Algo A Dizer
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A fúria dos sem-lugar

Pádua Fernandes mapeia a cidade de pedra e seus destroços vivos

Por Gustavo Dumas

Catarse em estado lírico de plurivozes erráticas em conjunto ou consciência manifesta de um multiverso instável? A dinâmica imagética e sonora, esporrenta e desnorteante da poética de “Cinco lugares da fúria” (Hedra, 2008), de Pádua Fernandes, compõe-se a bem da verdade de seis divisórias – em se considerando o “Lugar nenhum”, ponto final de todos os outros lugares de expressão de onde se posta a narrar o eu tenso-lúdico do livro. Os lugares desta localização desabrigada de expectativas são todos nenhuns – ou muitos, vastos porém inóspitos, tantos todavia nulos, planos tortos, nesgas de esconderijos negadas pelo que definem como realidade os poderes estabelecidos. O poeta-personagem composto por Pádua está heterogeneizado dentro deste mundo agônico e caótico em que entrevista e se faz eco de personagens outrora silenciadas, que se desreprimem, embravecidas, a se tornarem ora centro, depois de posta (enfim) à mesa a margem.

O mapa daquela realidade-a-mesma encontra-se rasgado – o universo multifocou-se em uma urgidura outra. Para negar(-se) (a)o aparelho dos também oprimidos que oprimem justo quem o estaria manchando ou desvirtuando e restar-se fora, embora sempre em transe ou trânsito pelo “Ventre seco dos calendários”. Há, de início, uma vocação que se assume. A primeira região do livro-mundo poético concebido/mimetizado por Pádua Fernandes é mito: apresenta os crânios tombados e explicita sua foz “mineral”. Verdadeiros deportados (loucos?) de pedra anunciam-se, ruminantes, entre futuros de países, projetos de fuga e permanência; rumam ao cabo do dia e ao rabo do sol ao lixo, deserdados de esperança e desertados de uma rua-destino. Sua economia é a da (d)ejeção. As imagens de sua exclusão são fortes: “- Meu filho ontem queimou um índio./- Não é uma espécie protegida?/- Mas ele achava que era um mendigo.”

Trata-se de um plano-cidade em aglomeração de falas que vão se sobrepondo, em “percursos anti-horários” de um tempo indiferente, quando não desdenhoso. Não seria São Paulo a terra de referência de Pádua – e pedra também de toque para a composição de seu “mapa progressivo do oco”? Urbano e absurdo andam juntinhos (“porque o absurdo cria mil ruas sem esquinas/e escolheu essa cidade para morar”). Vias poluídas se reproduzem na vida de moradores que parecem estar de visita, parados na própria casa que não reconhecem como sua (“Em concreto e traste e grito,/em suor, cimento e cisma/o povo daqui estanca.”). O matador se lamenta: “na hora não sinto nada./só depois é que eu esqueço./(...) na hora é que eu esqueço./depois eu sinto e não sei nada./não foi ninguém, ninguém morreu./foi só algo que estava no caminho./(...) ela saiu no jornal. mas já fiz melhor.” O padrasto fala liricamente de seu amor: “não é filha, mas é minha,/enteada é mulher também;/(...) pois não é porque termina/que chamam o amor incêndio,//mas devido à cicatriz/que é do fogo todo o prêmio.”

O dano do apagamento é o tributo a ser pago, num processo de alheamento gradual e, em muito, consentido, que tem como vida-símbolo o cupim, reverenciado por senhor do oco que rói com tudo, revelando o “útero nu”, o “abismo inteiro em cada muro”; o cupim é o patriarca do pó comum, lembrador esteta de que o vazio se arquiteta por poucos, “a portas fechadas”, e de que “da anestesia ninguém acorda”.

O quarto lugar, “língua pródiga dos decapitados”, propõe-se ainda ao demarcar o pasto/posto em que se encontram a poesia, quando e onde “nada há que se mostrar”, embora se mostre; e o poeta, “boi” de “ossos expostos”, figura barata “embora alto o preço” pago pelo exercício de sua (dis)função. O par de versos “entre os dentes/ou o fracasso do fôlego” exprime bem o lugar de quem insiste neste (desen)canto, tendo “a ruína como casa”. A reflexão não se resolve aí. Junta-se à compreensão deste autêntico “viveiro para sopro e mortos” que põe críticos e prisioneiros no mesmo atoleiro, o da distância entre a realidade/objeto e a obra/produto. Pádua Fernandes aproxima esses mundos real e inventado: sua poesia é o objeto, dotado de língua própria porém negada por quem deteria o poder de interpretar (e interpelar) o real a seu modo, ou seja, de influir sobre. E não seria esta a “cosmovisão da pá”, que na hora de gritar e varrer se dirige ao decapitado e não aos possíveis agentes da decapitação?

O poema “por dentro” nos permite uma visualização sintética de toda a tessitura dos “Cinco lugares da fúria” e da própria cidade, comparada a uma porca. Se antes fora anunciado que “(...) a rua viva/precisa de mortos”, “por dentro” flagra, pelo olhar da personagem Patética do Parque, “(...) a cidade dando a luz/à pedra e dando a pedra/aos homens.” Neste quadro, o “lugar nenhum” é a lei e os que a seguem (ou não), somando fraturas pelo caminho, torcendo e retorcendo fronteiras; e a rua é o “berço que exila”. Para dentro de um livro?

Absorto porém comprometido com a tarefa hercúlea de descortinamento, pela arte, do maquinário perverso que fabrica a anulação cotidiana do homem urbano atual, sujeito a e de seu tempo e espaço, Pádua Fernandes se inscreve num rol de poetas e pensadores que não se rendem à apatia geral. Não sem deixar-se doar a doer, a sangrar. Trata-se o mundo das páginas poéticas de Pádua de um multiverso vivaz, pulsante, em disputa, cujos principais depoentes sobrevêm do baixio. Embora, como sempre, não se consiga perturbar todos, bom notar que renasce a turba, nas letras; e que esse barulho não tende a cessar.
Gustavo Dumas é escritor e revisor. Publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, os livros de poesias "A Perspectiva do Quase" (Arte Paubrasil, 2008) e "Idade do Zero" (Escrituras, 2005).
Contato:zehgustavo@yahoo.com.br
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Comentários
  dharaer mon
13/12/2012

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