Algo A Dizer
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A hora púrpura

Por Maria Balé

Contrariando previsões, a manhã de meados de outono é de céu azul e ensolarada. O barulho que vem de fora não é de chuva no telhado. Tanto melhor. Alegra-se. Desliga o despertador e fica mais um pouco na cama. Brincadeiras de crianças, sons imprecisos de algazarra e vozes de passantes se confundem entre o sono leve e a vigília.

É o dia da partida. Destino, o lugar onde nasceu e viveu sua primeira infância. A antiga fazenda de traços coloniais, edificada nas fendas da geografia curvilínea, entre o mar e as montanhas, e de onde ela, há anos, não tem qualquer notícia.

A longa viagem, por anos desejada e por meses planejada, inicia-se sem tropeços. Ignorando sua solene falta de talento para a música ela faz coro com a engasgada Judy Garland, em Somewhere Over the Rainbow, que toca repetidamente no som do carro.

A estrada de terra seca, estreita e poeirenta, rasga a densa cortina de manacás floridos. Ao longo do trajeto, cirandas e cantos de lavadeiras se desprendem das velhas fotografias em sépia espalhadas no banco ao lado. Avalanches de emoções a invadem, a cada lento avanço.

— Pare já de fazer arte que já deu muito trabalho para nascer. Não queria sair de jeito algum –, repetia sua mãe, incontáveis vezes em um só dia. Severa e zelosa, a aguerrida mulher cumpriu, sem dívidas, o árduo ofício com os oito filhos, nascidos pelas mãos da mesma parteira. A dureza dos dias, iguais aos de tantas outras matutas, era amenizada na magia da hora púrpura. Assim a mãe gasta se referia ao entardecer, quando nada mais existia, a não ser a novela épica que vencia o chiado do rádio de pilha. Ignorando o avental, divagava nas aventuras da heroína do folhetim, uma princesa do Egito, terra que, de tão longínqua, soava imaginária. Sua existência se esvaía. Era um jorro de água fresca na aridez da rotina inglória.

Das diáfanas brumas azuladas emergem, místicos e imutáveis, os montes guardiões da eterna paisagem. O coração lateja, pulsa acelerado. Indiferentes à métrica, diluem-se as horas. Em pouco tempo, e a pouca distância, estará no estreito corredor que conduz aos degraus da porta principal, ladeado por hortênsias em seus matizes variados. A via lilás, como aquarela na parede da memória.

Frases mudas, despontuadas, esmagam o seu peito no tempo em que permanece como estátua, diante da velha porteira. Sequer sente os pingos da súbita garoa rala. O cheiro do mato molhado mistura-se ao cheiro viril do etéreo cavalo baio, aos galopes na pradaria.

— Ah, o pessegueiro me espera, recoberto por flores em festa. A figueira perfumada está lá, majestosa, de frente para a janela da sala. As roseiras estarão prenhes em seus talos entumescidos pelas pétalas temporariamente aprisionadas. Quando menos se espera, libertas, serão rosas amarelas. Os sabiás, obstinados, buscam a perfeição na minuciosa construção de seus ninhos engenhosos. As jaboticabas, ametistas recheadas, estalando sensuais, entre a língua e os dentes. O pensamento não se aquieta. Aromas alados do café de pilão coado na finda madrugada mesclam-se aos odores do seu sonho, no espreguiçar da última gota de aurora. Chamas indomáveis agitam-se na boca do fogão de taipa.

Ela toma fôlego. Segue em frente. Adiante, alguns pés de araucária, esguios, desnutridos, estéreis e tristes. Por onde voarão as gralhas que deixam cair os pinhões e perpetuam as famílias dessas árvores, mais antigas que os dinossauros? Hibiscos mirrados são as flores que encontra na alameda descuidada. E o caminho de hortênsias? Onde está o pessegueiro? E as joboticabeiras? Pergunta à brisa. Indagações ao vento. Diante dela, uma edificação metálica laureada por antenas, construída no lugar da casa grande demolida, é um centro de estudos meteorológicos desativado. Deserto e silencioso, irradia solidão.

Sentada, aos pés do pilar que sustenta o arco da entrada ela é Alice, despencando em seu País de maravilhas evaporadas. Odores e sabores, alaridos de cigarras e grilos, joaninhas indefesas, dias de dezembro à espera do Natal, cantos assombrados, medos, descobertas, futuros imaginados, tardes de primavera. A efêmera florada das cerejeiras, contos de fadas, anjos da guarda, céu de lua cheia, mitos e lendas, estrelas cadentes e os pedidos sem juízo, grinaldas de flor de laranjeira. Tudo dança à sua volta como vaga-lumes em noite escura.

Ela chora. Desintegra-se em lágrimas. Aos soluços, lava o rosto no fio de água do córrego que fora o sinuoso rio de águas claras.

Retoma o caminho de volta. No banco de trás do jipe empoeirado, a menina com cabelos de milho verde e olhos limpos de opala acalenta a sua distônica boneca de pano. E com um sorriso antigo, desaparece na névoa de suas lembranças.

A luz do dia que se despede cintila no rosáceo horizonte. A hora púrpura, nas dobras de uma longínqua saia de chita desbotada.

Maria Balé é escritora

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Comentários
  Vivina de Assis Viana
30/09/2014

Maria, querida! Acabo de ver que esse é o texto que vc leu no evento! Estrada de terra, jabuticabeiras, pessegueiro, manacás, saia de chita, ah, quem diria que vc dominava - e bem!- esse universo? Parabéns! Beijos Vivina
 
 

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