Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Angústia (*)

Por Celso Gomes

Passando de carro pelo viaduto da Perimetral, um engarrafamento me fez ficar retido entre a Baía de Guanabara e os prédios abandonados do cais do porto. Do lado esquerdo, eu vislumbrava o mar, as fragatas contra o vento, um navio que ingressava no porto carregado de contêineres, os guindastes. Tudo em volta recendia à maresia. O viaduto tremia quando os carros cruzavam em sentido contrário. Do lado direito, havia somente prédios e armazéns abandonados. Um passado há muito esquecido pelos cariocas. Talvez, pois de onde eu estava não os via, estivadores aposentados jogassem cartas em alguma pedra do cais, ou ainda, prostitutas e rufiões passeassem pelas ruelas de paralelepípedos. Estava ali, absorto, quando um prédio abandonado me chamou a atenção. As janelas com vidros quebrados e sujos de fuligem, maresia e poeira. Dentro, mesas e cadeiras quebradas; armários de ferro amontoados, sem gavetas; pastas suspensas abertas com antigos documentos espalhados pelo chão. Uma lâmpada apagada pendia do teto; enquanto um ventilador sem pás esperava o fio arrebentar para vir ao chão. Provavelmente, haveria nos cantos um emaranhado de teias de aranha e vidros quebrados pelo chão, onde também poderiam jazer copos descartáveis sujos de antigos cafezinhos e pontas de cigarros fumados nos antigamentes daquela repartição pública. Fiquei pensando no que aconteceria naquele enorme salão, onde havia apenas a presença de coisas sem vida, espalhadas em desordem, sem a presença humana? Como os objetos agiriam na ausência dos homens? Essas perguntas começaram a martelar em meu cérebro. Na verdade, eram questões antigas que retornavam à minha consciência desde que eu abandonara a análise, onde passara dez anos em busca de uma cura que nunca viera. Naquela época, eu vivia a interrogação de sentido por meio da qual não se pergunta para depois responder, mas porque já não é mais possível responder. A psicanálise havia me levado não a deixar de sofrer, mas a sofrer mais, de uma dor que não possuía conteúdo biográfico, uma dor mais íntima, que não me pertencia, mas que me possuía. Que não podia ser narrada, uma dor injusta, que não era outra senão a da finitude sentida como morte pessoal, que me pertence, e à qual, miseravelmente, eu pertenço. As ruínas são espelhos a refletir certas partes obscuras de nós mesmos. O trânsito fluiu à minha frente e eu segui vagarosamente sob o imenso sol da tarde, com o mar azulado me levando a pensar nas escolhas erradas que havia feito ao longo da vida. Cheguei ao Aeroporto Santos Dumont e descobri o motivo da retenção no trânsito: um acidente ocorrera e partes do carro se espalhavam pelo asfalto. Ao longe, vi a ambulância do Corpo de Bombeiros e paramédicos tentavam reanimar um jovem descalço. Vi uma moça de cabelos curtos que chorava ao volante de outro automóvel. Suas lágrimas retiveram minha atenção e por pouco não vi o corpo de um rapaz estendido com o rosto no chão. Não havia sangue, nada que aparentasse um morto, apenas dormia. Fiquei angustiado. Provavelmente não passava de vinte anos. Muito novo para morrer, pensei. Outro corpo mais adiante, entre os destroços do que parecia ter sido um carro, era serrado por um bombeiro. Vi sangue e óleo se misturando no asfalto. Segui em frente. Meus olhos ressecados pelo ar condicionado do carro ficaram úmidos. No Aterro pisei fundo para escapar da tristeza.

À noite, fumando um cigarro no escuro do quarto, refiz o caminho até o local do acidente. Sangue e óleo, líquidos viscosos como meus pensamentos. Àquela hora, famílias velariam seus mortos. Mães em desespero. Velas acesas na capela onde o enterro. Flores. Um dos caixões estaria lacrado. Não conseguia dormir, os corpos estendidos me surgiam como os objetos inanimados daquele salão vazio. O que aconteceria com a morte? Tomei uma decisão: iria me internar no âmbito dessa pergunta. Vesti-me, desci à garagem e peguei o carro. Dirigi pela madrugada vazia. Passei pelo local do acidente. A prefeitura havia retirado o que restara do carro, mas alguns destroços jaziam próximos ao meio fio. Havia serragem em alguns pontos. Desci pela Praça Mauá e segui sob o viaduto para encontrar o velho prédio abandonado que me chamara atenção à tarde. Encontrei-o facilmente. Estacionei o carro e com a chave de roda arrombei a porta principal. Entrei e esperei meus olhos se habituarem à escuridão. Do lado direito do saguão havia um escada iluminada por uma luz difusa que vinha do viaduto. Subi os degraus e procurei o cômodo que vira ao entardecer, iluminando o caminho com a lanterna do meu celular. Encontrei e entrei em uma sala de onde se via o viaduto, de vez em quando cruzado por um automóvel solitário que iluminava meu rosto. Vi-me entre as coisas. Inicialmente senti um leve temor, vencido pelo absoluto silêncio que reinava no lugar. Logo após, passei a sentir nojo, dos animais nojentos passeavam em minha volta. Podia senti-los próximo a mim. Baratas voejavam e roíam papeis. Aranhas e centopéias caçavam. Ácaros provocavam alergia em meu nariz. Sentei-me no chão empoeirado. De vez em quando ruídos de vozes chegavam até mim, mas não havia ninguém. Os degraus rangiam levemente. Murmúrios indecifráveis, portas que batiam, passos no assoalho, risos abafados, estalar de madeira, gotas d'água de alguma torneira. Ninguém surgia. O silêncio foi se avolumando e os insetos se habituaram à minha presença. Cruzavam-me as pernas e saíam do outro lado sem me causar dano. A noite foi crescendo naquele marasmo. A poeira foi penetrando em meus poros. Fui me sentindo cada vez mais amalgamado às cadeiras, mesas, armários e pastas velhas em suas existências singulares de silêncio e solidão. Resolvi esperar, até o limite de minha consciência, o momento certo para surpreender os objetos em suas existências obscuras.

*conto inédito do livro "O Vampiro de Cavalcante"
Celso Gomes é advogado e escritor
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