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Cultura no Brasil hoje

Por Joel Rufino e Saturnino Braga

IV Ciclo de debates do Teatro Casa Grande “Território livre da democracia”

Transcrição e vídeo da palestra, realizada em 17/9/2014, com:

Joel Rufino, professor da UFRJ;

Apresentação de Saturnino Braga, presidente do Instituto Casa Grande (ICG).

Mediação de Marcelo Barbosa, diretor-coordenador do ICG.

Veja no YouTube a íntegra de mais esse debate imperdível!

Com seu patrocínio, a Petrobras viabiliza a realização desses encontros, num momento em que sofre o sórdido assédio de uma mídia a serviço do grande capital, interessada em que nosso petróleo seja entregue às empresas multinacionais.

Bom proveito!

“Território Livre da Democracia – Debates no Teatro Casa Grande (2014)”:
Após quatro décadas de existência, o Teatro Casa Grande permanece fiel a sua vocação – reconhecida nacionalmente – de espaço comprometido com o florescimento das artes, mas também empenhado na consolidação da democracia e da justiça social. Um passado que responde pelo futuro.
Agora, mais uma vez, chega a hora de respirar uma atmosfera de reflexão sobre os destinos do país: o espaço vai sediar o ciclo “Território Livre da Democracia – Debates no Teatro Casa Grande” (2014).
Durante oito meses, as portas da histórica casa de espetáculos do Leblon estarão abertas para realizar mesas redondas com figuras de relevo da política e da cultura, das mais diversas tendências de opinião que compõe o matiz progressista.
Os debates serão gravados (em arquivos de áudio e imagem) e transmitidos pela internet. Ao final do ciclo, serão lançados em livro. O evento traz a chancela do Instituto Casa Grande (ICG), presidido pelo ex-senador Saturnino Braga em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes.
Com esta iniciativa, acreditamos que o Casa Grande retoma a sua tradição de contribuir para o erguimento de pontes de diálogo entre a sociedade política, os movimentos sociais e a intelectualidade democrática, atitude que singulariza a sua trajetória desde sempre.

Saturnino Braga

Na minha vida política, eu sempre tive um relacionamento com o mundo da cultura e a preocupação de ligar a cultura à política, porque há uma efetiva ligação muito profunda entre elas. A palavra cultura é frequentemente referida às manifestações artísticas; entretanto, essa expressão tem uma amplitude e uma profundidade muito maiores, que vão até o substrato dessas manifestações.

A cultura compreende todo o mundo dos valores, dos saberes, dos sentimentos, dos significados, dos modos de pensar de uma sociedade; isto é, todo esse substrato que emerge na forma de manifestações artísticas de um modo geral, com toda sua diversidade.

Quando se fala da cultura de um povo, de uma nação, se compreende algo além de suas manifestações artísticas, abrangendo esse substrato, essa função básica do ser humano em sociedade, que é produzir saberes, valores, modos de pensar e até a linguagem, o modo de expressar seus pensamentos e sentimentos. Quando pensamos em uma cultura brasileira, compreendemos que ela custou muitos séculos para se configurar, se definir, na medida em que resultou de um transplante de cultura europeia, ibérica, feito pela força para uma região onde já existia uma cultura autóctone, indígena, de muitos séculos. Além desse transplante de cultura europeia, durante 400 anos transplantou-se também cultura africana através dos escravos para a atividade produtiva do País.

Esse amálgama de culturas tão diferentes demandou séculos para se configurar como alguma coisa que pudesse ter o mínimo de coerência e ser considerada cultura brasileira. Sempre se pode desenhar e apontar manifestações de cultura brasileira desde os primeiros momentos; é claro que ela emergiu com mais riqueza no século XVIII, no barroco mineiro, já com manifestações de composição cultural através de Aleijadinho, Mestre Valentim, do nosso grande músico Padre José Maurício. Eram filhos de escravos que se expressavam com um nível de qualidade artística internacional. Então, o século XVIII já produziu manifestações culturais importantes.

A partir da Independência, essa expressão cultural tem um componente político muito forte, e os momentos de grande mobilização política em geral são momentos também de grande mobilização do sentimento nacional, da sociedade, e produzem mais manifestações culturais de toda natureza. Além da Independência e de fatos como a luta pela abolição, a interrupção do tráfico de escravos em 1850, a Guerra do Paraguai foi também muito mobilizadora. No século XIX é que começaram a aparecer efetivamente as manifestações de uma cultura brasileira.

O nosso amigo Marcelo Barbosa tem um livro muito interessante onde ele mostra figuras como Joaquim Nabuco — que foi um pré-brasilianista da maior categoria, da maior expressão —, depois Euclides da Cunha. Na segunda metade do século XIX, começaram a se produzir manifestações de uma cultura que se poderia chamar de cultura brasileira, emergindo de todo esse caldeamento de séculos e de transposições culturais da maior diversidade. Entretanto, há uma certa unanimidade em reconhecer que a primeira manifestação clara, importante e reconhecida como cultura brasileira foi a Semana de Arte Moderna, em 1922, no primeiro centenário de Independência do país. Um grupo de artistas resolveu dar um grito de independência do mimetismo da cultura brasileira em relação à cultura europeia e exclamar, bradar que existe uma cultura brasileira que quer se assumir como tal.

É importante ressaltar o lema dessa manifestação, que ficou para a posteridade, que foi a expressão de Oswald de Andrade: “Tupi or not tupi?”. Ele parafraseou a dúvida existencial de Hamlet para torná-la uma dúvida existencial brasileira: assumir toda essa origem cultural brasileira que compreendia os indígenas e os africanos ou ficar copiando eternamente a cultura europeia?

Esse primeiro dado de independência, de manifestação eminentemente brasileira da cultura foi extremamente importante e teve desdobramentos. A manifestação que houve em São Paulo foi recebida com muita crítica, mas o fato é que ela plantou raízes e começou a se desdobrar se misturando com os fatos políticos importantes, porque em 1922 também ocorreu a Revolta do Forte,  a Coluna Prestes, que foi uma primeira incursão no interior do Brasil, uma primeira tomada de conhecimento da existência desse sertão brasileiro em que ninguém pensava; ninguém cogitava considerá-lo brasileiro. Depois veio a Revolução de 1930 e todas as transformações políticas que foram se processando, e a cultura crescendo, se desenvolvendo, diversificando, apurando sua qualidade e atingindo um auge nos anos 1940 com a figura do grande ministro da educação Gustavo Capanema, que congregou todas as vanguardas de manifestações artísticas do Brasil, as projetou e estimulou, tendo como chefe de gabinete Carlos Drummond de Andrade. Em torno da figura de Capanema e de seu gabinete se formou um grupo formidável de produtores de cultura brasileira da mais alta qualidade, desde a arquitetura até a música, em todas as formas de arte.

Dali para diante, consolidou-se e foi se desenvolvendo uma ideia da cultura brasileira até atingir um segundo momento de auge, que foi a construção de Brasília. Brasília é uma expressão de cultura brasileira da maior qualidade, não só arquitetonicamente falando, mas a própria construção da cidade, todo o sentimento de brasilidade, de expectativa e grandeza do País que ali se implantou; uma cidade construída com trabalhadores candangos de todas as regiões, sob aquele entusiasmo que era contagiante. Tudo isso no meio de manifestações culturais: foi período da bossa-nova, o grande movimento musical do Brasil; foi o momento de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa; foi o momento em que o ISEB produzia a formulação político-filosófica do desenvolvimentismo brasileiro. Foi um momento extremamente rico, sempre com um componente forte de política associado a uma manifestação cultural da maior importância.

Depois veio aquele interregno do período militar. Reabriu-se o sistema democrático com todo um período de alienação do sentimento nacional em favor de um mercado globalizado — tudo era um mercado. O fato é que a cultura acabou submetida a esse domínio do mercado. (Hoje há um mercado cultural que comanda as atividades artísticas de um modo geral.) A reação contra essa política de mercado veio com a eleição de Lula em 2002, e abriu-se de novo uma emergência de sentimento nacional positivo, com grandes realizações políticas de uma forma diferente, nova, de fazer política, congregando mais as opiniões das categorias mais pobres da população brasileira, com instalação de conselhos e conferências nacionais; enfim, uma movimentação política muito grande, mas sem uma correspondente manifestação cultural como houve em épocas passadas de grande movimentação política.

Por quê? Essa é a indagação. Pode ser até que essas manifestações culturais estejam ocorrendo e eu ainda não fui capaz de captar, mas a mim parece que falta uma correspondência que existiu em outros momentos de grande inovação e arregimentação política e de grandes manifestações da cultura brasileira. Agora a cultura parece cercada pelo mercado, invadida pelas novas tecnologias, redes sociais... É possível que estejam se formando, germinando manifestações muito importantes que nós não sejamos — eu particularmente — capazes ainda de captar. Mas no meu espírito fica esta indagação: por que a cultura parece ainda não ter respondido a essa grande mobilização nacional que houve no País a partir da eleição de Lula — com o próprio significado político —, um torneiro mecânico como presidente, que deu certo e se transformou em uma liderança internacional da maior expressão? A expressão cultural desses fatos políticos me escapa; eu, sinceramente, ainda não fui capaz de captá-la. Então deixo essa indagação, pedindo ajuda ao Joel Rufino, que, muito mais do que eu, tem uma ligação direta com esse tema da cultura e suas manifestações de um modo geral, especialmente com os fatos políticos.

Joel Rufino dos Santos

Eu combinei o teor da fala do Saturnino com a minha de forma com que se encaixassem.

A primeira coisa que eu destaco nessa cumplicidade entre nossas duas falas é essa pergunta angustiante. Para nós, que pensamos dessa maneira, com esse método, essa pergunta é angustiante. O que a cultura pode fazer para tornar o Brasil um país melhor? Ou, de outra maneira, que relação há entre cultura e política?

Eu vou contar duas pequenas histórias que vão me permitir alcançar essa pergunta, sem responder, obviamente; eu vou sair daqui com mais perguntas que respostas, mas vou tomar um atalho contando essas duas histórias.

A primeira se passa em 1500, quando Cabral chega aqui na Bahia. Ele, a uma certa altura, manda trazer à nau Capitânia um grupo de índios. Naturalmente, ele estava querendo que aquele encontro fosse um espetáculo da grandeza, da civilização cristã, que se vestiu aparatosamente, cheia de joias. Através de diálogos, ele perguntava aos índios se havia ouro aqui nesta terra; e os índios apontavam para as medalhas, para as joias e depois para a terra. Os portugueses tomaram isso como prova de que havia, de fato, ouro. Na verdade, depois se verificou a continuação do diálogo, que os índios estavam dizendo que trocariam as joias por papagaios. Mas o mais interessante estava por ocorrer. Depois desse diálogo de surdos, os índios se deitaram e dormiram, no meio da cerimônia, no meio do espetacular encontro de duas civilizações.A segunda se passa uns 300 anos depois em um lugar qualquer da América Latina, indefinido. Há um patriarca que governa há dezenas de anos e que tudo pode. Ele vende o mar para os norte-americanos, para os ianques. Os ianques, para lhe dar alguma compensação além do dinheiro que pagaram, fazem para ele um mar de plástico. Então, o grande momento do período daquele governo do patriarca é a inauguração do mar de plástico dado pelos americanos. Ele [o patriarca] se prepara, coberto de medalhas, condecorações e vai se despedir da velha mãe, uma camponesa, Concepción, que estava na cozinha, e diz:

— Mamãe, veja como estou bonito!

Ao que ela responde:

— Sim, filho! Aonde você vai?

— Eu vou inaugurar o mar de plástico que nos deram os ianques.

Ela diz:

— Filho, já que você vai sair, aproveite, passe no bar e troque esses cascos que ficaram aqui.

O que essas e outras histórias parecem indicar é que no fundo do que chamamos cultura, aquele substrato a que Saturnino se referiu, há alguma coisa que pode ser chamada de “tempo histórico”; ou seja, o que caracteriza o mundo da cultura é que ele é uma vivência determinada do tempo, e por intermédio das diferenças entre essas vivências é que as culturas se diferenciam. Os índios que dormiram naquele momento solene e a camponesa Concepción Alvarado, mãe do patriarca, viviam em outro tempo; os tempos eram distintos. O tempo do patriarca era um, era o da modernidade; o tempo dos portugueses era o da expansão mercantil, do início do capitalismo; o tempo dos índios era outro, que pode ser nomeado de diversas maneiras, era um tempo arcaico. Esse tempo arcaico parece ter desaparecido com a modernidade, mas ele está aí na rua, nós nos deparamos com ele a todo momento. Há pessoas que ficam sentadas durante dias, semanas, meses, anos vendendo umas coisinhas que ninguém compra. É um tempo distinto do tempo da mercadoria; é o tempo da velocidade, da realização do lucro. O que essas pessoas estão fazendo ali? Estão vivendo um outro tempo dentro do tempo veloz; estão vivendo um tempo lento envoltas por um tempo veloz. As histórias que eu contei revelam isso também. Há um tempo veloz, que é o da modernidade, e que quanto mais se passam séculos e cresce a produção material, mais veloz se torna; e um tempo lento, que permanece por baixo dessa velocidade estabelecendo os contrastes de cultura. É isso que é cultura, uma vivência determinada do tempo.

A palavra [cultura] é dúbia porque ela cobre muitas acepções. Talvez ela seja a palavra que mais tem acepções distintas. Ela se confunde, por exemplo, no senso comum brasileiro, com hábito. É fácil reparar isso: as pessoas vão à televisão e o entrevistador pergunta “Mas como é essa história do seu bairro”, e a resposta é “Ah, é nossa cultura”. Oras, ela está se referindo aos hábitos daquele bairro, daquele contexto cultural. Então, confunde-se hábito com cultura; confunde-se saber individual com cultura: a pessoa tem cultura quando leu muitos livros, viu muitos filmes, participou de muitas discussões, fala várias línguas, então ela tem “cultura” — é uma outra acepção. São milhares de acepções. A palavra “cultura” deve ter mais sinônimos que qualquer outra.

O que no fundo definiria cultura? O que seria esse substrato? A meu ver, é a vivência do tempo. Conforme se vive o tempo, diferente se é culturalmente. Então vem a pergunta seguinte: se é assim, se cultura é uma vivência determinada do tempo, qual é o problema dela? Qual é o problema magno dos desencontros de tempo, da coexistência de tempos diferentes no mesmo território? A meu ver, é um problema de conversão de energia. Há uma energia na cultura: ou ela se perde, ou se transforma em algum outro tipo de energia. Como a energia hidráulica. O rio pode correr infinitamente sem se converter em nenhum outro tipo de energia; ela fica sendo, desde que nasce até que morre, uma energia hidráulica. Mas ela pode se transformar em energia elétrica, pode haver uma conversão, e é o que fazem as usinas hidrelétricas. Seria esta, a meu ver, aquela questão que eu disse ser angustiante: como transformar a energia enorme da cultura em política? Como transformar, por exemplo, falando mais claramente, a energia que emana da chamada cultura popular brasileira em política?

A política parece nada ter a ver com a cultura, a não ser no sentido bem vulgar dos termos “política” e “cultura”. Os candidatos a deputado, senador, presidente etc. falam em cultura, que vão fazer isso e aquilo pela cultura, mas aí nós estamos falando na acepção mais vulgar, mais óbvia, corriqueira. Não é disso que nós estamos falando, nem é isso que nos angustia. O que nos angustia é a pergunta essencial: de que forma pode a cultura operar politicamente?

Eu acho que há algumas maneiras, e uma delas está sendo dada na atualidade brasileira. Todo mundo está preocupado com as eleições, todo mundo se definindo por tal ou qual candidato, mas é interessante chamar a atenção para o poder que teve o acontecimento que foi a morte de Eduardo Campos no desastre de avião. A história se modifica através de acontecimentos. O acontecimento é o fato inesperado, surpreendente, que não tem lógica; é um dado do destino, um ato da providência divina — como você quiser chamar. De qualquer jeito, ele interrompe a existência e com isso abre janelas para que as instâncias que constituem a sociedade se comuniquem; é como uma oportunidade para vazar alguma coisa de uma estrutura para outra. Esse desastre de avião abriu uma janela entre cultura e política, ou entre política e cultura; ele permitiu que se insinuasse por essa janela aquilo que eu chamo de política. O tempo lento escorreu por essa janela para dentro do tempo veloz, e nós temos partidos, políticos, intelectuais velozes surpreendidos pela chegada do tempo lento, por seu retorno. É como se os índios, aqueles que dormiram na audiência com Cabral, como se Concepción Alvarado, a mãe do patriarca, chegassem de repente na disputa eleitoral brasileira. Se não, vejam: as políticas podem ser classificadas de diferentes maneiras. A maneira política de classificá-las é conhecida: é aquela com que operamos em tempos normais, nos tempos sem acontecimentos. Mas há uma outra maneira de classificá-las.

Eu faria a seguinte classificação, contando a partir de 1964: os militares trabalharam com o tempo veloz. O objetivo deles, tirando aqueles que foram apenas truculentos, sem política, era agilizar, modernizar, tornar o Brasil mais veloz do que ele era, acelerar a economia brasileira. É por isso, por exemplo, que Geisel se diferencia dos outros chefes militares.

Enquanto os militares trabalhavam no tempo veloz, as velhas oligarquias, aquelas que permaneceram durante a Terceira República e que aderiram aos militares, constituindo seu partido, a Arena, eram do tempo lento; para elas, não interessava a modernidade capitalista, a velocidade, uma outra cultura. José Sarney é um exemplo desse político lento, que em qualquer situação em que esteja, vai fazer política lenta, oligárquica, sem nenhuma mudança ou pequenas mudanças em larguíssimo tempo.

Terminada a Ditadura vêm os velozes, aqueles cujo objetivo é oferecer a conclusão da nação pela modernização, pela internacionalização das relações econômicas, pela inclusão da elite operária e promoção dos mais pobres. Estou falando do programa do PT, do primeiro [mandato de] Lula, do segundo Lula, de Dilma Rousseff. É a mesma política, no fundo, de Fernando Collor, de Fernando Henrique Cardoso. Lula, Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso e Collor, para os historiadores do futuro, provavelmente serão colocados no mesmo lugar, no mesmo ponto, no mesmo campo. A política deles é de velocidade, de promover o crescimento com todos esses corolários que eu mencionei aqui (internacionalização, modernização, inclusão da elite operária etc.). Esse talvez seja o ponto mais interessante e menos perceptível. Há pouco tempo a candidata [à presidência, em 2014] Marina Silva falou que o objetivo dela seria governar com as elites. Ela estava se referindo à velha ideia de Vilfredo Pareto, um sociólogo de grande prestígio em 1940, que dizia o seguinte: a verdadeira democracia é o governo das elites multifuncionais. Todas as profissões têm sua elite. Então, democracia não é o governo do povo, é o governo dessas elites multifuncionais. O que os presidentes citados — especialmente Lula e Dilma — fizeram foi trabalhar pela ida ao poder, pela hegemonia das elites operárias.

Agora também se oferece uma oportunidade, nessa eleição [2014], de um governo de cultura do tempo lento. Há um tempo lento que caracteriza uma cultura e que tem seu representante hoje nessa eleição, que é a dona Marina. A cultura dela é dos povos da floresta. O que define a cultura dos povos da floresta? A lentidão. É uma cultura de lentidão, em que se pode ser feliz ou infeliz sem pressa, correria, PIBs, competição...

Mas o essencial eu vou sumariar agora: estamos diante de uma eleição em que se apresentam representantes dos dois tipos de cultura — a cultura do tempo veloz e a do tempo lento. Tivemos até aqui o governo da cultura de tempo veloz, e temos uma oportunidade de ter um governo de cultura e de tempo lento. Isso não quer dizer que eu seja a favor da candidatura Marina. Não é uma declaração de voto o que eu estou fazendo aqui, porque, obviamente, isso é uma simplificação, é uma conceituação funcional, para efeito de colocar no mesmo campo inteligível as experiências políticas que o Brasil teve desde 1964 — incluindo a Ditadura. Para o nosso gosto mais explícito, que esconde um gosto secreto, seria bom que cada um desses candidatos se apresentasse com uma feição clara e simples para que nós pudéssemos decidir. O voto na Dilma é melhor.

Aproveito o pé de página para declarar meu voto. Que fosse assim simples; mas talvez não seja. Talvez nós estejamos agora diante de uma oportunidade de ter um governo de cultura de tempo lento. Vejam só: o acontecimento [acidente aéreo] serviu como uma janela aberta para que se deslizasse para dentro do jogo político brasileiro uma possibilidade que não havia antes, a possibilidade de um governo lento. É apenas uma possibilidade, porque nada garante que vai ser possível fazer um governo de cultura lenta no Brasil a essa altura dos acontecimentos; e é, por sinal, o receio que nós que eventualmente nos inclinamos pela candidatura de Marina temos: que ninguém consiga um governo de tempo lento no Brasil e que dê, como já deu em outras ocasiões, como se dizia antigamente, “em água de barrela”. Pode ser que não dê certo, mas é uma oportunidade que surgiu e que nos permite constatar que o mundo da cultura eventualmente desliza para dentro do mundo da política.

Joel Rufino é professor da UFRJ e Saturnino Braga é presidente do Instituto Casa Grande (ICG)

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