Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Tempos Modernos

Por Maria Balé

Mais um dia de rotina se inicia. A luz que entra pela fresta da veneziana incide no seu rosto, a acorda e a salva do ataque; a gritaria metálica da odiosa máquina que todos os dias a arranca do melhor do sono e deixa a residual sensação de que ela necessita dormir por mais quinze horas, no mínimo. Ela nunca entendeu e jamais entenderá, é certo, por que não tem esse sono na hora de ir pra cama e não na hora de sair dela...

Como praxe das primeiras horas do dia, um questionamento para atualizar as idéias: será que existe alguém que não odeia o despertador? Sem pensar na resposta, ela se agita na incipiência daquele dia.

Quase seis da matina e as obrigações já se posicionam como generais em prontidão na sua mente sonolenta.

Mesa posta, café pronto, lanches, mochilas, atrasos, berros. Falta ainda para as sete horas e ela já respirou fundo umas sem conta de vezes. Mais uma pergunta no 'quiz' intermitente do seu cotidiano: será que existem, em algum lugar deste mundo sem fim, filhos que respeitam o relógio?

Oito minutos acelerando até que um cidadão dá a chance para que ela saia da sua garagem e alcance a rua. Não avança vinte metros e ela se vê diante da indignante cena; uma mulher na terceira, quase quarta idade, varre a sua calçada com o esguicho de água limpa e tratada. Insiste num velho chiclete mascado que está incrustado numa fenda do cimento rachado. E mais um questionamento verde engajado: quantos litros serão necessários até que a criatura odiosa conclua o seu intento?

Pouco adiante, a cena se repete. Outra senhora, um pouco mais jovem, lava a rua em frente à sua casa. Persegue obstinada umas pétalas de flor de quaresmeira roxa e algumas folhinhas secas. Displicente, não se abala com o alagamento que se avoluma.

Ela recorre à 'respiração consciente', pranayama, algo assim, na tentativa de dominar a sua ira. Controlada, para, abre lentamente o vidro do carro e, calma, questiona a atitude. 'É você quem paga a conta?... Responde a megera, com propriedade. Poderosa, mas horrenda. Ela não tem tempo para argumentos. Reza um mantra meia boca e vai embora. E, até chegar à escola, em minutos, contabiliza nove irresponsáveis que sem o menor pudor jogam fora água potável. Ignoram que esse patrimônio é universal e que caminha a passos largos para a extinção. Na maioria, mulheres, adultas, possivelmente mães e, justo por isso, em princípio, guardiãs da vida, alimentam essa paradoxal estatística.

Respira fundo mais um tanto. Por sorte, chega em tempo. Os filhos não perderam a primeira aula.

Ela, forte e aguerrida, decide que o motorista na contra mão não a tirará do sério. Espera que ele passe. E pronto. Decide, também, que vai tomar um café quente pra dar um tempo e espantar os ares de cólera.

E pensar que o dia mal começou, está inteiro pela frente...

Ah, que bom! Uma vaga do outro lado da rua. Dá a volta para estacionar do lado certo. Alguém parou antes, do lado errado. Tudo bem, tem mais vagas duas quadras depois, afinal, andar um pouco é sempre bom. Bom seria, não fossem as fezes caninas que migraram do piso para o seu sapato. Será que existem pessoas que limpam a sujeira que seus cães fazem? Já perdeu a conta de quantas vezes pronunciou, consigo mesma, a palavra 'será?'... Quantas vezes teria sido? O carro que passa no sinal fechado a impede de imaginar qualquer resposta. E o cara na bicicleta, esse é fera! Equilibra-se entre as duas crianças pequenas que carrega na frente e o cigarro aceso que cambaleia na sua boca. Escapa por pouco do atropelamento. Ele, ainda vá lá, é adulto, e se arriscar é de sua conta, mas, e as crianças?... Ela negocia com ela mesma e concorda em dar um basta em tanto 'perguntamento', como diz seu filho caçula.

Ela se afunda no último banco da fileira que circunda o balcão da padaria. O rosto alegre e a fala preguiçosa do rapaz que a serve alivia o desconforto. Como é lindo o Fernando, comentam os seus nerurônios. Fê para os íntimos.

O café, bem tirado, é uma delícia. Enquanto o toma em goles curtos, sem pressa, ela traz à lembrança uma tira de Quino, cartunista argentino, que há tempos viu na última página de uma revista. Nela, o pai da genial Mafalda toma seu desajuno na primeira hora e, elegante, trajando terno e gravata, despede-se da filha. Apanha a sua maleta e sai contente para o trabalho. Quando volta no final do dia, Mafalda, à mesa, diante do seu prato da abominada sopa de legumes, o examina e lhe pergunta: Papi, afinal, você está voltando do trabalho ou da guerra?!...

Maria Balé é escritora

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Comentários
  Valéria S. Dantas Lopes
24/06/2010

Adorei, Maria!
Ouvimos, lemos e vemos cenas como essas tão bem descritas por você, todos os dias. Isso nos causa um sentimento de impotência diante de tanta desatenção e a certeza da falta de compromisso com algo tão sério.
Parabéns!!
Beijo.
 
 

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