Algo A Dizer
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A lembrança de Fernando Toledo e Newton Cavalcante

Por Zeh Gustavo

Em agosto de 2005, a literatura, o jornalismo, os bares e a crítica cultural sem firulas perdiam um de seus mais dedicados criadores: após um acidente estúpido e uma rápida e inglória luta contra um fado inevitável, morria no Rio o escritor Fernando Toledo. Cerca de um ano depois, também nos deixava saudosos a arte expressionista e o humor picaresco do pintor Newton Cavalcante. O curioso é que, até quatro meses antes da morte de Fernando, ambos dividiam apartamento na Lapa. Esta união, sem par, de dois artistas de temperamento ímpar em nossa cultura rendeu dezenas de boas histórias, que os amigos que ambos tinham em comum não se cansam de lembrar. Algo a Dizer homenageia esses dois bravos e queridos camaradas, publicando nesta edição um poema inédito do escritor Zeh Gustavo.

FERNANDO TOLEDO E NEWTON CAVALCANTE

I
Fiz uma conta e descobri:
O novo só é gestado nu e descabelado.
O novo típico gosta a audições entredentes.
E gosta também a limbo, a gota, a chão.

Por sua vez, mudo que é mudo não cala:
toca instrumentos inexistidos
ou parcamente freqüentados.
Mudo sabe bem a alma do mar
quando barco faz calo em onda.

II
O pintador Newton Cavalcante
gargalhava trôpego e sincero
perante seus três conhaques
que não findavam, enchidos de si.
Já o escrevista Fernando Toledo encerrava
a noite trafegando idéias para
copos sorridos roucos.
Lembro que havia uma alegria
de fumaça torta no comigo daquele tempo.
E o bar ganhava uma aura!
As pessoas caíam e o sol nem sequermente
ameaçava proximação.

Eram filhos um do outro.
Certa vez Newton amostrou ao Fernando
um samba surreal que ele tintalhara
pra modo de homenageá-lo.
Toledo, birrento, detestou o cheiro da instalação
e escorregou impropérios àquela poesia aquosa e musga,
espalhada pelos ares do chão
no teto que dividiam.
Depois se deitou no lavabo e dormiu.

III
Há um luto que luta, apesar.
Uma briga que abriga.
(Os lugares são todos comuns, mesmo.)
A vida se esfrega no soturno
e segue, contorcida,
ausência adentro.

E eis que já passa um cado de tempo cedo que
Fernando Toledo e Newton Cavalcante
se escaparam.
Moda: fabricar caixinhas de fósforo
de marcar vidências.
Jeito: chamegar fogo-som,
desentralhar chama-imagem.
Deve de ter sido isso o mote
da retirice desavisada, suponho eu
aqui do meu lado vazio.

Antes, porém, aqueles ambos plantaram
um recado na porta dos cacos
à esquerda de quem fica, entre os assoalhos:
Casa sem poeira não fica de pé.

Zeh Gustavo, músico e escritor, é autor, entre outros, de Pedagogia do suprimido (Autografia, 2015, 142p.). Em 2014 seu livro Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (inédito) venceu o Prêmio Lima Barreto da Academia Carioca de Letras

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