Algo A Dizer
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Matrimônio, matrimônio, isso é lá com Santo Antônio

Por Cinthya Nunes

Já tinha quase passado um ano desde que Ângela trouxera o Alegria para casa. Era incrível como o tempo passava rápido. Fora no dia dos namorados do ano passado. Ela o escolhera entre vários outros deixados para adoção. Assim, não era um cachorro de raça. Na loja, no Pet Shop no qual ela o pegou, disseram que atualmente se chama esse tipo de cachorro de SRD, ou seja, Sem Raça Definida.

Ângela, contudo, era uma mulher prática. Não gostava de "dourar a pílula", como se diz por aí. O Alegria era inegavelmente um Vira-Latas. Preferia essa denominação que, além de mais simples, dava ao cachorrinho um ar de boêmio, de malandro. Combinava com ele, combinava com ela, que não tinha nenhum sobrenome famoso, em era "quatrocentona" ou "trezentona", "duzentona" ou qualquer outra "ona" da nona...

O Alegria, embora fosse uma graça de cachorrinho, deu o trabalho que todo filhote dá. Roeu parte do pé da mesa da cozinha, fazendo com que, todas as manhãs, ao tomar seu café, Ângela se lembrasse de que, o amor, algumas vezes, é feito de desequilíbrios. Perdeu um pé de seu sapato favorito e aproveitou o "momento saci" para se livrar da horrorosa pantufa em formato de pepino que ganhara de sua prima Roberta.

Com quase um ano de idade, o Alegria já estava mais sossegado e Ângela agora se via às voltas com outro dia dos namorados chegando. Andava meio cansada das perguntas da família, muitas irônicas, indagando sobre a data de casamento dela e de Alegria. A prima Roberta, inclusive, já até oferecera a cadela dela, Pituca, para servir de dama de honra. Esse ano teria que ser diferente ou ela iria largar mão dessa história de ter uma companhia para vida ou para uma parte dela que fosse.

Chegara o dia 12 de junho e ela, um tanto desequilibrada em sua mesa capenga, tinha Alegria deitado aos pés dela, dormindo o sono dos inocentes. Era bom sentir o calor que emanava do corpo dele, mas ela pensava em como seria bom ter alguém para aquecê-la para além dos pés. O telefone tocou e ela, vendo no identificador de chamadas, que se tratava de sua mãe, Deolinda, sentiu os olhos marejarem. Ela sempre ligava no dia dos namorados, perguntando com quem ela passaria o dia, na esperança de ouvir da filha alguma novidade.

Deolinda, casada há quarenta anos, era daquelas mulheres para quem a vida parecia ter sido feita sob medida. Aos 23 anos se casara com o homem dos sonhos. Casara-se de branco, repleta de sonhos. Tivera duas filhas saudáveis, trabalhava em um bom emprego e, quando descobriu que o marido estava de olho na vizinha, deu-lhe uma surra daquelas. Depois disso, tudo caminhara bem. Assim, não se conformava com a filha só viver com um cachorro, ainda que já estivesse até tricotando para ele umas roupinhas de frio e adorasse chamá-lo de Alegria da vovó...

Nesse ano, contudo, Deolinda não fez pergunta nenhuma. Apenas lembrou a filha de que no dia 13 de junho era dia de Santo Antônio e que o Santo costumava ajudar quem queria realizar desejos do coração. Mandou um cheiro para o Alegria e disse que, no dia 13, mandaria entregar no apartamento dela uma casinha de madeira que um rapaz da vizinhança fazia e que ela comprara para dar uma força aos negócios dele.

Ângela não era muito religiosa, mas, pensou, que mal faria rezar ao Santo? Ademais, ninguém ia saber mesmo.... Tentou lembrar de alguma oração específica, mas optou por fazer um pedido mais simples: _ Fala aí Santo Antônio, me dá uma força vai! Tô cansada de conhecer cafajeste e vagabundo. Para variar, manda alguém que valha a pena...

No dia 12, logo pela manhã, o interfone tocou e ela, ainda com sono, falou ao porteiro para mandar o rapaz subir. Assim que abriu a porta, lamentou estar de pijamas e descabelada. Era o tal moço do qual a mãe falara. Viera entregar a casinha para o Alegria. Ele pediu desculpas por vir um dia antes, mas estava ansioso para entregar sua primeira encomenda, ainda mais para a filha da Dona Deolinda, de quem tanto ouvira falar bem. Chamava-se Antônio e, sim, adoraria entrar para tomar um café...

Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, professora universitária, cronista e membro da Academia Linense de Letras

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Comentários
  Adriana Almeida
23/06/2010

Identificação? Ainda pergunta? Em casa, antes da chegada do parceiro dos sonhos, as protagonistas eram Olga e Pagu, companheiras gatas.
Adorei, Cinthya.
 
  alex
26/06/2010

Delícia de conto. Inspirador.
 
 

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