Algo A Dizer
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“Tenho algumas tarefas perpétuas, como ler a Bíblia inteira, todas as tragédias gregas, o Shakespeare completo”

Por Vivian Pizzinga

Recentemente, a escritora Myriam Campello lançou o livro de contos Palavras são para comer, pela Editora Oito e meio. O humor e a ironia permeiam os contos, e o livro traz uma ótima sacada – super original – que nomeia como ‘Interregno Bíblico’, com quatro contos cuja narrativa em primeira pessoa se dá a partir de personagens míticos da Bíblia, dando suas visões muito particulares (e nada politicamente corretas) de fatos religiosos amplamente conhecidos, o que é absolutamente genial. O livro faz rir diversas vezes, sem deixar de lado a já conhecida maestria literária (e sua vocação lírica) muito própria da autora.

Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro, é romancista e contista. Tem textos publicados no Brasil e no exterior. Recebeu o prêmio Fernando Chinaglia para romance inédito com seu primeiro livro Cerimônia da Noite, o prêmio União Latina-Concurso Guimarães Rosa pelo conto Olho e o Prêmio Biblioteca Nacional de Conclusão de Obra com o livro Sons e Outros Frutos. Participa da antologia Os Melhores Contos do Século (2000). Elaboramos sete perguntinhas para a escritora, sendo a última uma homenagem a Antônio Abujamra, que, em seu programa “Provocações”, fechava as entrevistas com essa pergunta tão crucial sobre a vida

Vivian Pizzinga – Seu último livro de contos, Palavras são para comer, têm uma veia irônica e de humor que perpassa quase a totalidade dos textos. Como você vê o humor na literatura em geral e na sua, particularmente?

Myriam Campello – Acho que o humor estimula a sanidade mental em todos na medida em que sua iconoclastia é uma forma aguda de ver o outro lado. Além do prazer que dá, pois só perde para o amor como o melhor antídoto para nos fazer esquecer momentaneamente a tragicidade da vida. Ele me delicia sempre sob suas diversas formas e sou muito grata a quem me faz rir, no cotidiano ou na literatura. Releio com enorme prazer os mestres do humor como Cervantes, Sterne, Dickens e tantos outros. Felizmente ele está por toda a ficção, de Shakespeare a Proust.

No meu livro Palavras são para comer não o busquei expressamente, ele divide o espaço com o lirismo. Mas acho que às vezes me acompanha mesmo nos textos mais dramáticos. Talvez use esse lado para desconstruir uma realidade dura demais para o indivíduo.

Vivian Pizzinga – Há um conjunto de quatro textos que compõem o ‘Interregno Bíblico’, como que contando os fatos religiosos já sabidos a partir da perspectiva dos grandes personagens míticos protagonistas desses fatos, que, cheios de uma verve irreverente, descontroem muito do que se pensa sobre eles e sobre esses mesmos fatos. Como surgiu essa ideia e como esses contos têm repercutido? Como foram as decisões quanto à forma e narrativa deles, dado que cada um começa com uma palavra específica (Não, Sim, Sem Dúvida, etc.)?

Myriam Campello – Tenho algumas tarefas perpétuas (porque nunca chegam ao fim), como ler a Bíblia inteira, todas as tragédias gregas, o Shakespeare completo etc.). Assim que me ocorre um empurrão da disciplina, volto a elas. A ideia dos quatro contos “bíblicos” me surgiu quando eu estava lendo mais um trecho da Bíblia, e me deparei de novo com suas contradições e despautérios. Ao lado, é claro, da beleza cosmogônica que também faz parte do Velho Testamento. Deus sabe que não tenho nenhuma religião: do meu ponto de vista, qualquer uma embaça e muito a limpidez da mente, apesar de reconhecer belezas pontuais em todas elas. Não quis desmerecer a fé de ninguém. O ser humano é um pobre coitado desvalido que não se aguenta em pé, com um destino trágico pela frente. É compreensível que queria se agarrar a contos de fadas que lhe acenem com um sentido, uma vida eterna, qualquer coisa melhor que a finitude.

Mas na verdade vivemos dentro de um mistério insolúvel e tão abrangente que sequer conseguimos arranhá-lo. Talvez até por falta de equipamento: nossos cinco sentidos e uma vida breve não dão nem para a saída. Como disse Gertrude Stein antes de morrer, “E qual é a pergunta?” Portanto fiquei muito surpresa ao perceber que uma ou outra pessoa, embora não tenham me falado nada, possa ter se sentido molestada com a postura irônica dos meus contos. Que me perdoem, mas isso é pensar raso. Quem pensa raso confunde o sério com a brincadeira, o que é uma grande chateação para quem tem as duas coisas bem separadas na cachola. Os amigos católicos que enxergam a diferença não tiveram nenhum problema com o livro. Afinal sabemos que o buraco é muito mais embaixo. O sagrado não se atrela como um jumento aos escribas que redigiram a Bíblia há séculos, dentro de um contexto muitas vezes bárbaro.

Quanto à forma narrativa, é uma pesquisa que faço desde o meu primeiro livro de contos, onde me apoio nos sons entre as palavras e uso essas faíscas como tijolos para construir a frase. Iniciar os contos com Não, Sim, Sem dúvida foram recursos do momento.

Vivian Pizzinga – O que você tem preferido escrever ultimamente, narrativas longas ou contos (ou qualquer outra coisa)?

Myriam Campello – Voltei aos contos. Acho que a questão não é bem preferir isso ou aquilo: o romance é um grande acontecimento, ele te visita como uma Anunciação. Se você tem a sorte de se deparar com a visão de um mundo em si – que é o que o romance propõe – maravilha.

Já o conto mostra uma fresta, um ângulo, é bem mais simples, embora tenha suas dificuldades específicas. Perto do romance, o conto é um pinguim de geladeira. Mas não há dúvida que uma narrativa curta é um excelente espaço para pesquisas formais, já que na experimentação é mais fácil controlar um número menor de páginas.

Vivian Pizzinga – E o que tem lido e gostado, ultimamente?

Myriam Campello – Tenho “ciscado” de um livro pra outro, relido muito. Adoro reler o que gosto. Dos contemporâneos, comecei On Beauty, da inglesa Zadie Smith. Mas nessa fase de ciscar leio de tudo, vou seguindo minha veneta. O que realmente me encantou nesses últimos tempos foi o romance Oblomov, a obra-prima do russo Ivan Goncharov, do século dezenove. Os escritores russos são tantos e tão maravilhosos que algum sempre nos escapa.

Vivian Pizzinga – Antes de Palavras são feitas para comer, você escreveu o romance Adeus a Alexandria. Como é partir da escrita do romance para a dos contos?

Myriam Campello – Acho que a própria narrativa longa do romance, por sua amplitude e complexidade, dita as diferenças em relação aos contos. Não é uma separação à régua, tudo é prosa.

Partimos sempre de uma ideia quanto à estrutura e a forma, claro, mas a narrativa maior exige uma construção mais ambiciosa. Contudo, boa parte do caminho se faz ao caminhar, como dizem. Muitas ideias nos chegam provocadas pelo próprio ato de escrever, à medida que vamos desdobrando a narrativa, nessa brainstorm interior, permanente, em que ficamos mergulhados ao escrever um romance. O acaso também é um coautor importantíssimo e nos dá uma mão de vez em quando. Ainda bem.

Vivian Pizzinga – Tem algum projeto vindouro?

Myriam Campello – Meu projeto de agora é acabar o conto que estou escrevendo.

Vivian Pizzinga – O que é a vida?

Myriam Campello – Não tenho a menor ideia do que seja. Se você descobrir, Vivian Pizzinga, mande correndo duas linhas pro meu inbox explicando.

Livros publicados por Myriam Campello: Cerimônia da Noite (romance, 1971). Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014), Palavras são para comer (contos, 2017).

Vivian Pizzinga é psicóloga e escritora, autora dos livros de contos Dias roucos e vontades absurdas (2013) e A primavera entra pelos pés (2015), ambos pela Editora Oito e Meio

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Comentários
  Alexandre Brandão
31/08/2017

Vivian, que belo papo com a Myriam. Parabéns pras duas.
 
  Maria José Lindgren Alves
31/08/2017

Pretendo comprar o livro de Myriam Campello tão logo acerte minhas contas de aposentada do Estado do RJ. Deve ser ótimo, pois minha irmã que não lê tanto assim gostou muitíssimo.
 
 

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