Algo A Dizer
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Sim, é mais um besteirol americano

Por Bruno Marques

É difícil entender o que se passa com as distribuidoras, enquanto bons filmes chegam ao Brasil diretamente em DVD - como foi o caso de "Guerra ao Terror -, vemos produções, de gosto duvidoso, serem lançadas na tela grande. Este é o caso de Carros Usados, Vendedores Pirados (The Goods: Live Hard, Sell Hard, 2009) uma comédia besteirol, produzida por Will Ferrell, que tenta fazer graça, apelando para o sexo, para o preconceito e para propaganda de extrema-direita.

A história acompanha Don Ready (Jeremy Piven), um folclórico vendedor de carros usados, em sua missão de salvar a concessionária de Ben Selleck (James Brolin), um saudoso vendedor de carros americanos à beira da falência. Para isso, Don contará com a ajuda de sua equipe, composta por Jibby Newsome (Ving Rhames), um negro que sofre de compulsão sexual, Babs Merrick (Kathryn Hahn), vivendo a morena promiscua - banalizando as vendedoras de automóveis, troca de sexo por comissão -, e Brent Cage (David Koechner), um personagem que pouco diz a que veio, servindo apenas como trampolim para piadas homofóbicas.

É difícil enxergar diferenças entre os arquétipos desses personagens, Don, por exemplo, é um metrossexual metido a conquistador, adepto de um topete exagerado, costeleta e jeito de cowboy, tal qual o protótipo do herói clássico americano, que, de tão démodé, fica difícil compreender os motivos que levaram o diretor Neal Brennan a reeditá-lo.

Completam o time de aberrações um menino de 10 anos no corpo de um adulto de trinta, um veterano de guerra racista, um dançarino de boy-band (Ed Helms, do excelente "Se Beber Não Dirija") namorado de Ivy Selleck (Jordana Spiro), que, por sua vez representa o affair de Don Ready, dando vida a uma loira inocente, dividida entre o amor do herói espertalhão e do noivo estúpido.

Se não bastasse tudo isso, ainda temos que conviver com uma forte propaganda mercadológica - ao fazer lobby contra carros orientais - e discurso de apologia ao tabagismo, sob argumento pífio de que durante o tempo em que era permitido fumar em voos comercias o homem chegou à lua. Tal descompromisso com códigos de ética rendeu à produção um processo por preconceito, movido pela sociedade nipo-americana, que sentiu-se ofendida por uma das tantas piadas de mal gosto presentes na produção.

Carros Usados, Vendedores Pirados simboliza um tipo de cinema que não tem mais espaço em um mundo globalizado, em que há um grande esforço para acabar de vez com preconceitos culturais e raciais, e que não cabe mais visões xenofóbicas, como as presentes nesta "comédia".

Se o filme inteiro foi uma piada, não teve a menor graça.
Bruno Marques é crítico, cineasta e web developer (www.brunocine.wordpress.com). Telefones: (21) 9668-2794 (21) 2435-7303
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