Algo A Dizer
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O caixa que ri

Por Jorge Nagao

Dia 28/8 é o dia do bancário. Parabéns? Obrigado! Agora, me permita, vou abrir o meu coração. Sou caixa de banco. A troco de quê? Não sei. Por minhas mãos passaram milhões de reais. Passaram disse-o bem porque eles passaram e foram para as contas dos grandes clientes ou para o cofre do banco.

Na minha conta, não têm milhões, apenas quireras como se dizia no século XX.

Para quem desconhece, quirera é milho quebrado e não milhos grandes, milhões. Por que me preocupo com o dinheiro alheio? Porque é da minha conta, é o meu trabalho.

Contas tenho muitas para pagar: de água, pago-a; de gás que pagas também; do celular, do telefone do lar; condomínio que édificio de pagar; fora as contas extras que sempre aparecem mas isso não conta. Ou conta? E a nossa pobre conta fica magrinha demais da conta.

No banco, tem conta corrente, conta poupança, conta de mais, de menos, de dividir e multiplicar, tanta conta que nem vou te contar. E conta dinheiro, conta cheques, conta piada e conta fofoca pro tempo passar.

Segundo as minha contas, um caixa faz mais de trezentas contas por dia. Se ele comete apenas um erro, o seu caixa dá diferença. Quando não se descobre o erro, alguém fica no prejuízo: o caixa ou o cliente.  O banco nunca perde. Se faltou dinheiro no caixa, o caixa tem que pagar, repor. Se sobrou, fica pro banco, numa conta especial. O bom cliente que leva suas contas somadas facilita a vida do caixa. Porque, às vezes, por causa de um mísero centavo, o caixa perde tempo quando não perde dinheiro também. É por isso que alguns caixas viram “caixaceiros”.

Sempre me perguntam se o dinheiro traz felicidade. O Lair Dinheiro, ôps, Pinheiro, diz que sim. Ele anda com uma carteira com muitas notas de cem. De vez em quando, ele conta as notas porque, segundo ele, isso traz sorte, atrai grana. Ora, se contar dinheiro trouxesse sorte, atraísse grana, nós caixas seríamos os caras mais ricos e felizes do Brasil. Dinheiro chama dinheiro, cheque chama cheque, fogo chama chama e assim por diante. Que bobagem!

Só sei que o dinheiro é sujo. Dorme em sutiã, viaja em cueca, na meia, sem falar no Papillon que... se você não sabe pergunte a quem viu o filme. Deve ser por isso que a gente sempre ouve falar em lavagem de dinheiro.

Alguém me disse que eu não devia ser caixa por ser muito distraído. Só porque uma vez

entrei num outro guichê, fizeram o maior carnaval. Puseram uns laços vermelhos no meu guichê pra que eu não errasse de novo. Tem gente que me lembra disso até hoje.

Então, você é caixa a troco de quê?  O banco paga uns trocados a mais pra compensar o risco de assalto, de possível ler/dort, neuras e estressétera e tal.

No início dos anos 90, existia o noticiário Rádio dos bancários, bancado pelo spbancários, na rádio Gazeta AM, das 7 às 9 da manhã. Loucos são/locução, um time de primeira: Odair Batista, Nelson Tatá Alexandre, José Trajano e Sergio Pinto de Almeida. No dia dos bancários daquele distante 1993, o programa lançou um concurso pedindo frases sobre bancários e banqueiros. “O bancário carrega o trombone e o banqueiro leva a gaita”, foi a melhor frase, do João Zacarias, metalúrgico desempregado.

Fiquei em segundo lugar com a frase “ Salve o dia do bancário e salve-se quem puder dos banqueiros”.

Para concluir, o verbo bancar: eu banco, tu bancas, ele banca, nós bancamos, vós bancais, eles banqueiros.

Jorge Nagao é escritor e jornalista

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Comentários
  Maria José Lindgren Alves
07/09/2017

Irônico, engraçado mesmo, o seu texto tem tudo a ver com o que senti2400 MONTEa todas as vezes que entrava no BB e queria dinheiro. Pobres caixas!
 
 

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