Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Pit stop para uma visitação

Por Afonso Guerra-Baião

Convido você a visitar comigo um grande homem do passado. Ele foi visto pela última vez no dia 12 de julho de 1536, na cidade de Roterdã, na Holanda. Erasmo de Roterdã foi um grande homem, mas não exerceu nenhum cargo de poder: não foi um rei nem um general, não foi papa nem bispo. Ele era um simples frade que escrevia livros de teologia: era um pensador. Entre os pensadores de sua época, outros fizeram mais sucesso, como Tomás More e Machiavel. O que é, então, que nos leva a essa longa viagem no tempo, ao encontro de Erasmo? A resposta pode ser dada em duas palavras: iluminismo e humanismo, as marcas do pensamento de Erasmo, que viveu numa época de trevas e de fogueiras.

Erasmo defendeu a paz e combateu a guerra. Para ele, não há guerra santa nem guerra justa. Toda guerra é ilógica, pois o preço da paz é sempre menor que o da guerra.

Para ele o homem, como ser racional, deve defender a verdade contra o erro, deve cultivar a paz contra a guerra e contra qualquer tipo de violência – e deve fazer valer a liberdade contra qualquer tipo de poder imposto.

Erasmo não era um revolucionário: ele admitia o poder do Estado, mas para ele o Estado bem organizado deve reduzir a desigualdade entre os cidadãos. Para isso o Estado deve implantar a justiça fiscal, cobrando impostos maiores de quem tem mais riqueza. O governo deve defender os mais fracos da exploração dos mais poderosos. A glória do governante consiste em respeitar a liberdade dos cidadãos, como Deus respeita o livre arbítrio do homem.

Essa concepção do homem como sujeito e não como vítima do destino ou objeto da tirania, é a base do humanismo de Erasmo. Sua aceitação do Estado e do Governo como poder consentido pelo povo, como relação de poder em que todos têm direitos e deveres, tendo o bem comum como objeto e como única razão de ser, nasce de sua razão iluminista.

Ir ao encontro de Erasmo faz sentido para nós, hoje: seu humanismo nos ajuda a recuperar a fé no ser humano, seu iluminismo nos ensina a negar o autoritarismo e a construir um Estado a serviço do cidadão. Acima de tudo, a esperança que fazia Erasmo brandir seu facho de luz na idade das trevas, nos anima nas lutas que travamos contra os obscurantismos que hoje se apresentam coloridos nas telas de nosso cotidiano.

Afonso Guerra-Baião é professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo

Envie seu comentário:
Nome:*
Email:**
Comentário
Imagem de verificação

*Campo obrigatório
**O e-mail não é obrigatório e não será exibido no comentário
Comentários
  Maria José Lindgren Alves
07/09/2017

Ótima lembrança, muito atual. Parabéns!
 
  Valéria S. D. Lopes
08/10/2017

Afonso, adorei o texto e conhecer a história do Erasmo e me identificar com ela nesse pit stop para uma visitação . Parabéns pelo texto texto brilhante.
 
 

contato@algoadizer.com.br | Webmaster: Marcelo Nunes | Design - Pat Duarte