Algo A Dizer
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Onde bate o coração da música

Por Áurea Alves

A História, reconhece-se cada vez mais, é aquela contada por seus agentes. Pelas pessoas que participaram e efetivamente viveram o momento histórico, contribuindo com sua visão pessoal para registrar fatos importantes para a humanidade. O exercício da pesquisa e da crítica continua válido, mas carecem do testemunho daqueles que passaram pelo processo, seja para ratificar o resultado do estudo metódico e acadêmico, ou para fundamentá-lo em suas percepções críticas.
Um livro de memórias é um exemplo da contribuição individual a um determinado período. Traduz uma existência, com informações havidas de uma história pessoal que registram direta ou indiretamente o momento de uma determinada sociedade. De qualquer modo, torna-se um registro válido de fatos e, especialmente, do papel que o autor desenvolveu em seu tempo.
É assim que se deve receber a contribuição de Zuza Homem de Mello que traz às livrarias suas memórias, construídas de um modo diferente do convencional, por dois motivos fundamentais: o primeiro é que Zuza vivenciou os melhores momentos da Música Popular Brasileira e da música norte-americana especialmente do Jazz.
Nascido em 1933, cresceu em contato, pelo rádio e discos, com a primeira grande fase de nossa música e, ao optar pela formação de músico, foi estudar nos Estados Unidos, no final da década de 1950, retornando ao Brasil, em plena efervescência da Bossa-Nova. Trabalhou como operador de som na principal emissora de televisão de então, a TV Record, que já se preparava para abrigar o maior elenco de cantores e compositores, numa transposição para a televisão daquilo que a Rádio Nacional fazia e que culminou com a edição dos grandes Festivais da Música Popular Brasileira. Escreveu obras indispensáveis a estudiosos: Música Popular Brasileira cantada e contada (Melhoramentos, 1976), A canção no tempo (dois volumes em co-autoria com Jairo Severiano, Editora 34, 1997 e 1998), João Gilberto (Publifolha, 2001) e A era dos festivais (Editora 34, 2003). Este a frente de grandes eventos de Música Popular Brasileira e produziu o Free Jazz Festival, hoje sucedido pelo Tim Festival.
Zuza, em seu trabalho, sempre foi a pessoa certa no lugar certo, pode-se dizer, e sua vivência chega às livrarias através do livro Música nas veias – Memórias e ensaios – Editora 34, que é, em síntese, a percepção sob a ótica do musicólogo dessa época, evocando memórias e estudos pessoais.
Era de se esperar que um homem de 74 anos relatasse suas memórias, reportando-se a fatos pessoais, ilustrando com músicas, compositores e cantores que marcaram sua vida, com precisão de dados, mas dentro da percepção simples e eventual. Como a banalidade não é característica do autor, o livro envolve o leitor, agregando informações que enriquecem o conhecimento deste, sem que perceba. Nestas páginas descortinam-se impressões do cotidiano de um jovem na década de 1950 pontuadas por fatos relevantes da música, sob o olhar do homem, com a percepção do musicólogo.
Assim é que o leitor travará contato com a iniciação musical do autor, apreendendo a importância do instrumento que ele escolheu (o contrabaixo) seja teoricamente, seja materialmente, definindo o instrumento como o coração da música. Em seus estudos nos Estados Unidos teve a oportunidade de conviver com grandes nomes do Jazz, como seu professor Ray Brown, e pode assistir grandes apresentações, detalhada e qualificadamente relatadas em capítulos como O coração da Música e An Impression of Jazz in New York.
No que diz respeito à música brasileira, apresenta o excelente ensaio sobre a gênese e a evolução das orquestras de baile no Brasil e sua evolução, identificando os grandes músicos e maestros brasileiros do século XX. Acrescenta um capítulo sobre Jacob do Bandolim. Poucos relatos pessoais podem ser tão significativos, como a impressionante troca de cartas entre o genial músico e compositor e seu amigo, o cantor paulista Alberto Rossi. Não há uma menção ao momento pessoal de Zuza, no entanto, há um desenho claro do cenário musical da época (1943 a 1959) a partir das apreensões de Jacob, grande músico brasileiro que se preocupava com um ostracismo a poderia ser relegado, face às preferências populares, bem como seus próprios dramas de vida.
Sugere e enumera as vozes que marcaram seu interesse pelo rádio e aquelas que embalaram os sonhos e desejos juvenis, como as de Julie London e Peggy Lee, suscitando desejos a ponto de as capas de discos serem mais cobiçadas do que seu conteúdo. Não há um relato sobre qualquer namorico do autor, no entanto, o capítulo faz uma elegante análise desse tempo, enumerando as vozes e corpos favoritos dos rapazes de então.
Com a mesma elegância relata as agruras para contratar astros do show-bizz, como Sammy Davis Jr., Louis Armstrong e Nat King Cole, dentre outros, para shows antológicos em São Paulo. Esses shows eram televisionados e seus registros estão perdidos, cabendo a esses relatos a reconstituição de momentos antológicos no palco e nos bastidores, como o ato estabanado de um repórter que atingiu, com o microfone, os lábios de Louis Armstrong em sua chegada ao Brasil, acidente que quase inviabilizou a apresentação do gênio do Jazz.
Embora o livro, sabe-se, não esgote todas as histórias a que Zuza teve acesso ou que tenha vivenciado, cumpre o importante papel de ser mais uma obra indispensável, para quem vive, estuda e, essencialmente, como o autor, tem música nas veias.

Música nas veias – Memórias e ensaios
Zuza Homem de Mello
Editora 34 – 350 p. – ISBN 978-85-7326-382-4
16 X 23 cm – R$ 46,00

Áurea Alves é jornalista e edita o blog UNBUBBLE http://unbubblebr.wordpress.com e em inglês http://unbubble.wordpress.com (dedicado a divulgação de trabalhos pouco ou desconhecidos).
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