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Observações preliminObservações preliminares acerca dos conceitos de “via prussiana” e “revolução passiva”

Por Elias Sanches

O conceito de via prussiana, de Lênin, foi formulado a partir da análise do processo de modernização capitalista da Alemanha, e em contraposição ao “modelo americano”. Naquela hipótese, a grande propriedade pré-capitalista transforma-se, gradativamente, em empresa capitalista. As relações de trabalho mantêm aspectos da coerção extra-econômica que as caracterizavam e os antigos proprietários, ao garantirem a manutenção das formas econômicas em que se apoiam, conseguem manter papel proeminente no aparelho de Estado e, assim, orientar o próprio processo de modernização.
O “modelo americano”, ou “clássico”, ou ainda, “democrático”, se caracteriza pela destruição da grande propriedade pré-capitalista, fracionada em pequenas propriedades camponesas. As relações capitalistas no campo nasceriam do processo de diferenciação entre os camponeses, e o desenvolvimento do capitalismo não encontra obstáculos pré-capitalistas, o que permite um rápido desenvolvimento das forças produtivas.
Segundo a definição de Coutinho, o conceito leniniano de “via prussiana” foi elaborado “com o objetivo principal de conceituar a modernização agrária”, enquanto que o conceito de “revolução passiva” de, Gramsci, buscaria determinar processos sociais e políticos de transformação ‘pelo alto’.” Assim, notamos aqui uma certa vinculação da noção de “via prussiana” às questões infra-estruturais, enquanto que o conceito gramsciano revelaria maior preocupação com os aspectos superestruturais, e mais propriamente políticos da transição.
Esta idéia encontra-se de forma mais explícita em outro trabalho de Coutinho, onde afirma que o conceito de “via prussiana”, “na medida em que se concentra prioritariamente nos aspectos infra-estruturais do processo [...] não é suficiente para compreender plenamente as características superestruturais que acompanham – e, em muitos casos determinam – essa modalidade de transição. Portanto, não é por acaso que essas tentativas recentes de aplicar ao Brasil o conceito de “via prussiana” são quase sempre complementadas pela noção gramsciana de “revolução passiva” .
Talvez seja necessário aqui fazer apenas uma ressalva, com o objetivo de resguardar a obra de Lênin. O trecho citado faz parte de um capítulo do livro de Carlos Nelson Coutinho que foi publicado, pela primeira vez em 1985, na revista Crítica Marxista. A época e local de publicação permitem inferir que o texto pertenceu a um debate político que contrapunha a obra de Gramsci a um certo leninismo e a alguns conceitos mesmo da obra leniniana, o que torna compreensível que Coutinho se encontrasse mais propenso a perceber os aspectos economicistas da obra de Lênin. A sua observação acerca do conceito é bastante justa, mas se ampliarmos um pouco o foco, veremos que não permite uma apreciação justa do conjunto das preocupações de Lênin.
Não se pode deixar de ressaltar que Lênin era um estudioso dotado de agudo senso político. Quando escrevia sobre economia ? como em O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia ? ou mesmo sobre filosofia ? como em Materialismo e Empiriocriticismo ou nos Cadernos sobre a Dialética de Hegel ? a preocupação em compreender desdobramentos superestruturais e, especialmente políticos dos processos e conceitos estudados nunca deixou de se fazer presente. Lênin costuma ser lembrado como o autor que trouxe a subjetividade de volta para dentro do marxismo, que na época da II Internacional era marcado por avaliações mecanicistas acerca do desenvolvimento do capitalismo.
A idéia de que o capitalismo se desenvolveria a partir do processo de diferenciação entre os camponeses pertence à sua polêmica com os populistas russos que acreditavam que o campesinato representava um modo de produção à parte, antagônico ao capitalismo, o modo de produção camponês, cuja ‘pureza’ os populistas propunham preservar contra as contaminações do capitalismo.
A noção de “via prussiana” surgiu posteriormente a este debate. Em 1907 em um trabalho intitulado “O Programa Agrário da social-democracia na Primeira Revolução Russa de 1905-1907”, Lênin busca reorientar o programa agrário de seu partido à luz das experiências da revolução iniciada em seu país no outono de 1905. Aqui ele polemizava com outras correntes políticas, especialmente os socialistas-revolucionários, que mantinham a perspectiva dos populistas de entender como fonte do capitalismo no campo apenas a grande propriedade. Lênin procura demonstrar que o desenvolvimento capitalista associado à grande propriedade é apenas uma das formas possíveis de modernização, distinta da outra, vinculada à propriedade camponesa.
Quanto a Gramsci, realmente, as condições em que foi escrita a parte mais importante de sua obra não permitiram que, como Lênin, pudesse se debruçar sobre estatísticas econômicas detalhadas para fazer uma análise aprofundada da economia. Esta debilidade de sua obra acabou por contribuir para que ele enfatizasse mais os aspectos políticos da modernização em seu país. Nestas condições, ele dedicou-se mais a questões menos estudadas na tradição marxista que lhe antecedeu.
Carlos Nelson Coutinho lembra que um processo de revolução passiva “implica a presença de dois momentos: o da restauração [...] e o da renovação”. Que a possibilidade da revolução passiva reside na inexistência de uma “iniciativa popular unitária”, circunstância que levou a que Gramsci caracterizasse os movimentos populares da Itália do Risorgimento como “subversivismo esporádico, elementar, desorganizado, das massas populares”, portanto, sem condições de impor transformações mais radicais. Lembra também que “o aspecto restaurador não anula o fato de que ocorrem também modificações efetivas.”
É interessante também vislumbrar a abordagem filosófica de Gramsci à questão da “revolução passiva”. Nas Notte sul Machiavelli, sulla política e sullo Stato moderno ele busca explicar o conceito a partir das categorias da dialética. A obra de referência utilizada é a Miséria da Filosofia. A sua compreensão da dialética marxista a partir desta obra fornecerá os elementos para se pensar a “revolução passiva”. Uma verdadeira superação dialética seria fruto do confronto aberto entre os pólos da contradição: “cada membro da oposição dialética deve procurar ser todo ele mesmo e lançar na luta todos os ‘recursos’ próprios políticos e morais, [...] só assim se obtém uma superação real” ...
Na “revolução passiva”, ao contrário, somente um dos pólos desenvolve suas potencialidades e consegue, inclusive, incorporar uma parte da própria antítese, naquilo que Gramsci chama de “transformismo”, conceito que será largamente utilizado por Coutinho. “nos teóricos da revolução passiva “a ‘incompreensão’ teórica era a expressão prática das necessidades da ‘tese’ de se desenvolver toda a si mesma, até ao ponto de conseguir incorporar uma parte da própria antítese, para não se deixar ‘superar’ na oposição dialética; só a tese, na realidade, desenvolve todas as suas possibilidades de luta, até se granjear os chamados representantes da antítese: precisamente nisto consiste a revolução passiva ou revolução-restauração.”

Caio Prado Júnior e a “revolução passiva” no Brasil
Para Coutinho, as analogias entre o Risorgimento italiano e o processo de independência e consolidação do Estado imperial no Brasil explica o paralelismo entre a análise destes eventos feita por Caio Prado e a formulação do conceito de “revolução passiva” por Gramsci, na mesma época.
Detalhe interessante, a obra de Caio Prado contemplaria tanto o aspecto superestrutural quanto o infra-estrutural, indicados por Coutinho nos conceitos Gramsciano e leniniano, respectivamente.
Há um interessante e ainda inédito artigo de Leandro Konder sobre Caio Prado Júnior , onde ele aplica à obra do historiador brasileiro uma metáfora utilizada por Norbert Elias para falar dos desafios que se apresentam aqueles que “buscam trilhar o caminho da construção do conhecimento.” A metáfora é a do nadador e do aviador: “...o mar, por exemplo, era um vasto e complexo objeto de conhecimento. Percebido do ângulo do nadador, ele pode revelar algumas das suas características mais interessantes: o nadador sente a água na pele, percebe as variações de temperatura, verifica a transparência do líquido, sente as ondas com seus movimentos, pode enxergar os peixes e as plantas, etc. O aviador, ao vê-lo do alto, da cabine do seu avião, tem a possibilidade de avaliar uma área bem mais extensa, enxerga melhor as grandes correntes, as ilhas, os bancos de areia, o contorno das praias, os limites impostos pela terra firme.”
Ambas as percepções guardam elementos de verdade, da mesma forma como cada uma delas possui suas limitações. Cada uma destas visões, separada, oferece um conhecimento simplificado e unilateral. As duas se complementam. A partir desta metáfora, Konder irá analisar dois livros de Caio Prado, Evolução Política do Brasil e Formação do Brasil Contemporâneo, dois trabalhos que, vistos em conjunto, associariam a visão do nadador à do aviador.
Em seu livro de 1933 (Evolução Política do Brasil), ao se referir aos acontecimentos ligados à emancipação política do país, ao mesmo tempo em que aponta a necessidade das mudanças, imposta pelo desenvolvimento econômico, irá apontar os aspectos políticos que evidenciam seu caráter de “arranjo político”, o “ambiente de manobras de bastidores” que caracterizou aquele processo.
Por outro lado, aquele mesmo desenvolvimento econômico não era ainda suficiente para forjar as bases de um movimento popular capaz de determinar os rumos do processo político. Os movimentos e agitações das camadas populares, por isso, se ressentiriam ainda de falta de maturidade política para impor suas reivindicações. Assim, acabam prevalecendo, dentro do bloco político interessado na autonomia nacional, os interesses das “classes superiores da colônia”.
É interessante verificar uma passagem em que Gramsci se refere, com outras palavras, a uma similar falta de “maturidade política” no movimento popular em seu país na época do Risorgimento e de suas conseqüências para os posteriores desdobramentos políticos: ... “a ausência nas forças radicais-populares de uma consciência da tarefa da outra parte impediu-lhe de ter plena consciência da sua própria tarefa e, portanto, de pesar no equilíbrio final das forças, em relação ao seu efetivo peso de intervenção e, então, de determinar um resultado mais avançado, numa linha de maior progresso e modernidade.”
Aquelas características do processo de independência do Brasil se cristalizaram no projeto constitucional de 1823. O que estava em discussão na elaboração deste projeto era a conformação do recém fundado Estado nacional brasileiro, a discussão sobre que contornos políticos e sociais ganharia. Caio Prado ressalta no projeto de 1823, como característica mais relevante para a sua interpretação, a concentração de poderes nas mãos do parlamento, ou, o que dá no mesmo, dos grandes proprietários rurais. Por uma lado, assegurava a representação parlamentar para as classes possidentes, excluindo do processo representativo a grande maioria da população, de outro, garantia a autonomia do parlamento frente ao imperador.
O fato da dissolução da Assembléia Constituinte antes da promulgação da constituição não afeta a análise de Caio Prado. Tem a ver com as manobras de bastidores, com as condições em que se realizavam os “arranjos políticos”. O próprio reinado de D. Pedro I foi marcado pela transitoriedade. E, no fim das contas, a constituição outorgada mantinha os privilégios de representação dos proprietários. Apenas, estes tinham que partilhar o poder com o imperador.
Outro processo de transição analisado por Caio Prado no Evolução Política do Brasil é o que se relaciona às transformações da segunda metade do século XIX. Após um período de hesitações – aberto pelos acontecimentos que levaram à abdicação do imperador em 1831 e que se estende até 1837 – acompanhado de violentas agitações sociais, os setores dominantes retomam a iniciativa e, em 1849, com a “pacificação” de Pernambuco, terminam por consolidar seu domínio. Ao lado do esmagamento das revoltas populares, a reforma eleitoral contribuirá para esta consolidação. “E assim entramos na segunda metade do século passado. As massas populares, mantidas numa sujeição completa por leis e instituições opressivas, passam para um segundo plano, substituindo pela passividade sua intensa vida política dos anos anteriores. [...] Daí por diante as lutas são no seu seio. É dentro dela que vamos encontrar os germes da discórdia, e será a luta destas tendências opostas de grupos burgueses que constituirá a história política da segunda metade do século passado.”
No Evolução Política do Brasil vemos a presença dos fatores que possibilitam a caracterização de um processo de “revolução passiva”, numa análise cuja ênfase se encontra nos aspectos políticos. Em outros trabalhos veremos esta ênfase se deslocar para as questões infra-estruturais.
O nome Formação do Brasil Contemporâneo não é casual, reflete a forma de Caio Prado encarar o estudo da realidade brasileira à sua época. As explicações para a situação de atraso do país deveriam ser procuradas em nosso passado colonial. O estudo da história do Brasil deveria ser norteado pela busca do sentido essencial de nossa evolução histórica. Este sentido, segundo ele, apontava para um vínculo, desde a época da colônia, do Brasil com o capital comercial num “processo que acabaria por integrar o universo todo em uma nova ordem, que é a do mundo moderno, em que a Europa, ou antes, a sua civilização, se estenderia dominadora por toda a parte. Todos esses acontecimentos são correlatos, e a ocupação e povoamento do território que constituiria o Brasil não é senão um episódio, um pequeno detalhe daquele quadro imenso.”
O “sentido da colonização”, mercantil e capitalista segundo a tese de Caio Prado, negaria a tese do feudalismo brasileiro. O latifúndio já não poderia ser visto como um obstáculo feudal que deveria ser removido para dar passagem ao desenvolvimento capitalista, mas como instrumento da inserção do Brasil na economia capitalista.
A grande lavoura, associada à exploração do trabalho escravo e voltada para o mercado externo, seria o espaço privilegiado para a compreensão da especificidade da formação brasileira, dela “derivou toda a estrutura do país: a disposição das classes e categorias de sua população, o estatuto particular de cada uma e dos indivíduos que as compõem.” A economia camponesa, identificada com a agricultura de subsistência era encarada como meramente subsidiária, residual.
A escravidão, na compreensão de Caio Prado, é o que “antes de mais nada, e acima de tudo, caracteriza a sociedade brasileira de princípios do séc. XIX”... Para ele, as características próprias à escravidão nas condições em que se deu aqui são mais importantes na moldagem posterior da sociedade brasileira do que as características “comuns à escravidão em geral”. O seu traço peculiar será o pertencimento à uma “ordem de acontecimentos que se inaugura no séc. XV com os grandes descobrimentos ultramarinos”. A escravidão subordinada ao capital mercantil procurava garantir a produção dos gêneros valorizados no mercado internacional e “nunca se desviou de tal rumo”.
O seu livro de 1966 é o que explicita mais as divergências com o PCB. Mesmo porque o objetivo era o de contribuir para os debates do Congresso do partido. A crítica mais de fundo, que irá ter desdobramentos em toda a discussão apresentada por nosso autor naquele trabalho é a crítica metodológica que se refere à caracterização apriorística da sociedade brasileira a partir dos modelos importados do movimento comunista internacional.
Caio Prado criticava o modelo construído a partir das formulações do VI Congresso da Internacional Comunista. acerca dos países coloniais e semi-coloniais, contidas no Informe de Bukharin ao congresso. Defendido, contra a resistência de alguns delegados latino-americanos, em um discurso de Jules Humbert-Droz, destinado a convencer os comunistas latino-americanos do acerto da caracterização dos seus países como semi-colonias.
Aqui, voltava a reafirmar-se a sua fidelidade à história do Brasil. A convicção da necessidade de buscar em nosso passado a explicação para as condições do presente. O instrumental teórico para a interpretação teria de ser o fornecido pelo marxismo, mas não a partir dos conceitos estabelecidos para outras realidades que não a nossa. O marxismo deveria ser aplicado à interpretação da realidade brasileira, como diz o subtítulo de seu livro de 1932: Ensaio de Interpretação materialista da História do Brasil. A propósito, exatamente 20 anos depois, abordando questões ligadas à teoria do conhecimento, Caio Prado irá dizer que: “A aplicabilidade de uma teoria a fatos desconhecidos ou ainda não observados, permitindo assim a sua descoberta, ou então a fatos ainda não explicados ou explicados de maneira menos satisfatória, tem-se mostrado um característico geral de tôdas as teorias científicas que tiveram significação no desenvolvimento da ciência. [...] Uma teoria que desse conta, mesmo que fôsse aparentemente satisfatória, de um certo número de fatos, mas que se limitasse a isso, não abrindo perspectivas novas, não teria maior significação.”
Além de ser uma apreciação filosófica, trata-se também de um programa e um projeto de estudos. É a aplicação de uma teoria determinada, o marxismo, a uma “realidade explicada de uma maneira menos satisfatória” o que Caio Prado buscava fazer, desde o Evolução Política do Brasil. E a especificidade daquela realidade acaba por enriquecer a teoria, a qual, “inicialmente simples hipótese a ser verificada, é buscada no arsenal ideológico preexistente em que se procuram enquadrar os novos fatos considerados, modificando e reajustando as teorias admitidas.”
Para Coutinho, Caio Prado, em função daquela fidelidade à nossa história, pôde desenvolver a teoria marxista das “vias não-clássicas” de desenvolvimento capitalista e pôde também determinar adequadamente as raízes de nosso capitalismo. Mas pecava em seus diagnósticos sobre o Brasil de sua época pela subestimação dos elementos de modernização dos processos brasileiros de transição.
No apêndice de 1977 ao seu livro de 1966, Caio Prado teria afirmado que o Brasil, salvo adaptações conjunturais, continuava o mesmo do passado. O “sentido da colonização”, determinado pelo mercado mundial, continuava sendo a principal determinante da economia nacional. “Embora em mais complexa forma, o sistema colonial brasileiro se perpetuou e continua semelhante. Isto é, na base, uma economia fundada na produção de matérias-primas e gêneros alimentícios demandados nos mercados internacionais.”
A principal causa desta subestimação dos aspectos modernizadores seria, para Coutinho, o caráter incompleto de sua ruptura com o estagnacionismo que marcou o paradigma terceiro-internacionalista. Sua principal conseqüência, uma insuficiente formulação da questão da democracia política, aqui, mais uma vez, Caio Prado estaria enredado nas teias do terceiro-internacionalismo, cuja compreensão da democracia minimizaria os aspectos “especificamente políticos desta última em favor de seus pressupostos econômicos e sociais.”
Aqui, seria interessante a comparação com um outro autor comunista ? muito mais vinculado ao paradigma terceiro-internacionalista ? dedicou algumas páginas à questão da democracia. No seu Formação Histórica do Brasil, Nelson Werneck Sodré apresenta seus pontos de vista acerca do caráter e do papel que a democracia deveria assumir. Não é casual a localização do assunto dentro da obra. No último capítulo, intitulado Revolução e sob o subtítulo Perspectivas da Revolução. De fato, este posicionamento corresponde ao papel subordinado da democracia, dentro da concepção de Sodré.
A Revolução Brasileira (sempre com maiúsculas) teria como tarefa fundamental a superação da condição “colonial ou dependente” do país. As tarefas fundamentais que ela teria que realizar seriam a nacional e a democrática.
Porém, democrática, aqui, diz respeito não aos aspectos propriamente políticos da democracia, mas às condições econômicas e sociais de sua realização. O latifúndio seria um obstáculo à realização da revolução democrático-burguesa de acordo com o modelo clássico, “americano” ou “democrático”.
No entanto, nota-se um desenvolvimento das forças produtivas. As contradições geradas por aquele desenvolvimento, nos moldes da Declaração de Março de 1958, “refletem-se na composição do poder, quando o Estado é utilizado pelos latifundiários e pela alta burguesia, em parte ligada ao imperialismo.” Há assim, no modelo de Sodré, um espaço para a disputa política.
Aqui se apresenta o papel da democracia na Revolução Brasileira. Aquele espaço deve ser aproveitado para a luta pela democracia porque esta forma de regime político “permite aos grupos explorados expressar sua resistência”, o que “entrava a absorção das categorias médias e inferiores.” Assim, a democracia cumpre um papel econômico ao entravar a absorção das categorias médias e inferiores, possibilitando um desenvolvimento do mercado interno. A questão democrática subordina-se à questão da Revolução Brasileira, “é o caminho apropriado ao seu desenvolvimento”.
Ficam evidentes as aproximações entre Sodré e Caio Prado neste aspecto, indicado por Coutinho, do estagnacionismo e da conseqüente subestimação da questão democrática.
Em função desses aspectos de seu pensamento, Caio Prado não conseguiu realizar um programa político para a revolução brasileira, na medida em que deixou de contemplar uma questão que se vinha impondo pela realidade nacional. Ou, nas palavras de Raimundo Santos: “O historiador paulista [...] aponta para um Ocidente agrário, mas não consegue transcender a própria dissertação até uma teoria do conjunto da formação social, e/ou daí formular uma estratégia política de alcance nacional, como será o caso do revisionismo político do seu partido após 54”
O pensamento de Caio Prado Júnior apresenta elementos de heterodoxia em relação ao de seu partido. Caio Prado ao buscar as especificidades da nossa sociedade questiona a validade da utilização do modelo da revolução democrático-burguesa para se entender a realidade nacional. A partir deste questionamento, abre-se um leque de formulações divergentes, que irão, durante toda sua vida, determinar sua situação de isolamento no PCB.
Ao mesmo tempo, sua valorização das especificidades de nossa realidade é o que possibilitará aquilo que Coutinho considera um alargamento, por Caio Prado Júnior, do conceito marxista de vias não clássicas para o capitalismo, ao aplicar-se à análise do capitalismo colonial numa perspectiva não dualista.
No entanto, pode-se também apontar elementos de convergência entre a obra de Caio Prado e o pensamento pecebista. Particularmente na subestimação dos elementos de modernização das transições brasileiras, que Carlos Nelson Coutinho identificou como raiz das dificuldades de Caio Prado na sua apreciação do tema da democracia, que seria entendida apenas em função de seus pressupostos econômicos e sociais, obscurecida sua dimensão propriamente política. Neste ponto, Caio Prado perderia aquela característica, indicada por Konder, de conjugar as perspectivas do aviador e do nadador.
Nestas debilidades residiria sua dificuldade em formular um programa político adequado ao seu tempo. No entanto, podemos dizer que Caio Prado contribuiu bastante para a compreensão de nossa realidade e dos interesses que deveriam estar representados naquele programa político.

Op. cit. p. 116.
As Categorias de Gramsci e a Realidade Brasileira, in GRAMSCI. Um estudo sobre seu pensamento político. - 9 -, Carlos Nelson (org.). pp. 121/22
Cf. Nota preliminar na edição citada.
El Programa Agrario de la Socialdemocracia en la primera revolución rusa de 1905-1907, especialmente nas pp. 27 a 32.
Coutinho, op. cit. pp. 122/23
Torino, Einaudi, 1949. Para este trabalho foi utilizada a sua versão em português contida nas Obras Escolhidas de Gramsci, da Ed. Martins Fontes.
Op. cit. p. 216
Idem, ibidem
Caio Prado Júnior, Nadador e Aviador. Na época em que esse trabalho foi escrito, esse texto era ainda inédito e me foi gentilmente cedido pelo autor. Ele foi publicado posteriormente, mas não tenho as referências bibliográficas dessa publicação.
Op. cit. p. 1
Idem, Ibidem
Op. cit. p. 52
Idem, pp. 50/1
Obras Escolhidas, p. 216
Formação do Brasil Contemporâneo, p.20
Op. cit. p. 143
Op. cit. p. 143
Op. cit. p. 269
Ibid. Idem
La Situación Internacional y las Tareas de la Internacional Comunista, in VI Congreso de La Internacional Comunista. Informes y discusiones, Segunda Parte, pp. 9 a 47.
Sobre los Países de America Latina, in Op. Cit., pp. 299 a 321.
Dialética do Conhecimento, p. 25.
Op. cit., p. 21, grifos meus.
Apud Coutinho, Carlos Nelson, op. cit., p. 127.
Carlos Nelson Coutinho, Op. cit., p. 130
É interessante notar que Sodré utiliza esta classificação para o Brasil: “colonial ou dependente”. Como se fossem termos equivalentes, define uma economia “colonial ou dependente” como aquela “não se estrutura em bases próprias e nacionais, mas em função de objetivos que lhe são estranhos, os objetivos, nesta fase, do imperialismo.” A Revolução Brasileira, p. 394.

Idem, p. 402.
Idem, p. 403.
O Agrarismo Brasileiro na Interpelação de Caio Prado Jr. , p. 54, in Costa, Luiz Flávio Carvalho e Raimundo Santos (org.) Política e Reforma Agrária.
Neste ponto é relevante a hipótese contida em uma nota de rodapé do trabalho já citado de Santos: ...“É como se a originalidade dos primeiros textos (1933, 1942) se transfigurasse num simétrico economicismo para caracterizar o Brasil urbano-industrial à hora em que o econômico, antes ‘esquecido’, foi reposto no marxismo-leninismo pleno da obra madura.A conjectura seria a de que, sem diversificar o seu marxismo, ele haveria de encontrar grande dificuldade para dar curso a intuições de uma fase inicial.” Op. cit., p. 66, nota 5.

Elias Sanches é historiador
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