Algo A Dizer
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Enfim, um ensaio para o fotografista Manoel

Poeta mato-grossense tem uma de suas obras descortinada pelos olhos vidrados de um professor autor

Por Gustavo Dumas

Quando, aparentemente na defensiva, Brás Cubas abre suas memórias com a auto-sentença de que o romance sobre a sua vida (e morte) teria por destino restar “privado da estima dos graves e do amor dos frívolos”, está, na verdade, cutucando o leitor a se interpor numa espécie de entrelugar, para um ir além. Machado de Assis, que de defunto não tinha nada, era um autor ocupado, naquele momento, em promover um salto que os enciclopedistas da literatura brasileira classificam como a transição do período romântico para o realista. Mais que isso, Machado instituía um narrador-personagem farsesco, a operar sempre nos limites entre a galhofa e a melancolia. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” consiste, nesse sentido, em um romance de provocação ao leitor preguiçoso, que é convocado a superar os limites tanto do que reconhece como sério, canônico quanto do que considera cômico, banal.
O escritor Manoel de Barros acostumou-se tarde com o reconhecimento pelo seu trabalho – e destrabalho, para já brincar segundo o jogo ôntico-ontológico manoelino. Ao vigor de sua criação literária e à consistência da gramática artística que sua poesia projeta, a crítica optou por responder, durante muito tempo, com o silêncio (logo o silêncio, ô ironia!), quiçá ocupada em retroalimentar uma oposição infantil entre seus contemporâneos mais incensados, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, com ligeira vantagem para o primeiro, no meio acadêmico, e para o segundo, entre a chamada “opinião pública”. Tal oposição se funda no dualismo entre “escolas”: uma, ocupada pelos escritores em tese mais dedicados à forma; outra, pelos escritores em tese mais preocupados com o conteúdo. A briga é antiga e causa estragos a grandes escritores – Oswald de Andrade até hoje é acusado de não ter pensado um projeto de país (?!), ao contrário de Mário, a quem acusam de idealismo (?!). A crítica literária é, pois, ainda que vista disfarces, maniqueísta; e ousou impor juízos de valor, para além da bestial rixa criada entre “conteudistas” e “linguageiros”, de uma linha sobre outra, dependendo do viés de quem fala (ou dizem que fala) por uma e por outra, em dado momento histórico. O que fazer, então, senão calar, diante de um poeta como Manoel de Barros, que se debruça sobre a forma sem apelar para um formalismo sisudo e autocentrado e cujo conteúdo nega-se persistentemente a elaborar discursos ou panfletos para as supostas grandes causas do mundo?
Todavia, no presente Manoel de Barros não é vítima nem algoz, centro ou margem deste sistema literário fratricida e neurastênico. Manoel de Barros encontra-se dentro; é, por si, a contradição do sistema. Seu próprio sistema (obra) incumbe-se de inseri-lo em um sistema (a literatura), cujos valores, assim como os de outros territórios do mundo objetivo, ele cuida de nadificar – invertendo posições e também se contradizendo, ao ali manter-se atuando.
Tudo que foi dito serve para introduzir resenha acerca de um gesto de audácia que é a escrevinhadura e posterior publicação do livro “Fotogramas do imaginário: Manoel de Barros” (Vento Leste, 2007), pelo professor autor Igor Rossini. Este já parte de uma condição interessantemente híbrida: um pé sobre os chãos pegadiços da academia; outro sob o teto largo da literatura. O livro é francamente um elogio à estética conteudística manoelina; difere de possíveis outros pelo modo como está redigido, em forma de ensaios não convencionais, talvez à imagem do livro que se detém a examinar com acurácia: os “Ensaios fotográficos” (Record, 2000) do poeta mato-grossense. Rossini se posta a defender o caráter transgressivo do “universo-outro” engendrado pela poética de Manoel de Barros, fotografando dinamicamente os momentos em que o poeta toma para si a tarefa de deslocar sentidos desencantados, efetuando novas aferições para um real inaceito.
O delicado recorte promovido pelo ensaísta permite elucidar como Manoel de Barros elege a palavra como base para um desvirtuamento do habitual, em favorecimento, sempre, de um certo gosto por vigências perdidas ou imprevistas ou ainda não realçadas. Para Manoel (e para Rossini), ao percurso do poema tudo aflui, como num rio; o rio que é esse poema de tudo se entranha para seguir seu curso, embora muito se perca no decorrer de seu fluxo. Compõe-se, a partir da água primeira, uma “geografia-outra” que absorveu a “geografia-mesma”, refundando a paisagem segundo o filtro do poeta que tece o rio-texto. É caso em que a manifestação põe-se antes, em importância, ao manifesto. Com isso, “Tempo e espaço perdem sentido originário [= estatuído]. As coisas ganham corpo e alma, potencializadas para veicularem estranhamentos” (p. 52-53, grifo meu).
Na poética manoelina, ocorre uma “desrealização da ordem”, que os olhos vidrados do professor autor captam com argúcia. Parafraseando um dos ensaios de Rossini, a realidade está para ser inaceita, não pelo que é, mas pelo estado em que se apresenta. Não se trata, pois, de uma fuga à materialidade das coisas. Nesse ponto, vale destacar o caráter farsesco do poeta-narrador manoelino: a realidade é negada não pelo que ela seja, mas pelo que fizeram dela; e para um encetamento de um trajeto de retorno, revoltando sobre um mesmo dado ponto, em que “rostos e restos fazem sentido e encontram-se no universo interior do próprio homem” (p. 61).
Nesta simbiose texto/rio, o feito poético e a foto redimensionada servem a uma desarticulação do plano imagético da linguagem. E não seria a imagem autonomizada, hoje, o sustentáculo sígnico dos discursos hegemônicos de poder? Como se vê, conteúdo e forma não se prescindem, na construção da ótica manoelina, num “encaixe silente entre o dizer e o como dizer” (p. 141). Há um privilégio do imprestável, contra o produtivo. Vale mais o doido que o engenheiro, a borboleta que a máquina, num ciclo retórico de “desmontagem/desestabilização da própria ordem do pensar racional, lógico, cartesiano” (p. 76). A constante interpenetração de categorias semânticas contrárias ou diversas rebaixa o código estatuído – não seria esta uma operação de quebra da unidade basilar do status quo expressivo de uma época?
Tem-se, pois, com Manoel, uma tentativa de reorientação lógica que se vale de tema e forma para estabelecer um marco na literatura brasileira, como o foram Machado, Oswald e Mário, em suas épocas. Igor Rossoni demonstra, com seu “Fotogramas do imaginário: Manoel de Barros”, que ler Manoel de Barros implica questionar o modus operandi da modernidade e o seu viés utilitarista, quer de esquerda, quer de direita, e importa reaver subjetividades, via inutensílios como a poesia.

Arquiteto, escritor e doutor em Literatura Brasileira, Igor Rossini é professor do curso de letras da Universidade da Bahia. Além de ser. Entre suas publicações estão: Pátio (1981), Vértebra (1983) e Zen e a poética auto-reflexividade Clarice Lispector: uma literatura de vida e como vida (2002).

Gustavo Dumas é escritor e revisor. Publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, os livros de poesias "A Perspectiva do Quase" (Arte Paubrasil, 2008) e "Idade do Zero" (Escrituras, 2005).
Contato:zehgustavo@yahoo.com.br
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