Algo A Dizer
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Sonho na Paulista

Quem sabe não ouviremos dizer que esse novo país, muito menos homofóbico, com político de uma nova estirpe, começou, hoje, na Parada do Orgulho GLBT. (Alexandre Santos, presidente da APOGLBT)

Por Jorge Nagao

A mais charmosa das avenidas paulistanas, a Paulista é o grande palco dos eventos desta metrópole. Da festa do Reveillón, passando pelo carnaval, comemoração de títulos a protesto dos professores, tudo, para ser grandioso, tem que ser na Paulista. Ultimamente, ela tem sido alvo de piadas. A primeira é que a Paulista parece o casamento: começa no Paraíso e termina na Consolação. A última é que o metrô Paulista fica na Consolação e a estação Consolação fica na Paulista. A eleição faz o político misturar estações.

Na esquina da Paulista com a Augusta, tem uma agência do BB. Nos início dos anos 80, muitos bancários saíram do armário e assim nasceu a Pauligay, uma alegre confraria que divertia os colegas com seus modos e brincadeiras originais. Um carimbador maluco inventou de fazer um carimbo e, todo dia 24, carimbava num papel oitavado, criava uma festa fictícia e espalhava o convite para toda a agência. Daniel Campos, Barreto's friend, é testemunha destes anos coloridos. Esses inocentes convites viraram um objeto cult e se espalharam como purpurinas na avenida para outras agências do BB. A Paulista, agência, ganhou fama nacional. Alguém voltava de férias de Fortaleza, por exemplo, e dizia que lhe perguntaram se nesta agência só tinha gays. Alegres rapazes de muitos estados sonhavam em trabalhar na agencia mais colorida do Brasil. Incomodada com o sucesso da Metropolitana Av. Paulista, a alta direção resolveu agir. A primeira medida foi chamar o carimbador dos convites das festas e sequestrar o carimbo. Os pauligayenses sentiram o golpe. E sossegaram o facho. Algum tempo depois, veio o famigerado HIV e a agência que era a mais animada do Banco passou a ser a mais triste com a perda de vários funcionários.

Sem dúvida, o espírito da Pauligay pairou durante anos pela avenida e contribuiu para o sucesso da Primeira Parada Gay, em 1996. Neste ano, mais de 3 milhões de pessoas participaram desta festa.

Ontem, sonhei que fui passear na Paulista. Encontrei um carnaval fora de época com mais de vinte trios elétricos repletos de artistas e celebridades do mundo GLBT. Povo alegre como aquele só vi quando o Brasil foi penta.Vi cada coisa que só em sonho mesmo. Homens andando com outros homens, abraçados ou de mãos dadas. Mulheres se olhando apaixonadas. Muita gente fantasiada pulando e dançando para o delírio do povo. De repente, em minha frente, uma "mulher" se agachou para fazer xixi. Pôs a mão entre as pernas e voltou com aquilo na mão. E, despudorada, despejou sua chuva dourada na avenida ante o olhar incrédulo da massa. Findo o serviço, sacudiu o trem e o repôs no lugar em que estava, subiu a calcinha e saiu rebolando, indiferente aos ohs! dos curiosos. Tudo bem, em sonho acontece de tudo. No meio daquela animação, alguém se queixava do roubo de um celular. Roubo, no Brasil, só em sonho... Rafaela, uma transformista, contava que pisara num caco de vidro e tomara uma vacina antitetânica nas nádegas. Se eu não pegar ninguém pelo menos mostrei o bumbum pra alguém, filosofou.

Tal como n'A banda do Chico, a moça triste que vivia calada sorriu, a lua cheia que vivia escondida surgiu, minha cidade toda se assanhou pra ver a biba passar mostrando o seu bom humor.

Purpurinas e confetes decoravam aquele céu de brigadeiro, paulista e consolação. Na verdade, a multidão se solidarizava com aqueles que amam os seus semelhantes pedindo um basta à homofobia.

Tudo parecia tão real que estou confuso. Não fosse aquela "mulher" do xixi eu diria que tudo aquilo aconteceu mesmo. Mas que fique claro: yo no soy gay! No máximo, era um enviado especial (repito, enviado especial) do Transnotícias, o seu primeiro programa.

Jorge Nagao é escritor e jornalista

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