Algo A Dizer
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Bendito Massao Ohno

Por Sergio Antunes

Estava lendo o Estadão neste domingo e estava lá. Morreu Massao Ohno.

Quando comecei a escrever, Massao Ohno era uma referência. Referência e reverência. Era dos poucos que editava poesia e ser editado por ele equivalia a ter um endosso para entrar no mundo das letras rimadas.

Tinha publicado um livro ainda morando em Lins. Era o "24 poemas diversos e um poeminha de amor", título adolescente, chupado escandalosamente de um notável livro de Pablo Neruda, "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada". Impresso na Gráfica Rio Branco, foi lançado com grande estardalhaço na cidade pelo Lions Clube, que vendeu os exemplares e destinou a renda para a Casa da Criança.

Mas eu queria mais. Queria um livro que fosse vendido em livrarias e tivesse resenha no Estadão. Só que, morando ainda em Lins, não tinha a menor idéia de como fazer isso. Foi quando o Prata, que já morava em São Paulo, disse que conhecia o Massao.

Mas será que ele existe mesmo? Ou será que, como a Madame Poças Leitão, que há 150 anos leciona dança de salão, era apenas um nome, uma griffe que passa de pai para filho e de filho para neto, igual ao Fantasma da revista em quadrinhos?

O Prata não só me assegurou que o Massao Ohno existia como encontrava com ele e a Maria Lydia Pires de Albuquerque, sua mulher, quase toda noite no Pirandello, um bar e restaurante de intelectuais que ficava ali nos baixos da Rua Augusta.

E se era verdade que o Massao existia, será que ele se daria ao trabalho de ler minha poesia?

Foi quando eu resolvi datilografar meus poemas numa velha Olivetti Lettera, agora com cópia carbono, colocar tudo num envelope pardo e remeter para o Mário Prata na Rua Alagoas, em Higienópolis. Por intermédio dele, o material chegaria ao destino.

Esperei alguns meses de ansiedade. Nada acontecia e eu já me conformava em ser um poeta de mimeógrafo quando o telefone tocou. Aqui quem fala é o Massao Ohno e eu gostaria de publicar seus poemas.

Vim para a capital com o coração aos pulos para me encontrar com ele, o editor. O endereço era Rua Major Diogo, baixos, endereço enigmático como era seu morador. O encontro seria às nove da manhã, horário indicado pelo anfitrião e eu, na véspera, fui com ao Pirandello dos intelectuais, já me sentindo um deles, de onde voltei cedo para um quarto de hóspedes na casa do amigo. Queria dormir bem e causar boa impressão. Afinal, era o que eu queria. Para mim e para meus escritos. Boa Impressão.

Cheguei na hora certa. Mas encontrei a porta fechada. Ainda aflito e ansioso, esperei sentado na escada de entrada. Lembro que esperei um tempão, até que chegou outra pessoa, um homem gordo, cabeça branca e suspensórios e se sentou ao meu lado para esperar a porta se abrir. Como não tivesse o que fazer, mostrei meus poemas para o companheiro de escada. Ele leu alguns e me disse: é, menino, o bichinho da poesia te mordeu. Eu não tinha a mínima idéia de que o companheiro de escada era o jornalista e crítico literário Mário Pedrosa.

Finalmente, quase meio-dia, chegou o Massao. Japonês, igual aos japoneses de Lins, me apresentei e ele me entregou um boneco do livro A Casa da Infância, título de um dos meus poemas. Era, finalmente, a concretização do sonho.

A Casa da Infância não me colocou na Academia nem me lançou para o mundo. Mas eu me acreditei poeta a partir de sua publicação, com noite de autógrafos no mesmo Pirandello, onde, anos mais tarde, foi lançada a campanha das Diretas Já, com o Maschio e o Wladimir, os donos, vestindo a Rua Augusta de amarelo e os nossos corações de esperança.

Com o Massao ainda publiquei "Era um Dia Assim", patrocinado pela Tok Stok, o freguês comprava um guarda-roupas e ganhava um livro e, também, "Primeira Vez", patrocinado pelo Banespa, o cliente fazia um empréstimo e era obrigado a levar um poeta de lembrança. Os livros ainda podem ser encontrados em algumas estantes perdidas por aí e, claro, no Sebo do Messias, onde são vendidos em bom estado por cinco reais.

Quando ainda era criança havia o Clube do Livro. As pessoas entravam para o clube e recebiam um livro todo mês. Na última capa, nunca esqueci, sobre o mapa do Brasil, havia impresso um pedaço de um poema de Castro Alves:

"Oh bendito que semeia
livros, livros à mancheias
e manda o povo pensar.
Porque o livro, caindo n'alma
é gérmen que faz a palma,
é rio que faz o mar"


Não virei o poeta mais famoso nem de Lins. A culpa, certamente, não foi do Massao. Ele fez a sua parte, acreditando que todos os poetas são imortais. Fez de ser editor a sua profissão. Profissão de fé. Por isso é bendito, meu amigo Massao Ohno. Por ter escolhido ganhar seu pão de cada dia fazendo livros e mandando o povo pensar.

Sergio Antunes é poeta e escritor
Contato: sergioantunes@ig.com.br

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