Algo A Dizer
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Entrevista exclusiva: Nei Lopes

“Academia pra mim, hoje, nem mais a do Salgueiro.
E Universidade só a do Chope”

Por Marcelo Barbosa da Silva, Kadu Machado

No dia 13 de novembro de 2007, em cerimônia no plenário da Assembléia Legislativa, foi conferida a Nei Lopes, por iniciativa do deputado estadual Gilberto Palmares (PT-RJ), a medalha Tiradentes – a mais alta honraria dispensada a uma personalidade no nosso sofrido, embora aprazível, estado do Rio de Janeiro. Se o objetivo da sessão foi homenagear um intelectual negro nas vésperas do feriado estadual de Zumbi (o Vinte de Novembro), a escolha não poderia ser mais feliz: por tudo que fez e ainda faz na qualidade de poeta, filólogo, historiador e ficcionista entre muitos outros talentos, Nei Lopes personifica as melhores tradições de diálogo entre os elementos erudito e popular da cultura brasileira. É por isso que no interior da sua obra, as detalhadas pesquisas sobre a diáspora africana convivem com tanta naturalidade com os sambas que o povo todo conhece e aprecia tais como Senhora Liberdade, Gostoso Veneno e Eu não fui Convidado.

ALGO A DIZER – Você se forma em direito pela UFRJ num período de grande efervescência política que foi a década de 1960. Depois, enveredou pela carreira artística. Como foi a sua guinada da advocacia para a cultura?
NEI LOPES
O lance é que, assim que entrei pra FND, em 1962, fui logo cuidar de cultura, no braço do CPC que tinha lá, no qual eu escrevi e atuei como ator, com a parceria e a direção do Carlos Vereza, que era o “adido” da UNE no CACO; e agitando, com meus modestos talentos de chargista e pintor de faixas e cartazes, além de publicar na revista Época e no jornal mural do Movimento Literário. Então, não houve guinada. O que houve foi um desbunde, em 1971, já formado e militando no foro, quando eu comecei a achar a advocacia uma chatice.

ALGO A DIZER – Na sua obra, seja como compositor musical ou ficcionista, o subúrbio do Rio de Janeiro ocupa um papel importantíssimo. O paralelo com Lima Barreto é inevitável. O trabalho do autor de Clara dos Anjos influenciou você? Mais algum outro escritor serviu de referência?
NEI LOPES –
Eu não acho que tenha sido, mesmo, influência. É que o subúrbio é o meu chão, meu espaço, então a matéria prima tem que vir de lá, mesmo. Você vê o García Marquez: por mais universal que ele seja, Macondo está sempre presente. Vem de dentro. O Eça de Queiroz que eu mais gosto é aquele das aldeias, do Portugal rural... E o nosso Lima, é claro, foi fundo no fundo do Rio. Como o Marques Rebelo, também.

ALGO A DIZER – E no trabalho de compositor? Quais as influências, especialmente no samba?
NEI LOPES –
Engraçado é que, quando eu resolvi fazer, mesmo, samba à vera, como profissional, eu tive dois referenciais, bem próximos de mim: a verve do Aluísio Machado e o lirismo do Dauro do Salgueiro, que pouca gente conhece. A vidração no Padeirinho da Mangueira, no salguirense Geraldo Babão e no Catone da Portela, grandes partideiros, veio depois, com a observação. E teve também o posicionamento político do Candeia...

ALGO A DIZER – Várias de suas memoráveis composições foram feitas sozinho ou em parceria. No entanto, sua parceria com Wilson Moreira marcou época. Como vocês se conheceram e passaram a compor juntos?
NEI LOPES –
O Délcio Carvalho nos apresentou, ali por volta de 1975. Numa época em que eu estava a fim de jongo, calango, essas coisa da roça, nas quais o Wilson é mestre. Mas o que ficou, mesmo, nosso, foram dois sambas gravados em 1979: Senhora Liberdade e Gostoso Veneno.

ALGO A DIZER – Na década de 1970, você se envolveu, junto com outros sambistas, tais como Paulinho da Viola e Candeia, na fundação do G.R.E.S. Quilombo. A proposta era a da crítica ao processo daquilo que se chamava, à época, descaracterização das escolas de samba tradicionais. Qual a sua opinião sobre essa experiência e as escolas de samba hoje em dia?
NEI LOPES –
Minha participação lá se deu, mesmo, foi depois da morte do Candeia, quando o Paulinho da Viola e outros artistas não estavam mais. Aí, sob a liderança do Rubem Confete, nós fundamos uma tremenda ala de compositores. E nessa, além de fazermos muito samba, com o falecido Jorginho Pessanha, Zé Luiz do Império, Luiz Carlos da Vila e outros, nos envolvemos até em projetos sociais na Favela de Acari. Além de tomar cerveja e comer o mocotó do Tião, é claro.

ALGO A DIZER – E a volta do carnaval de rua na Zona Sul e Centro (através dos blocos)? Tal retomada pode alcançar os subúrbios também?
NEI LOPES –
No subúrbio não tem artista bacana pra desenhar camiseta (risos). E o Nilton Bravo, que até podia dar uma ajudinha, já morreu.

ALGO A DIZER – E o momento atual do samba? Quais compositores e cantores da nova geração chamam a sua atenção?
NEI LOPES –
Tem muita gente boa. Mas a mídia e o grande público precisam prestar mais atenção na Nilze Carvalho e na Fabiana Cozza.

ALGO A DIZER – Os últimos vinte anos marcam um certo declínio da idéia da nação em benefício de outras identidades como gênero, orientação sexual ou ainda raça. Nessa lógica, algumas camadas da população começaram a valorizar manifestações culturais como o rap em detrimento do samba. Qual a sua opinião sobre esse processo?
NEI LOPES –
Não sei não... Eu acho que tem muita “armação”, muita “alegria”, aí nessa parada. É tudo alguém querendo vender alguma coisa. O que ganha visibilidade como movimento, é só aquilo que tem “potencial de mercado” ou que é “tendência”. E a gente não pode esquecer que o país permanece colonizado; e que os grandes conglomerados multinacionais não dormem, principalmente na indústria do entretenimento. Eu até bolei uma paráfrase pra aquele velho dito policial, olha só: “Preto bom, só preto pop!”. Não é boa?

ALGO A DIZER – Como antigo militante dos movimentos em prol da cultura negra qual a sua opinião sobre as políticas de afirmação positiva tais como cotas raciais?
NEI LOPES –
A minha opinião, agora, é a constatação do que eu ouvia falar desde que eu era rapazinho: “Quando a gente começar a incomodar, a ocupar os espaços, aí é que o couro vai comer no nosso lombo!”. E está comendo, nas redações dos jornalões, nas cátedras universitárias, no Supremo...Eu mostro isso no meu mais recente livro lançado, O Racismo Explicado aos meus Filhos, que acabou de sair pela Agir. Mesmo sabendo que as medidas propostas nas políticas de ação afirmativa são temporárias, a hegemonia caucásica e nórdica se sente ameaçada. É uma doença isso! É um medo, um pavor, que tem raízes na escravidão.

ALGO A DIZER – Uma pequena provocação: nos últimos anos, você fez letra para composições do Ed Motta e do nosso grande jazzista, o maestro Moacir Santos. Você está querendo perder a pecha de xiita do samba?
NEI LOPES –
Eu nunca fui “xiita do samba”. Isso é queimação de jornalista babaca, tipo revista Bravo!. Eu, embora músico “de ouvido”, sempre tive gosto apurado e aberto pra tudo o que é bom. Tive um irmão trombonista, que tocava em gafieira. E gafieira é escola de ecletismo. Ainda tenho um outro, já velhinho, que, embora amador, foi violonista pré-bossa nova, e levava lá pra nossa casa discos de Laurindo de Almeida, Les Paul, Dick Farney, Bing Crosby. E ainda no ginásio, através de um colega negão, chamado Almir, cujo pai viajava pro exterior, travei contato com o jazz e a música afro-cubana. Sou sambista porque gosto. E posso dizer que sou poeta, também. Então, já me dei ao luxo de letrar aquelas complicações do Guinga; as onomatopéias do João Bosco (vêm aí no próximo disco dele); já fiz música com Fátima Guedes, Zé Renato, o escambau a quatro. Rimou, viu?

ALGO A DIZER – Você tem uma expressiva trajetória de compositor, ficcionista, historiador, dicionarista e ao mesmo tempo vem de uma formação autodidata. A academia (isto é, a universidade) já acordou para a importância da tua obra? Com o Tinhorão, parece que a ficha já caiu, né?
NEI LOPES –
Sei lá...sei lá, não sei não... Academia pra mim, hoje, nem mais a do Salgueiro. E Universidade só a do Chope.

ALGO A DIZER – E os planos? Discos, shows? Você está lançando livro novo? Fale um pouco disso?
NEI LOPES –
Vou lançar no dia 1º de dezembro um escandaloso Dicionário Literário Afro-brasileiro (Pallas Editora); em março vai sair, pela Editora Lingua Geral, do Agualusa, meu primeiro romance, ambientado na Praça Onze da Tia Ciata; e tenho em produção, na Record, um Dicionário da Antigüidade Africana, com mapas e tudo. No tabuleiro, prontos, esperando freguês, tem um Dicionário de Cultos Africanos nas Américas (nome provisório); um romance chamado Os Genes. E estou, no momento, quase pondo o ponto final numa fantasia sobre um país imaginário, onde eu gostaria de ter nascido. É um país fundado por um negão chamado Dos Santos, amigo do Tiradentes e depois do Bolívar. E na atualidade, o país, numa ilha, tem o maior IDH da América do Sul, não tem analfabetos, e é uma monarquia socialista, governada por uma negona esporrenta chamada Malvina Jackson dos Santos. Que tal? Vim morar na roça e estou trabalhando, não estou? Monarco tem razão: é melhor viver isolado no mundo do que ser um vagabundo, não é mesmo?

Marcelo Barbosa da Silva é pós-doutorando em Literatura Comparada pela UERJ, diretor-coordenador do Instituto Casa Grande e autor, entre outros, de A Nação se concebe por ciência e arte – três momentos do ensaio de interpretação do Brasil no século XIX

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