Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

São França
(Protetor dos Corações Partidos e Condutor das Palavras Perdidas)

À memória de Oswaldo França Júnior, do Serro Frio, que bem antes de ter ido lá pra cima (em 10 de junho de 1989), já sabia conversar com as nuvens aqui embaixo. E apresentá-las aos amigos

Por Antonio Barreto

Se o caso é mal de amor,
tristeza, lumbago, bursite ou comilança,
reze 3 ave-marias para São Oswaldo França.

Se é dor de cabeça, solidão, bicho de pé,
figo inchado, prisão de ventre, zumbido ou criança,
reze 9 salve-rainhas para São Oswaldo França.

Se, por outras vias da vida atropelada
(insônia, inapetência, aluguel, inadimplência,
etê de Varginha, Chupacabra,
deputado, senador, vereador
- e outras vossas excelências -
pivete, internet, corrupissão, cachassa ou cobranssa),
reze mais 1 padre-nosso para São Oswaldo França.

Por outro lado, se é algo mais duvidoso
(falta de muié ou home,
muié na cama, home na lua
- ou viceversa -
falastrice, separação, promessa,
vento virado, inveja,
batom na roupa, mal da rua
ou até mesmo ação de verme ou demanda,
medo de elevador, avião ou mudança),
faça mais uma novena para São Oswaldo França.

No entanto, se for só titica das memórias,
stress de computador parado,
lipoaspiração da lembrança,
ziquizira de verbo, substantivo, adjetivo,
contite, romancite ou poemite,
falta de inspiração, letra torta, natureza morta;
ou ainda: um caso crônico de inverosimilhança
de personagem que não convenceu a crítica...

Aí sim! Por motivo de força maior (ou política)
peça uma palavrinha com Deus,
através de seu carteiro-mor e ordenança,
que é São Oswaldo França.

Mas não se esqueça: seja rápido e rasteiro,
seja jorge e brasileiro,
nem prolixo, nem mineiro.

Porque São Oswaldo França
(- Cuidado!) é um santo feiticeiro!


Nota de lembrança:
Oswaldo França Júnior (1936-1989), nasceu no Serro (MG). Escritor, mineiro até a alma, ingressou na Aeronáutica aos 17 anos e teve sua carreira bruscamente interrompida pelo golpe militar de 64: não obedeceu às ordens de bombardear, com seu esquadrão de combate, o Palácio do Catete. De volta à vida civil trabalhou como motorista de táxi e dedicou-se à literatura como meio de sobrevivência. Ganhou o prêmio Walmap, em 1967, o mais importante da literatura brasileira da época. Publicou, entre vários outros romances de sucesso, Jorge, um brasileiro (levado ao cinema e à televisão pela minissérie Carga Pesada). Sua obra foi traduzida na Alemanha, EUA, França e antigas URSS e Checoslováquia). França morreu prematuramente, num período de intensa produção literária, vítima de um acidente automobilístico na estrada Belo Horizonte-João Monlevade. Dizem que por um breve momento de descuido (talvez o único de sua vida), quando foi trocar a fita K-7 no som de seu carro. Nessa mesma curva, depois dele, dezenas de pessoas já morreram. E nenhuma autoridade até hoje tomou providência alguma. Esse texto se encontra exposto num painel do Cantinho do França, no Restaurante Dona Lucinha, em Belo Horizonte. Também foi publicado em número especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, em homenagem ao autor, em janeiro de 2010.

Antonio Barreto, 60, é poeta, contista, romancista, compositor e cronista. Ganhador de alguns dos mais importantes prêmios literários nacionais, publicou mais de 40 livros. Entre eles: Vastafala e Lua no Varal (poesia); A Guerra dos Parafusos (romance) e O papagaio de Van Gogh (crônicas)

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