Algo A Dizer
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Loucuuuraaaa!

Por Denise Ribeiro

Começou a trabalhar aos 14, numa agência de Comunicação, onde fazia de tudo um pouco. Ali, de verdade, seu olhar para o mundo se expandiu, porque encontrou, no dono, um mentor à altura dos seus voos. Falante, didático, espontâneo e provocador, Ricardo ensinou o menino a duvidar de tudo o que parece verdade, a exercitar a ética e a generosidade, a se preparar para o futuro.

Os computadores, que há 15 anos eram máquinas ainda enigmáticas para a maioria, faziam os olhos do menino brilhar. Queria porque queria pilotar uma delas, sentia que o seu destino estava ali, no jogo de imagens, gráficos, tipologias, desenhos de página que poderia criar. "Entra na faculdade que, aí sim, te passo pra área de design gráfico", prometeu o chefe.

Promessa cumprida de ambas as partes, o jovem ganhou novo perfil. Não apenas porque o convívio com os computadores lhe infundia confiança e fé na vida. Mas porque a própria vida explodia dentro dele, naquela guerra de hormônios que o fazia espichar de tamanho, engrossar a voz e só pensar nas meninas.

Meninas, viagens, música, futebol e surfe. Será que há outra equação mais perfeita para resumir os interesses de um garoto saudável? O trabalho, a faculdade, as demandas em casa, o corre-corre pra dar conta de tudo, os horários apertados, o dinheiro curto. Nossa, um carro ia ser tudo de bom pra ele, fã da autonomia de voo. E não é que ele conseguiu arrematar um fusquinha amarelo? Meio assim, assado, com uma porta que se abria a fórceps, mas que o levou para novos destinos, alargou seus horizontes e o deixou ainda mais charmoso para as meninas.

Os olhos claros - voltados pro alto, para reforçar uma frase - o sorriso cativante e a fome de desbravar o levaram para a Austrália. Com a anuência do Ricardo, claro, o apoiador irrestrito dos sonhos do jovem, que andava assim, meio amuado, depois da morte da mãe.

Na terra do surfe e das oportunidades, nosso garoto virou homem na marra. De vez em quando ligava pro Brasil, pra matar as saudades dos amigos. "Cara, nunca vi tanta louça suja na vida. Depois de enfrentar uma pia daquele tamanho, estou pronto pra tudo", contava, sobre um dos restaurantes onde trabalhou. No outro passava horas descascando pilhas de cebola, mas cativou tanto o chinês que podia levar comida pra casa e ainda ganhou dele uma festa de despedida, quando deu por encerrada sua temporada de trabalhos forçados.

Antes de voltar, um tour pela Ásia e pela Europa com a Patrícia, namorada brasileira que virou sua mulher na Austrália. Tailândia, Vietnã, Malásia, Singapura e Camboja, cujo povo ele amou. Um monte de fotos, o fascínio pelos templos, pela diversidade cultural, histórias deliciosas, como os contrastes da Malásia.

Na capital, Kuala Lampur, o casal ficou num lugar trash, sem janelas e pouco ventilado, que ele descreveu assim: "A promoção do hostel era, durma aqui e ganhe uma infecção de graça.......foi o que aconteceu com a minha perna esquerda. Ganhei dois furos grandes mas agora já está melhor".

Em compensação, dias depois conheceram um casal supergente fina, que os levou aos melhores lugares da cidade, de galerias de arte a restaurantes exóticos. Não deixou que os jovens desembolsassem um dólar sequer no tour de 3 dias com sua BMW. Foi "loucuuuuraaaaaaa!", escreveu no email, usando seu bordão mais característico - e, imagino eu, olhando pra cima.

Finalmente, em dezembro de 2008, o casal desembarcou no Brasil. Voltou cheio de esperanças, morto de saudades dos parentes e amigos, com ânimo renovado para pegar de novo no batente. Reencontrá-lo foi emocionante, ouvir seus relatos, hilariante, mas ele foi morar na praia e passamos a nos encontrar esporadicamente.

De vez em quando a gente se falava por telefone ou por email. O cartão de Natal que mandou pros amigos, há menos de 5 meses, ficou primoroso, digno do ótimo designer gráfico em que se transformou. Os votos de Feliz 2010 ainda valem, mas só para os que ficaram. Porque o Daniel partiu.

O Dani, Daninho se foi. Nosso homem viajado, elétrico e meio desligado - nunca sabia onde tinha posto a carteira, as chaves - morreu na tarde de sábado, 15 de maio. A Pati o encontrou caído, entre a cama e o criado-mudo, provavelmente fulminado por um infarto. Tinha 28 anos. Os olhos claros e marotos do menino, tão amado por todos, nunca mais se abrirão.
Denise Ribeiro é jornalista (denisemrib@gmail.com)
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