Algo A Dizer
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Alguma Idéias Filosóficas em Às Avessas

Por Marcelo Barbosa da Silva

Um dos manifestos da escola decadentista, o romance Às Avessas (À Rebours) de J-K Huysmans, teve recepção acidentada no seu lançamento em 1884. Segundo o próprio autor, no curioso Prefácio Escrito Vinte Anos Depois do Romance, a obra suscitou “estupor” e “cólera” no meio literário (pág.258). O escândalo tinha origem, em boa parte, na temática escolhida: as sucessivas experiências estéticas de um aristocrata parisiense, ao mesmo tempo anticlerical e cristão, impotente e sexualmente obsessivo, que se refugia num casarão afastado da metrópole e progressivamente sucumbe à própria neurose. Além do enredo provocativo, o livro ainda acumulava toda sorte de transgressões formais em boa parte rechaçadas pela crítica de então, em sua maioria incapaz de refletir sobre a principal virtude do livro: a experimentação de caminhos capaz de renovar as técnicas ficcionais para além do cânone naturalista e antecipar, em muitos sentidos, recursos de composição romanesca adotados pela vanguarda do século XX.
Porém, não menos escandalosas que as liberdades da expressão literária tomadas com o gênero da prosa romanesca pelo autor J-K Huiysmans ou a falta de reservas às atitudes morais do protagonista são, na verdade, as idéias filosóficas, principalmente no que se refere à estética, formuladas ao longo das páginas de Às Avessas. Essas seguem o padrão transgressivo que atravessa toda a obra. Boa parte de tais concepções, porém, antes de merecer censura, deveriam ser alvo de reflexão por configurarem, para bem ou para mal, um conjunto de preceitos que influenciaram ou e ainda influenciam, talvez de maneira crescente, várias regiões da vida contemporânea. O maior e mais duradouro escândalo talvez resida aí.

Conceitos Invertidos
Antes, porém, de tratar desse acervo de representações mentais disseminadas em Às Avessas, é necessário adotar a seguinte cautela: na medida em que uma obra de ficção não é um compêndio de filosofia e como tal não tem compromisso com qualquer representação apodítica das idéias; a atitude adotada neste estudo só poderá ser a de interpretar o texto levando em conta todas as sinuosidades, ironias, contradições, recursos de linguagem, obscuridades intencionais que a matéria ficcional propicia. Isto é, antes de pinçar do romance, sem qualquer tipo de mediação, os conceitos com os quais se pretende dialogar neste trabalho; será indagada a sua funcionalidade dentro da obra e não fora dela. Tal recomendação é pelo filósofo tcheco Karel Kosic ao tratar das relações entre consciência e realidade quando subsumidas na moldura do fenômeno estético:
“toda obra de arte apresenta um duplo caráter em indissolúvel unidade: é expressão da realidade, mas ao mesmo tempo cria a realidade, uma realidade que não existe fora da obra ou antes da obra, mas precisamente apenas na obra.
No caso particular de Às Avessas essas precauções têm uma razão simples: na maioria dos casos, as idéias reproduzidas no texto são fruto do paradoxo, ou seja, de forma coerente com o título do romance, costumam sempre significar o contrário do pensamento que as originou num procedimento próximo da paródia. Exemplo deste tipo de manifestação tem lugar no capítulo VI, quando o protagonista profere a frase abaixo, numa inversão de uma das máximas capitais do cristianismo: “Faz aos outros o que não queres que eles te façam.”(pág. 103)

Solipcismo
Numa fórmula de extraordinária concisão e síntese, Carlinda Pate Nuñez inventariou os elementos os quais J-K Huysmans suprimiu de Às Avessas para deslocar definitivamente a obra da trajetória do romance até então ideado pelos ficcionistas:
“À Rebours (1884) de Huysmans, pode ser apontado como o ponto culminante de uma nova representação do gênero romanesco , ou o texto em que a chamada crise de representação se expressa, na narrativa oitocentista, de forma aguda, incontroversa e irreversível. Dito por outras palavras, o romance de Huysmans renuncia a uma visão tradicional de mímesis e a procedimentos narrativos consagrados pela tradição romântico-realista (mormente à preponderância da trama, ao centramento num protagonista âncora que alinhava enredos paralelos à ação central e a personagens secundárias, bem como à predominância da narração sobre a descrição).” (grifo nosso) (página 1)
Como se pode depreender da leitura do parágrafo acima, foram muitas as audácias de linguagem que tiveram livre curso nos processos de composição de Às Avessas.
Talvez fosse produtivo especular se, entre outras finalidades, essas transgressões das convenções ficcionais não serviram para proporcionar um perfeito ajuste entre as concepções de mundo atribuídas ao personagem des Esseintes e o discurso filosófico subjacente a todo texto do romance que se acha saturado de imagens que remetem invariavelmente ao isolamento do protagonista e a sua procura angustiante por novas experiências, principalmente as de caráter sensorial. Elementos esses que numa chave naturalista apenas poderiam sublinhar, de uma maneira pobre e unidimensional, a psicologia doentia de Des Esseintes.
Isolamento e experiência são, na verdade, categorias centrais na tessitura narrativa de À Rebours. Não à toa, já na Notícia que funciona como uma espécie de prólogo já se vê anunciada a intenção de insulamento:
“A essa altura, já sonhava com uma refinada tebaida, num deserto confortável, com uma arcada imóvel e tépida onde se refugiaria, longe do incessante dilúvio da parvoíce humana.”(pág. 37)
Essa tebaida, esse retiro, essa solidão, esse ermo tem uma função muito precisa na construção daquilo que José Paulo Paes chama de “fio fabular”(pág. 17) do romance pois é isso que assegura a existência de um mundo à parte em que apenas contam “as sensações do esteta misantropo” que o habita e seleciona com “fanática meticulosidade os móveis, os estofos, os tapetes, os tapetes, os perfumes, os livros e os licores capazes de satisfazer a sua hiperestesia” (pág. 16).
Nesse sentido, é através do termo solipcismo (pág. 17) que José Paulo Paes, mais uma vez, designa o tipo de alheamento da realidade cotidiana preconizado por des Esseintes, que segundo os especialistas na matéria vem a ser:
(...)“a crença de que, além de nós, só existem nossas experiências. O solipcismo é a conseqüência extrema de se acreditar que o conhecimento deve estar fundado em estados de experiência anteriores e pessoais, e de não conseguir encontrar uma ponte pela qual esses estados nos dêem a conhecer alguma coisa que esteja além deles.”(pág.367)
Mas o que se pode lucrar sob o ponto de vista da investigação teórica com o empréstimo do conceito acima?
É o que será visto, de maneira evidentemente não conclusiva no tópico que segue.

Schopenhauer
Num livro marcado pela enxurrada constante de citações, paródias e acréscimos entre outros recursos textuais, há duas presenças a todo tempo próximas da inspiração e da verve intelectual de protagonista. De um lado a figura incontornável de Charles Baudelaire, com a sua influência da qual a própria história da poesia moderna já se encarregou de reconhecer – este último ídolo inconteste des Esseintes (e presumivelmente de J-K Huysmans), em suma, o modelo literário por excelência. Mas quem poderia reivindicar o papel de êmulo de Baudelaire nas inclinações filosóficas que pontuam o recepção de idéias em À Rebours.? Essa pergunta não pode ser respondida cabalmente. No entanto, a aposta em Arthur Schopenhauer não poderia ser encarada como disparate. De fato, apesar de menos solar, menos exuberante, a referência ao autor de O Mundo Como Vontade e Representação, nas páginas do romance, é bastante consistente. É esta remissão inclusive que permite fazer uma ponte entre o pessimismo e a desilusão do protagonista com a necessidade de manter, de certa forma, alguma ligação com a religiosidade. É, aliás, o que se retira, entre outros achados, da leitura do trecho que segue de Às Avessas.
(...)” Schopenhauer era mais exato; sua doutrina e da Igreja partiam ambas de um ponto de vista comum; ele também se baseava na iniqüidade na torpeza do mundo, com A Imitação de Cristo, esta dolorosa queixa:”É verdadeiramente uma desgraça viver sobre aTerra!”Também pregava o nada na existência, as vantagens da solidão, advertia a humanidade de que, o que quer que fizesse, para onde se voltasse, continuaria desgraçada: pobre, por causa dos sofrimentos nascidos das provações; rica, em razão do invencível tédio engendrado da abundância; entretanto não vos embalava, para remediar males inevitáveis, com nenhum engodo.” (grifo nosso) (pág.115)
O grifo acima permite recuperar a questão posta no final do tópico anterior a respeito do caráter solipsista do mundo ficcional concebido no livro e que unifica as percepções do personagem central, do narrador e, possivelmente, permite também a identificação de marcas autorais propositadamente espalhadas ao longo do texto, na forma de freqüentes descrições que se sobrepõe, quando não substituem, a narrativa. Ou seja, permite supor que a hiperestesia de des Esseintes se inicia na sua rejeição ao mundo e se patenteia no seu alheamento e niilismo, cujos fundamentos teóricos foi buscar na prosa do pessimista de Dantzig.
Há outro item, da mesma forma, no qual provavelmente des Esseintes vai buscar inspiração a partir dos escritos de Schopenhauer: o apostolado das artes. A esse respeito, o trecho da resenha abaixo, escrita por Rubens Torres Filho, serve de esclarecimento:
“Mas apesar de todo seu profundo pessimismo, a filosofia de Schopenhauer aponta algumas vias para a suspensão da dor. Num primeiro momento, o caminho para a supressão da dor encontra-se na contemplação artística. A contemplação desinteressada das idéias seria um ato de intuição artística e permitiria a contemplação da vontade em si mesma” (pág. 612)
A leitura acima autoriza pensar que uma vez equiparadas a arte e religião, a busca do êxtase estético legitima a maratona em busca da experiência encetada pelo protagonista.

Trajetórias Paralelas
São apenas quatro anos de diferença entre o escritor J-K Huysmans e o filósofo Friedrich W. Nietzsche. O primeiro nasceu em Paris, a 5 de fevereiro de 1848; o segundo, em Leipzg, a 15 de outubro de 1844. Pertencem, portanto, os dois a mesma geração que cresceu perto demais do trauma do esmagamento das jornadas libertárias de 1848, na Europa e muito longe ainda da transformação do socialismo em movimento de massas. Em comum entre ambos, a ojeriza ao filisteísmo burguês e o gosto pela obra de Schopenhauer (que na sua maturidade, Nietzsche fez questão de renegar).
Influência de Nietzsche em Às Avessas? Provavelmente nenhuma. Com seu gosto pela citação, pelo bricolage metalinguístico, o autor francês, caso conhecesse e/ou se interessasse pela obra do pensador que escreveu o Humano, Demasiado Humano, certamente a teria incluído entre o arsenal de remissões que povoam o seu livro. Mesmo assim, chega a ser desconcertante a simetria de interesses concretos entre os dois. A consigna grafada em A Origem da Tragédia pela qual “só como fenômeno estético que a existência e o mundo estão eternamente justificados” (pág. 189) poderia ter saído da boca de des Esseintes. Por ilusório que possa parecer , às vezes, ao ler o texto do romance fica a impressão de que Schopenhauer está para a religiosidade do personagem central assim como Nietzsche para a ética.
E que ética é essa, com efeito? A do rematado estetizador. Tal e qual Eagleton se refere nesta passagem:
“Após Fichte e Schelling, Nietzsche é o exemplo mais exuberante de um completo estetizador, reduzindo tudo – a verdade, o conhecimento, a ética, a realidade mesma – a uma espécie de artefato. (...) Os termos éticos de interesse são nobre e vil em vez de bem e mal, questões de estilo e de gosto mais que juízo moral. O viver correto é uma questão de consistência artística, cinzelando a própria existência num estilo austeramente unificado.” (p.189)
Como se seguisse o manual de conduta de um discípulo do filósofo alemão, des Esseintes transforma toda a sua volta em artefato, tudo deve ser estetizado de forma progressiva numa atitude sem retorno, o refinamento dos sentidos atingindo a culminância dos prazeres nunca experimentados:
“Ah! era ele próprio que falava essa voz tão misteriosa quanto uma encantação; era ele que narrava sua febre do desconhecido, seu ideal insatisfeito, sua necessidade de escapar à horrível realidade da existência, de franquear os confins do pensamento, de tatear, sem jamais chegar a uma certeza, as brumas dos aléns da arte!”(...) (p.139)
Essa ânsia de estesia, portanto, no grau assinalado no trecho acima, expressa a enorme confluência entre o pensamento de Huysman e Nietzsche, ambos assombrados pelo mesmo fantasma da expansão da experiência estética. É, todavia, necessário ressalvar que os dois pensamentos também se afastam em dois pontos sensíveis: a doutrina ética de Nietzsche se constrói dentro de uma chave ostensivamente anti-religiosa, no geral, e guardando, em particular, uma forte oposição ao cristianismo e a Igreja Católica. Por outro lado, poucas coisas podem estar mais longe dos interesses do autor de Assim Falava Zaratustra que o culto da decadência que tanto delicia – e faz sofrer - o Fidalgo des Esseintes.

Epílogo
A humanidade, em mais de um século decorrido do aparecimento de Às Avessas, por certo não logrou superar os “sofrimentos nascidos das provações”, mas por conta das expectativas geradas pela expansão do consumo, cada dia mais se ressente do “invencível tédio gerado pela abundância.” O desejo por estetização deixou de ser um excentricidade de fidalgo enfadado, para se encontrar disseminada por todas as classes sociais e por toda a geografia humana do planeta. Wolfgang Welsch alerta para esta tendência que se processa a olhos vistos:
“Nessa estetização superficial cotidiana domina o valor estético de primeiríssimo plano: o prazer , a diversão, o gozo sem conseqüências. Há muito que essa tendência se alastra para toda a cultura em seu conjunto. A vivência emocional e o entretenimento tornam-se as linhas diretrizes da atividade cultural. A cultura dos festivais e da diversão expande-se; ela serve ao abastecimento de prazer e de divertimento de uma sociedade de tempo livre.” (pág.0)
A estetização a que se refere Welsch certamente não se confunde com busca por prazeres refinados – alguns fracamente aristocráticos - como os que marcam o início da escalada des Esseintes. Ainda assim, será que a nossa confusão contemporânea, entre questões de gosto e de valor; não nos impele para o mesmo fracasso descrito em Às Avessas?

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Bibliografia:
HUYSMANS, J-K, Às Avessas, Tradução José Paulo Paes, São Paulo, Companhia das Letras, 1987.
KOSIK, Karel, Dialética do Concreto, Tradução de Célia Neves e Alderico Toríbio, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1ª edição, p. 115
NUñES, Carlinda Fragale Pate Nunes, Em Torno, Por Dentro, Às Avessas...Questão de (Des) Gosto, Artigo Científico, Rio de Janeiro, UERJ.
BLACKBURN, Simon, Dicionário Oxford de Filosofia,tradução de Desidério Murcho e outros, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1ª edição, 1997.
TORRES FILHO, Rubens Rodrigues, Os Pensadores, História das Grandes Idéias do Mundo Ocidental, São Paulo, Abril Cultural, 1974, 1ª edição, p. 612.
NIETZCHE, Friederich, citado por EAGLETON, Terry, A Ideologia da Estética, tradução de Mauro Sá Rego Costa, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993, p.189.
EAGLETON, Terry, A Ideologia da Estética, tradução de Mauro Sá Rego Costa, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993 p.189.
WELSCH, Wofgang, Estetização e Estetização Profunda ou: A respeito da Atualidade do Estético in Porto Arte, Porto Alegre, UFRGS, 1995.

Marcelo Barbosa da Silva é pós-doutorando em Literatura Comparada pela UERJ, diretor-coordenador do Instituto Casa Grande e autor, entre outros, de A Nação se concebe por ciência e arte – três momentos do ensaio de interpretação do Brasil no século XIX

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