Algo A Dizer
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Entrevista Exclusiva: Zuza Homem de Melo

Por Áurea Alves, Fernando Toledo

Para quem tem música nas veias!


O homem elegante que nos recebe, explicou-nos detalhadamente como chegar à residência no interior de São Paulo. Dados a meticulosidade e os detalhes percebemos não só o esmero e a precisão de informação, tão características desse profissional, como também seu afeto pelo lugar, uma agradável residência, para onde se refugia, como que preservando os ouvidos dos sons da cidade, recentemente marcada pelo incessante trabalhar de máquinas em obras da Prefeitura. Para um homem que tem sensibilidade estética na audição, o barulho é uma ameaça assustadora, que o fez trocar as janelas para garantir o silêncio e por decorrência proteger sua refinada audição.
A elegância de que falamos não é sinônimo de afetação ou arrogância, ao contrário, é tradução do refinamento intelectual, dos detalhes simples que valorizam as grandes obras, as quais está acostumado a apreciar. Suas explicações são simples e claras, sem rodeios, apresentadas com a dicção límpida de quem trabalhou no rádio.
Fomos conduzidos à edificação independente, em que não faltam sinais das viagens que fez, desde o livro sobre Van Gogh, a caixa de charutos cubanos ou o tapete com inscrições hospitaleiras em inglês. A porta abria-se para a piscina sob o sol de outubro de 2004. Pássaros cantavam, e contribuíram harmonicamente para a conversa animada e inteligente que resultou nesta entrevista.
Se o nome de Zuza estiver associado a algum projeto, tenha-se a certeza de que haverá boa música, desde astros do Jazz, em festivais eventos anuais, shows com brasileiros no sofisticado restaurante paulistano Baretto, até shows gratuitos com cantores e músicos desconhecidos nos centros escolares da Prefeitura de São Paulo.
Com os senhores, Zuza Homem de Melo, ele tem música nas veias!

ÁUREA ALVES – Zuza, o que o fez abandonar o curso de Engenharia para se dedicar ao estudo da Música?
ZUZA HOMEM DE MELLO
– Bom, eu já gostava de música muito antes de estudar Engenharia. No ginásio eu costumava ir àquelas saletas, no Arquidiocesano (escola tradicional paulista), onde tinha um piano e com 16 anos, ao invés de ir para o recreio ficava lá tocando. No Cientifico, eu comecei a tocar contrabaixo amadoristicamente e depois vim a ser profissional: quando eu comecei na Engenharia eu já era profissional. Esse curso era a seqüência normal dos jovens daquela época, mas a uma certa altura eu achei que não ia mais dar para continuar e aí parei. Então fui estudar Música seriamente, sem deixar o contrabaixo, mas sabendo que o contrabaixo ia ser algo que por ventura desapareceria e a Música continuaria. Conhecer teoricamente, porque embora naquela época eu já tivesse tido aulas de piano desde jovem, e também do que era ensinado de música naquela época, o canto orfeônico. A profundidade só veio nos cursos que eu fiz antes de ir para os Estados Unidos, porque o estudo de piano é um estudo para aprender a executar algo que se lê, ou seja, a transmissão do que se lê para os dedos, em última análise era isso. Não é conhecer Música, conhecer Música é outra coisa, então, que eu fui conhecer mesmo mais tarde, aprendendo como é feita a escala, os modos e tudo mais, enfim, como se desenvolve uma composição e assim por diante.

ÁUREA – Isso aconteceu na década de 50, não é? Em sua formação musical já levava daqui o conhecimento da Música Popular Brasileira em seu apogeu.
ZUZA
Pois é, eu tive a sorte de viver esse período mais brilhante no século XX para a Música Brasileira, ou seja, a minha juventude foi ouvindo no rádio aquilo que as pessoas consideram como sendo o melhor da nossa Música; quer dizer, era aquilo que eu ouvia naturalmente, não era preciso ir atrás daquilo, bastava ligar o rádio que aquilo vinha.

FERNANDO TOLEDO – Você foi aos Estados Unidos, só para continuar os seus estudos sobre música?
ZUZA
– Eu fui especificamente para me aperfeiçoar nos estudos que eu havia iniciado no Brasil, por isso que eu fui para uma grande escola que era a Juilliard School of Music de Nova Iorque e me concentrei na Musicologia, que era o meu objetivo. Eu estudei contrabaixo aqui em São Paulo, e nos Estados Unidos, num curso que eu fiz antes da Juilliard, o meu professor foi o Ray Brown (um dos maiores baixistas da história do Jazz).

FERNANDO – Observo em seus textos – de que gosto muito – que você não trata a Música apenas como historiógrafo, você analisa a canção construída, por exemplo, a partir de um modo menor, explica como se resolve, etc. São raros os críticos que atuam assim, muitos só coletam histórias, outros se limitam às impressões pessoais do tipo gosto ou não gosto.
ZUZA
Na verdade, pra chegar nisso é preciso conhecer a Música, sem conhecimento você não pode identificar o que é o quê dentro de uma partitura, você precisa saber ler uma partitura, você precisa conhecer os acordes e, enfim, conhecer a estrutura, o esqueleto de uma música, como um automóvel: você ouve o automóvel, mas onde está o pistão do automóvel? Não está à vista, você precisa saber como é o motor à explosão, como ele funciona. É mais ou menos a mesma coisa e, naturalmente na imprensa brasileira, uma boa parte daqueles que fazem crítica, começaram como repórteres por serem pessoas que gostavam de música e ouviam muita música, isso não é suficiente, isso é necessário, mas não suficiente.

FERNANDO – Existe algum critério qualitativo objetivo para saber se uma música é boa ou não?
ZUZA
É possível, não exatamente se é boa, mas se ela é rica, se é densa, se é uma música mais profunda. É possível isso, mas é um critério concreto e não subjetivo.

ÁUREA – Você chegou em Nova Iorque numa das melhores fases do jazz, como foi seu envolvimento com esse momento?
ZUZA
– Eu saí daqui um pouco antes da Bossa Nova acontecer, eu saí daqui em 1957. Ainda não tinha sido gravado o disco Canção do amor demais, o long-play da Elizeth (Cardoso). Quando eu retornei o disco já tinha sido lançado e eu já percebia nitidamente a evolução da Música Brasileira, através de novas composições de Tom Jobim, Orfeu da Conceição, a peça musical, já tinha sido lançada e tudo aquilo me dava uma perspectiva nítida do que seguiria a MPB no ano seguinte. Eu cheguei nos Estados Unidos no período áureo não propriamente da música americana, mas do jazz americano. Áureo, porque nessa época conviviam os velhos músicos ainda vivos e os novos, que estavam começando que iriam substituir os velhos, então era possível você assistir músicos que já estavam com mais de 60 anos e jovens que prometiam muito e que estavam com 20 e poucos anos e que depois, efetivamente, se tornariam os novos ídolos, então essa foi uma época privilegiada.

ÁUREA – Mas como você reagiu ao verificar que os elementos de mudança, que você percebeu no Brasil, tinham algum envolvimento com essa situação nos Estados Unidos. Havia uma relação entre o que acontecia lá com que acontecia aqui?
ZUZA
– O que eu percebi é que havia uma ligação com o jazz americano, isso para mim era bem claro, quer dizer, o que me atraía na nova música que se fazia no Brasil também me atraía no que acontecia com o jazz, que é mais ou menos o que provocava o mesmo interesse, despertava o mesmo tipo de emoção e, sobretudo, preenchia as minhas necessidades musicais.

FERNANDO – A obra de Garoto já era bastante divulgada em 1957, quando você viajou, Lamento do morro e Relógio da vovó, eram conhecidas no Brasil e já pronunciavam a Bossa Nova claramente.
ZUZA
– O que se pronunciava não era a Bossa Nova, mas uma grande evolução. Enorme, um passo gigantesco em direção à uma modernidade da Música Popular Brasileira.

ÁUREA – Você percebia elementos de mudança aqui que haviam no jazz, que elementos eram esses que lhe inquietavam?
ZUZA
– Era uma harmonia mais rica, diferente, um caminho harmônico menos previsível, uma melodia com intervalos mais originais, uma interpretação mais limpa dos músicos, enfim, uma evolução, uma sofisticação revelada através do conhecimento musical mais profundo e não de uma superficialidade, que é o que acontece na música atual. Por que a música atual é tão mal-tratada pelas pessoas que gostam de música? Desprezada pelas pessoas, melhor dizendo. Justamente por isso: ela não oferece nenhum atrativo, ela é muito elementar, primária e, evidentemente, uma vez que você chega num ponto de evolução você não pode se satisfazer mais com algo que já foi superado. Como, por exemplo: uma pessoa que vê o jogo do Barcelona e do Real Madri não tem grande interesse em ver um jogo de várzea de uns caras que mal sabem jogar futebol direito; entre um e outro evidentemente vai escolher pelo jogo onde tem grandes jogadores, uma pessoa que apura o seu gosto gastronômico não vai mais se sentir feliz com uma comida mal-preparada, isso é natural e com a música é a mesma coisa

ÁUREA – É interessante: o Marcelo D2 lançou um disco, Á procura da batida perfeita. Mas foi o João Gilberto quem foi em busca da batida perfeita, de fato...
ZUZA
– Esse disco tem batida eletrônica? Então ele está fazendo errado, (risadas). Ele tinha que ter feito o oposto, tem que fugir disso. O rap não é musica, pra começar, o rap não é musica, o rap é uma forma poética com ritmo, mas ela não tem o principal elemento da música que é a nota musical. O rap é flat, o rap não tem uma nota, ele não vai de dó a mi ou sol ou qualquer coisa, eles escolhem uma coisa falada e põe um ritmo naquilo, então não é música!

FERNANDO – Não tem melodia, nem harmonia, tem ritmo e letra.
ZUZA
– Claro. Não é musica, agora se você falar isso para um cara que é um produto do rap ele vai discordar de uma forma violenta: “não, mas a música não precisa de musica”. (enfático) Mas a minha música precisa de Música! O que nós estamos fazendo aqui é conversar, não é cantar, é diferente.

ÁUREA – Sempre há a busca por algo novo, há uma ansiedade, a cada momento, se espera um novo Caetano Veloso, um novo Chico Buarque. Há novas saídas para a música brasileira?
ZUZA
– Existem novos compositores, novos cantores, novas cantoras, isso existe. Agora a mídia não dá muito acesso a nenhum deles, então a impressão que a gente tem é que não existe; é como esses filmes brasileiros que hoje em dia estão sendo comentados com muito mais satisfação e orgulho mesmo dos brasileiros, como os filmes do Eduardo Coutinho e etc. Se fossem exibidos num cinema de caatinga ou lá no interior do Ceará e não viessem para as salas principais do Rio e de São Paulo ninguém saberia que eles existem. Então o que acontece é o problema de visibilidade não é de não existência. Ser um novo Caetano, ou seja quem for, isso não existe, ninguém é um novo Pelé ninguém é um novo Maradona, você pode ser um grande jogador, mas essa idéia de querer ser como alguém é furada, você não pode ser porque o tempo é outro: eu não posso ser você mesmo que eu seja um irmão gêmeo seu, não posso. São entidades diferentes em épocas diferentes, por mais parecido que seja, não é. O filho do Pelé não tinha nada a ver com o Pelé, mas os genes eram os mesmos, não é? Então esse tipo de colocação é furado, por isso que hoje em dia está essa concentração nos filhos dos cantores de outra geração, pra mim isso é furado. Não é porque ele é filho que conta, o que conta é o que ele vier a fazer independente de ser filho ou pai de quem quer que seja, não é isso que conta. Não é a filha da Elis, p’ra mim é uma cantora como qualquer outra. Eu acho que isso tem trazido uma deformação, as pessoas ficam preocupadas em comentar e puxa a lenda, claro! A Maria Rita tem um timbre idêntico ao da mãe, mas não tem nada a ver com a Elis. Apenas uma forma de atacar as notas idêntica, uma postura em palco quase que assombrosa de tão parecida, mas não tem nada a ver: o que ela faz é uma coisa completamente diferente. Inclusive o fato de alguma pessoa adorar a Elis e achar a filha muito ruim; que não é o que aconteceu no inicio. No inicio as pessoas que adoravam a mãe foram vê-la. Havia dois tipos de pessoas: as que conheciam a Elis e as que não conheciam, as que conheciam queriam reencontrar a Elis e as que não conheciam queriam saber como ela tinha sido, não é mesmo? Por isso que ela (Maria Rita) obteve esse êxito enorme sem ser a única grande cantora de hoje. Ao contrário do que foi largamente difundido pela imprensa brasileira, um erro crasso, ela não é a única grande cantora brasileira.

FERNANDO – O que você achou da escolha do repertório do primeiro disco dela?
ZUZA
– Um horror, um horror! o disco é um horror, o show dela é um horror. Eu fui e vi duas vezes o show dela, na estréia do Pallace e aqui em Campinas, um horror, não me deu nenhum tipo de prazer.

ÁUREA – Isso é um fato. As que conheciam a Elis se encantaram com ela, buscando identificar o que a mãe foi, mas se decepcionaram. Ela não é significativa artisticamente.
ZUZA
– Claro! Ela poderá vir a ser, se ela corrigir algumas coisas, ela virá a ser, mas, por enquanto, não. Agora a sombra da Elis atingiu muito forte, nesse tipo de colocação que todo mundo fez, nessa reverencia indiscriminada que foi feita.

FERNANDO – Ela gravou o Marcelo Camelo que é de um grupo de rock que diz que faz samba, você já chegou a ouvir o que ele diz que é samba?
ZUZA
Olha, ele é um compositor de segunda classe em primeiro lugar, então o grupo também. O João Gilberto não se mistura com gente de segunda classe, você não vê o João Gilberto pegar um baterista ruim pra tocar com ele, um musico bom percebe quem é bom pra tocar com ele, então se ele é um compositor e a obra dele mostra que ele é um compositor de segunda classe o grupo todo pode ser considerado da mesma maneira, acho que não existe. A não ser em casos especialíssimos como foi, por exemplo, o caso do Chet Baker que gravou muitas vezes com músicos inferiores por necessidade de dinheiro, é diferente. Mas se você pega um musico que não teve esse tipo de problema... Você pega um Tom Jobim, ele não gravaria com qualquer um, não é mesmo? Existe um discernimento de quem escolhe. A Nana Caymmi não pega um pianista que não saiba modular de dó para sol ou de fá pra si bemol, sei lá o que. Ela o manda embora. Los Hermanos eu acho que tem essa deficiência.

FERNANDO – Eu acho curioso esse auê que se faz em torno do grupo e de grupo de pessoas em volta...
ZUZA
– Isso é por causa da máfia, a mídia é que contam. A mídia cuja opinião não vale nada, ou melhor, vale muito pouco porque o sujeito se deixa influenciar. Ele recebe favores da gravadora, que o leva pra ir assistir um show. Vamos supor, você é um jornalista, aí vem uma gravadora e fala: Fernando, eu quero muito que você vá assistir um show de uma cantora em Londres, que é a ultima palavra em matéria de jazz, que é fantástica, ‘tá aqui a passagem, as diárias de hotel e tudo mais. Você vai escrever que a cantora não é boa? Já te comprou! Quer dizer, é esse o procedimento. Ou o sujeito aceita e diz: olha, eu vou fazer o meu julgamento, o fato de você estar dando passagem não quer dizer que eu vá aceitar o seu julgamento ou então ele recusa ou, numa terceira ele topa tudo, que é o que a maioria faz.

FERNANDO – O que vejo muito, nessa área é o pessoal apanhador de press-release e só transcrevem.
ZUZA
– Claro que o release vai dizer isso, eles não vão dizer que a cantora é ruim! Lógico, o release faz o papel de um vendedor. Um vendedor de enceradeira não vai dizer que a enceradeira não funciona. Um crítico musical deveria testar a enceradeira, pelo menos.

ÁUREA – Há a perda do anseio investigativo, da pesquisa.
ZUZA
– É claro que existem exceções, não é totalmente perdido, existem exceções, mas a maioria é tão grande que a impressão geral é que não existe mais, que acabou secando a planta.

FERNANDO – É o discurso do senso comum.
ZUZA
– Exatamente. Há pessoas que esbravejam e tal, mas a gente sente que há uma certa condescendência e eu não vi nenhum critico falar da Maria Rita numa posição como a que eu tenho, em lugar nenhum do Brasil e eu acho ela uma pessoa formidável. A conheço desde de bebê, eu vi a Maria Rita praticamente mamar e acho que ela é uma pessoa muito bem intencionada e vem de duas linhas genéticas maravilhosas na música, mas ela foi envolvida pela gravadora visivelmente. E isso para mim ficou patente e é tão claro que a prova disso é que ela não gravou nenhuma música do Chico Pinheiro, que foi quem começou a trazê-la para o palco, quer dizer por que? Ela não brigou com ele. O que aconteceu que mudou? Alguma coisa fez ela mudar, só pode ser a gravadora.

ÁUREA – É a proposta: vamos lançar um novo produto para o mercado.
ZUZA
A gravadora conseguiu atender ao objetivo dela, transformá-la numa grande estrela da música brasileira aos olhos de uma grande parcela de pessoas. Os shows dela são muito procurados, o cachê dela aumentou, multiplicou por umas 100 vezes talvez. Agora, a gravadora não faz a carreira musical dela. Quem faz a carreira musical é ela, carreira propriamente quem dirige a carreira é ela. Você vê como a Maria Bethânia assume, bate de frente e não se deixa levar. Você pode discordar que a Maria Bethânia seja uma grande cantora, admito isso, mas ela não se deixa levar pela gravadora...

FERNANDO – Esse último disco dela é uma pérola: Brasileirinho.
ZUZA
– Claro ela faz o que ela quer. É questão de comportamento.

FERNANDO – Grandes cantores, grandes interpretes do Brasil que são tecnicamente muito bons que se perdem por causa de produtor como, por exemplo, a Alcione que é uma grande cantora, mas o repertório dela, é um lixo.
ZUZA
Porque a gravadora quer vender, a obrigação da gravadora é vender então ela tenta manobrar como um produto rentável. Um produto instigante e revolucionário é mais difícil de vender, isso é lógico, é natural, é a lei do mercado.

ÁUREA – Mas quando você faz a afirmação que você está explicando o João Gilberto e todo o processo de criação, como ele chegou no tempo da Bossa Nova, você se preocupou na verdade em passar para um publico leigo que não conhecia uma evolução da música brasileira. Eu queria que você falasse também sobre esse processo, sobre a Bossa Nova, essa evolução é o que ela modificou de fato?
ZUZA
Bom, o que diferencia toda aquela evolução que vinha acontecendo na música brasileira até a época do surgimento do João Gilberto, o que diferencia esse período do surgimento do João Gilberto pra frente, ou seja, antes e depois do João Gilberto no limite é a batida rítmica do João Gilberto. Ou seja, tudo aquilo que vinha sendo o Joãozinho boa pinta que você citou ou a música do Johnny Alf, não tinham essa batida. A batida, que é o diferencial, é a batida que introduzida por uma nova acentuação rítmica que é baseada no tamborim que é a semicolcheia no tamborim, ele acentua diferente e isso é que trás uma nova maneira de se ouvir o samba que acabou então sendo rotulado de Bossa Nova, aquilo que acabou sendo rotulado de Bossa Nova seguindo essa forma de acentuação do samba e isso foi tão revolucionário que foi aceito pelo mundo inteiro e teve um efeito muito importante porque padronizou o que não era padronizado, por esse motivo é que aquilo pode ser aprendido e executado por musico de qualquer lugar do mundo.

ÁUREA – Padronizou a interpretação do Samba.
ZUZA
– Padronizou a batida, ela estabeleceu um conceito.

FERNANDO – O violão do samba, antes do João, era um instrumento praticamente de solistas, tinha muita função horizontal, baixaria e acordes simples. O João Gilberto verticaliza.
ZUZA
Claro, eu não entrei na área harmônica, eu me concentrei na área rítmica, a área rítmica que é o diferencial, todo o resto são coisas que foram efetuadas efetivamente mas o principal é a área rítmica, é a área rítmica que é o diferencial, o antes e o depois, o limite ai é a divisão

FERNANDO – Mas também não tem a batida do surdo?
ZUZA
– Tem, mas o surdo que é o tempo forte ele releva um pouco, releva não, ele desacentua, vamos dizer, ele concentrou o relevo nos tempos fracos deu um suíngue que não existia antes, ele priorizou outros tempos.

FERNANDO – Uma inversão de valores.
ZUZA
– De uma certa forma é. Ele priorizou certos tempos.

FERNANDO – O Luis Tatit diz que o João desmonta a música, a canção, para encontrar a canção que está escondida na canção ele tira um monte de elementos da música para mostrar a essência que estava na canção, não sei se é uma boa definição.
ZUZA
– Eu acho ótima, é verdade, ele faz isso, inclusive, você vê, algumas vezes ele retira algumas interjeições ou algumas notas que são por exemplo a Lígia, na música ele não fala Lígia (o refrão), é o titulo da música e ele não diz, ele dispensa, ele não canta é um exemplo disso que você citou.

FERNANDO – Eu acho muito engraçado quando ouvi, pela primeira vez, o João Gilberto cantar Ave Maria no morro, pensei: como é que ele vai fazer isso? Ele não fez e simplesmente ele continua tocando violão e ele esquece a voz, pula o refrão e fica no violão e a solução foi engraçadissima, genial.
ZUZA
– Então estamos de acordo.

ÁUREA – É possível identificar algumas tendências, mudanças em relação à musica brasileira?
ZUZA
– Isso depende de alguém, de uma aparição, de alguém que seja capaz de fazer como foi com o João Gilberto. Se fosse feita essa mesma pergunta pra mim no ano de 1952, como é que eu iria poder responder pra você? Eu responderia da mesma maneira que agora e, no entanto, um pouco depois aconteceu o João Gilberto, é imprevisível, é uma coisa impossível da gente poder imaginar. O que é importante é poder detectar isso quando acontece, isso sim, a pessoa que está alheia a isso mostra pouca receptividade pouca abertura para o novo e para o que é bom.

Áurea Alves é jornalista e edita o blog UNBUBBLE http://unbubblebr.wordpress.com e em inglês http://unbubble.wordpress.com (dedicado a divulgação de trabalhos pouco ou desconhecidos).
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Comentários
  Vânia Coelho
20/07/2015

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