Algo A Dizer
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A mulher em trapos

Por Valéria Lopes

Naquela tarde, vi a mulher, numa calçada, com o corpo dobrado sobre si mesma, o rosto escondido, as mãos estendidas sobre a cabeça, segurando uma lata, mendigando moedas.

Eu vi a mulher com o peito deitado ao chão, sofrida pelo tempo, pelo estômago vazio, vestida de estampado de flores murchas, meias furadas e curtas. A lata na mão, tilintando uma marcha, em três tempos, sem tempo para o tempo que insiste em lhe deixar de lado.

Eu senti quando meus olhos se turvaram de dor e meu coração, já cheio, se encheu de lágrimas pela mulher sem rosto, estampando flores murchas, mendigando na calçada, na tarde fria e cinzenta, gemendo alguma dor, em algum canto de si.

Com passos largos e ânimo abatido, enquanto uma chuva indecisa molhava aqui e ali,  esfriando mais o fim da tarde, atravessei a rua e me pus em frente à cena que tanto me tocara o coração. Meti as mãos nos bolos e depositei moedas. O barulho da lata a fez dizer, tremulamente: “Graaziiee!”

Continuei meu caminho, em desconfortável silêncio, pensando na sofrida mulher, na dor física e moral, no tronco curvado ao solo, queixo na calçada em poças, rosto escondido em trapos,  flores murchas estampando um vestido esfarrapado.

Eis que, passado o tempo e a noite sem lua nem estrelas, tomando seu lugar no fim da tarde, numa rua qualquer, passa por mim, uma mulher em trapos de um estampado murcho, em flores surradas, rosto lavado, calçando sapatos que não tinha e a alma suja.  Eu a reconheci guardando a lata na bolsa, silenciando, em três tempos, a marcha que compunha.

E a mulher que não se punha de pé, agora, com pés firmes ao chão, olhos atentos, cabeça erguida, coluna ereta, caminhava sem dor, sem gemido sequer, apreciando as vitrines, nas ruas frias de Roma, enquanto meus olhos testemunhavam a frieza num rosto descoberto de vergonha.

Valéria Lopes é escritora

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Comentários
  Manoel Fernandes
28/09/2014

Formidável!!!
 
  Leonel Prata
30/09/2014

Belíssimo texto, Valeriana! Beijos.
 
  Elisabeth Dantas Palhares
01/10/2014

Quanta poesia! Isso faz de você a poetisa que eu adoro. Mil beijos.
 
  luca barbabianca
01/10/2014

Esta tua escrita intriga e instiga, mas é pura poesia. Beijos.
 
 

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