Algo A Dizer
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Pelo amor do Pai

Por Cinthya Nunes

Toda semana eu os vejo pelo bairro e fico pensando que se eu fosse fotógrafa, registraria aquela cena como tradução do amor paternal. O homem, oriental, idoso, amparando o filho de meia idade, que aparentando ter sofrido um derrame, com mobilidade e provavelmente a coordenação motora comprometida, andam sempre juntos, como que fossem um só.

Não conheço os detalhes da história dos dois, mas nem é preciso para saber que ali há uma ligação que transcende às dores e mazelas humanas. Os passos firmes e seguros do pai, contrastam com o vacilante caminhar do filho, remontando a como deveriam ser há décadas, quando eram um jovem e um garotinho.

Para mim é impossível olhar para os dois e não pensar no medo que também, acredito eu, os cerca. Desconheço se o filho tem plena consciência de sua condição, mas não tenho dúvidas de que o pai não a ignora. Creio eu que o pai teme pelo fim dos seus dias pelo que isso significará aos dias que restarem ao filho.

Olhando os dois se locomovendo naquele quase abraço, eu também por eles dirijo uma oração ao Criador, o Pai que desejamos amparar os passos de todos aqueles que vivem sob o Céu. Que Ele permita não faltar força física àquele pai que não pode se dar ao direito de fraquejar, de envelhecer tanto quanto o tempo se esforça para fazê-lo.

Fico pensando que de fato ser um pai é muito mais do que algo biológico. Pais de verdade são aqueles que cuidam, que protegem, que dão cara de coragem aos seus medos, que ensinam o que ainda aprendem, que se passam por homens mesmo quando ainda são pouco mais que meninos.

Ser pai de verdade, estou convicta, é uma escolha. Quando vi a foto de um amigo que, segurando nos braços a filha adotiva que recebera em sua casa há uma semana, ostentando um sorriso indescritível, intraduzível em palavras, não tive duvidas de que ali nascera um pai, em um processo às avessas.

Infelizmente muitos homens participam a vinda de crianças ao mundo somente através de seu material genético e nada mais. Milhares de crianças órfãs de pais vivos, sem nunca terem recebido uma mísera parte daquele amor que vejo em tantos outros pais, como o que mora no sorriso do meu amigo, no abraço do pai idoso do início desse texto, bem como no sorriso do meu próprio pai.

Quando nasce uma criança amada, desejada, nasce também um pai, eis que as mães sem a chance de se irem construindo pelo caminho, a cada nova célula que se multiplica dentro desses corpos. Ainda que nem todas vivam esse amor, ao menos tem essa chance de espelhar na alma, o filho ainda em formação. Já os pais se tornam em um repente, assim que seus filhos vêm ao mundo, mesmo aqueles que por eles já tenham amor desde a concepção.

Tornar-se um pai, no entanto, ainda é diferente de manter-se como um pai, um verdadeiro pai. O que eu acredito que as algumas pessoas não entendem é que não importa a data de nossos corpos, as limitações que nos forem sendo impostas pelo tempo, dentro de nós, do ponto de vista do narrador de nossas vidas, continuamos tendo uma única idade. Em verdade, acredito que a alma é atemporal e dessa forma nos sentimos, penalizados muitas vezes, pela imagem que o espelho revela, mas que não nos reflete.

Assim, assumir a responsabilidade por outra vida, alimentar os sonhos, apaziguar os medos, amparar os passos de outra pessoa, até que a morte, de um ou de outro, corte os laços da matéria, não é tarefa para covardes, para descomprometidos, para egoístas. Todo filho é eterno, assim como todo pai é para sempre, seja vivo, seja memória. São marcas indeléveis, uma vez que tenham surgido.

Não se trata de um endeusar da figura paterna. Os pais, assim como as mães e os filhos, são passíveis de falhas, de erros. Os comerciais dos dias dos pais podem fazer parecer que os pais são perfeitos, mas isso retiraria deles toda a humanidade, tudo aquilo que também somos. Celebrar a existência de um pai é celebrar a continuidade da vida, da chance que temos de aprender com aquele que nos ensinou, que nos apoiou, que nos amparou. É agradecer pela vida daquele que, se fosse preciso, também nos carregaria para cima e para baixo para o resto da vida.

Hoje, enquanto o tempo invade os meus dias em branco, eu estou certa de que meu pai, todas as vezes nas quais me olha, enxerga a menina que um dia eu fui, correndo para dele roubar um abraço. Por dentro, muitas vezes, eu mesma me sinto assim. Fecho os olhos e posso sentir, mesmo a quilômetros de distância, ele perguntando se já me disse hoje que me ama. Em um sussurro eu respondo que já, não apenas hoje, mas até para depois dessa vida…

A todos os pais, a todos os filhos, eu desejo não que celebrem um dia, mas todos aqueles nos quais puderam ser felizes juntos…

Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, professora universitária, cronista e membro da Academia Linense de Letras

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