Algo A Dizer
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“Paupiteiro”

Por Jorge Nagao

Ele é o Paupiteiro, assim mesmo, com u.

Ele quem?

Tudo começou quando adquiri um smartphone e, quando ia digitar a primeira mensagem, apareceram umas palavras. Ué, será que entrei num bate-papo?, pensei.

Ele estava lá:

— Olá usurário, sou Paupiteiro, o revisor de celular que detesta “lugar comum” e vai mudar suas palavras, quando eu bem entender, entendeu?

— Como assim? – escrevi – mas ele já mudou para “como assado?”.

— Vocês escrevem tão mal, agridem tanto a língua portuguesa que ela está na UTI. Esta fabricante desenvolveu um produto genial, eu, o revisor criativo, para salvar a Língua.

— Criativo e verborrágico – escrevi – porém, ele alterou para "que ativo! e verbo mágico”.

— Pretensioso e atrevido – digitei, em vão, pois ele revisou para “precioso e querido”.

— Jack você me entendeu, preciso Jair, estão me chamando noutro ET homephone. Bye, bye, Paupiteiro Alceu Dispor.

Até então, eu era um cara normal, quase bege, mas, dias depois de ser assessorado pelo Paupiteiro, virei um comentarista polêmico. Sou tão elogiado, quanto esculachado. Dependendo do senso de humor do facebukiano sou Genial! Maluco! Palhaço! Porreta! Sem noção! Show! Chato! Nojento! Sensacional! E por aí vai, ou não vai, uai!

Um dia desabafei: “Ah, estou causando por causa desse revisor trapaceiro que fez essa revolução na minha vida, tudo culpa desse cara”. Sabe o que ele escreveu? “Ah, estou causando graças ao professor Paupiteiro; sinto uma evolução em minha vida. Eu sou o cara!”. E tome curtidas e xingamentos.

Na semana passada, decidi me livrar do aparelho e do meu inconveniente parceiro. Meu anúncio: “Devido às dívidas, vendo smartphone bem barato com este revisor infeliz”.

Claro, Vivo, e, sem Timidez, ele não aprovou e sapecou: “Sem dúvida, fico vendo o smartphone, que barato! Ah, como o revisor me faz feliz”.

Irritado, fui tomar um café e “esqueci” o aparelho no balcão da padaria.

Soube que o seu Joaquim Manoel encontrou o celular e tentou digitar algo, quando o Paupiteiro deu as caras :

— Português horrível, comigo não tem vez, vou logo avisando...

Assustado e indignado por ser xingado por um celular mequetrefe, jogou-o ao chão e pisou nele várias vezes.

— Assassino!

Foi a última palavra que leu, antes de dar o chute de misericórdia.

Que ironia, hein, Paupiteiro?! Você que zelava tanto pelo bom Português, morreu, vítima de um mau português que não quis ficar ao seu dispor.

R.I.P., Paupiteiro.

Jorge Nagao é escritor e jornalista

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Comentários
  Vivina de Assis Viana
30/09/2014

Jorge, de novo, me diverti, rsrs.... Todos somos vítimas dos paupiteiros. Pior: vítimas indefesas! Beijo Vivina
 
  Valéria S. Dantas Lopes
05/10/2014

Oi, Nagao! Adorei. Eu tenho uma relação de amor e ódio com esse "paupiteiro" de uma figa. É porque, às vezes, ele tá fofo e termina as palavras pra mim, acerta na mosca. Em outros momentos, ele tá ogro e faz essas trapaças. Beijos.
 
 

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