia seguinte às depredações, quem for para as filas de banco e supermercado poderá ouvir o cidadão comum dizer: “se eles queimarem meu carro eu passo por cima”. Devido a essa confusão de sentidos, não fica claro o efeito simbólico que a “obra aberta” “ação direta” produz no grande público. Mesmo para aqueles que decodificam essa “obra” lendo um significado anticapitalista.

No entanto, é preciso considerar que toda identidade, para se constituir, precisa de representações externas que lhe dê vida no mundo. Hinos, bandeiras e ritos entre muitas outras formas de representação cumprem essa função. As formas de representação são relevantes para as identidades porque é através delas que a consciência reconhece a existência de sua própria identidade cultural no mundo. São as representações que permitem à consciência realizar efetivamente sua identidade, isto é, são as representações que tornam a identidade real e ao mesmo tempo permitindo a consciência perceber a sua identidade como realidade.

A “ação direta” pode ser vista então como uma representação da própria identidade Black Bloc; um ato de representação que, como parte de um rito, reafirma a identidade coletiva do grupo, como a hóstia consagrada em uma missa(4): o gesto de fé que reforça a fé no gesto. O gesto se repete para representar a identidade e reafirmar assim a coesão do grupo. Sendo assim, a eficiência do gesto parece se localizar mais nos seus efeitos sobre o público interno, do que sobre o público externo.

As mídias e realimentação dos Black Blocs

A forma como as grandes mídias interagem com os Black Blocs, especialmente com os ritos de ação direta, realimenta as convicções dos Black Blocs e, de alguma forma, promove a ação direta.

Em primeiro lugar porque nem toda ação direta é condenada pelas grandes mídias. No caso, por exemplo, do “resgate dos beagels” (que poderia ser o argumento para um enredo Hollywoodiano(5)), os manifestantes que invadiram uma empresa e quebraram um laboratório, foram chamados de ativistas e não de vândalos, mas do ponto de vista legal fizeram o mesmo, ou até mais, do quebrar a vidraça de um banco. No caso da ativista brasileira do Greenpeace, detida durante um protesto em uma plataforma de petróleo no Ártico, em 18 de setembro, não só a grande mídia defendeu a liberação da brasileira, como o presidente do Senado, Renan Calheiros, criou uma comissão de parlamentares para enviar à Rússia, com o objetivo de interceder pela libertação da ativista brasileira.(6)

Já quando se trata das grandes manifestações de rua no Brasil, as grandes mídias além de atuar focando suas reportagens principalmente na ação dos Black Blocs, com quase sempre o dobro de tempo destinado a cobertura jornalística da manifestação, fazem um discurso que é de completa condenação da ação dos Black Blocs; um discurso que acaba soando como justificativa para a ação violenta das PMs contra manifestantes pacíficos, cujas reivindicações estão ligadas a uma plataforma amplamente aceita, pela maioria da sociedade brasileira: saúde, educação e combate à corrupção.

Se no caso dos beagles ou de uma plataforma de petróleo da Rússia os atores são chamados de ativistas ambientalistas e vistos positivamente e quando se trata de uma vidraça de um banco são chamados de vândalos(7); então, como um conjunto, a coisa pode estar aparecendo na seguinte forma aos olhos de um jovem revoltado: ações diretas não são um mal, em si. A impressa e as autoridades só as condenam quando os alvos estão associados algum dos seus interesses, quando não, elas as apóiam ações diretas. O subtexto do discurso das grandes mídias pode estar sugerindo aos Black Blocs que o problema não está nas ações diretas em si, mas sim na ordem de interesses a qual cada ação direta serve.

Como os Black Blocs se vem na ordem de interesses oposta ao das grandes mídias coorporativas, para eles essa ambivalência poderá estimular sua ação. Por outro lado, a ênfase dada pelas mídias poderá concorrer para convencê-los do seu protagonismo. Para os Black Blocs, sua ação aparece como ainda mais correta, porque ela é condenada apenas porque atinge aos interesses que ela quer mesmo atingir e não porque o modo de atuar na esfera pública seja inadequado ao jogo democrático, ou qualquer por outro motivo. O comportamento ambivalente das grandes mídias pode estar funcionando como um atestado da eficácia e correção e alimenta a produção e reprodução dos Black Blocs.

De um efeito colateral ao outro

Como já foi dito, uma identidade se constitui frente a um contexto cultural que lhe antecede. Com os Black Blocs não é diferente, inclusive no que diz respeito ao seu rito de representação no espaço público: a ação direta. O que se quer registrar aqui é apenas que a uma mobilização que, partindo da descrença nas estruturas políticas, inclusive nos partidos políticos, promove um tipo de intervenção na espera pública, que valoriza mais a ação que o discurso, porque coloca no lugar do discurso verbal, uma vidraça quebrada. É uma ação absolutamente coerente com a cultura hegemônica contemporânea, marcada pela maciça presença de filmes onde a vitória do bem sobre o mal se processa de modo análogo. A confusão de sentidos está em buscar uma ação contra-hegemônica nos termos difundidos pela cultura hegemônica.

Dada a sua condição de obra aberta e multi editada, a ação direta parece expressar muito mais a identidade de uma subjetividade rebelde genérica que uma mensagem capaz de afetar os significados e juízos da maioria da sociedade contemporânea sobre o capitalismo. Do outro lado, a combinação da ambivalência como as mídias tratam as ações diretas, com o espaço que as ações de depredação ocupam na cobertura jornalística das manifestações, reforça a confusão de sentidos; e pode estar atuando, possivelmente, para reforçar essa prática. Mais: numa sociedade onde a violência está presente no cotidiano e as estruturas políticas tem pouca penetração no tecido social, essa atitude das grandes mídias poderá promover a difusão de explosões de violência em situações de conflito, independentemente da presença dos Black Blocs.

De uma forma ou de outra, pode-se, portanto, encontrar uma explicação para o fenômeno Black Blocs na confusão de sentidos presente na cultura contemporânea.

Notas

1- Black Blocs: A origem da tática que causa polêmica na esquerda http://www.viomundo.com.br/politica/black-blocs-a-origem-da-tatica-que-causa-polemica-na-esquerda.html; Gilberto Maringoni: Black Blocs, cobrir o rosto é o de menos http://www.viomundo.com.br/politica/gilberto-maringoni-cobrir-o-rosto-e-o-de-menos.html; Nossas diferenças com os BlackBlocs: uma falsa questão pedagógica http://www.carosamigos.com.br/index/index.php/artigos-e-debates/3648-nossas-diferencas-com-os-black-blocs-uma-falsa-questao-pedagogica; Nas franjas do Black Bloc http://gilvanmelo.blogspot.com.br/2013/08/nas-franjas-do-black-bloc-demetrio.html; Carta de resposta de Rafael Alcadipani da Silveira, ao artigo escrito por Demétrio Magnoli: https://www.facebook.com/BlackBlocSP/posts/440886792707824

2- A produção cinematográfica só retrata como positivas aquelas ações políticas de algumas grandes personalidades, postas sempre acima dos partidos. O que, em geral, mostra o cinema hollywoodiano é que essas grandes personalidades realizaram coisas para o povo, apesar da política e dos partidos.

3- Há filmes de ação onde os diálogos não chegam a representar nem 10% do tempo total do filme, sem entrar no mérito da qualidade estética desses diálogos.

4- Ao autor não deseja com essa afirmação estabelecer qualquer crítica ou questionamento à liturgia católica e desde já declara seu profundo respeito por todas as religiões e atos de fé e se confessa também ele um cristão crente em Deus.

5- Uma referencia ao resgate de cerca de 200 cachorros da raça beagle, do Instituto Royal, por volta das 2h da sexta-feira (18/10/2013). Os ativistas invadiram o Instituto Royal, no Jardim Cardoso, em São Roque e resgataram cerca de 200 cachorros da raça beagle mantidos em gaiolas do instituto em protesto contra o uso dos cães de raça em testes para fins científicos. http://www.ebc.com.br/cidadania/2013/10/resgate-dos-caes-beagles-nao-foi-premeditado-diz-ativista.

6- Leia mais sobre esse assunto em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131023_greeenpeace_vandalismo_lk.shtml e http://oglobo.globo.com/pais/justica-russa-nega-liberdade-para-ativista-brasileira-do-greenpeace-10523745#ixzz2iynGKgbT.

7- A mesma ambivalência se aplica comumente as ações do movimento dos Sem Terra, valendo lembrar o episodio da invasão do laboratório da MONSANTO que produzia sementes transgênicas sem autorização legal. http://terradedireitos.org.br/biblioteca/casos-emblematicos/monsanto-perde-processo-criminal-contra-movimentos-sociais/

Leonardo Mesentier é arquiteto, doutor em Planejamento Urbano e Regional, professor da UFF, com diversos artigos publicados em livros e periódicos científicos sobre desenvolvimento urbano e patrimônio histórico-cultural.
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