Algo A Dizer
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Entrevista exclusiva: Jair Ferreira

Por Celso Gomes, Paula Pires

Jair Ferreira dos Santos nasceu em 1946 em Cornélio Procópio, Paraná. Mora desde 1971 no Rio de Janeiro, onde se formou em Comunicação Social pela UFRJ. É ficcionista, poeta e ensaísta. Publicou, entre outros, o livro de contos “A Inexistente Arte da Decepção” (1996, Ed. Agir), bastante festejado pela crítica; o volume de ensaios “Breve, o Pós-Humano”. Figura na coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, com “O Que é Pós-Moderno”, trabalho que já vendeu cem mil cópias. Publicou o livro de contos "Kafka na Cama" (Ed. Civilização Brasileira, 1980) e o volume de poemas "A Faca Serena", pela Editora Achiamé em 1983, que foi premiado pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte de São Paulo. Sua obra mais recente, "Cybersenzala" (contos, 2006, Ed. Brasiliense), foi finalista do prestigiado prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Colabora habitualmente com a revista “Ficções” (Ed. 7 Letras) e com o Jornal do Brasil.

ALGO A DIZER – Jair, você nasceu em 1946 em Cornélio Procópio, Paraná e desde 1971 mora no Rio de Janeiro. Fale para nossos leitores um pouco sobre esse período anterior à vinda para o Rio.
Jair Ferreira dos Santos
- Venho de uma família simples, classe média baixa. Sou o mais velho de uma ninhada de nove filhos, dos quais três morreram. Meu pai era padeiro e violonista. Durante anos teve uma orquestra. Minha mãe é uma camponesa católica fervorosa que me ensinou quase tudo de essencial para a vida, das primeiras letras ao caráter. Todos os dias me dizia: saber não ocupa lugar. Eu acreditei nisso, era bom aluno e na adolescência, seguindo o clima de contestação da época, comecei a ler Freud, Marx, Sartre, Camus, os mestres da minha geração. Quando vim para o Rio, aos 23 anos, já trabalhava no Banco do Brasil, mas não havia publicado uma linha sequer.

ALGO A DIZER – Sabemos que todo escritor vive de concepções literárias formuladas pelas gerações que o precederam. Quais os escritores que o influenciaram?
Jair Ferreira dos Santos
Clarice Lispector foi uma referência básica para muita gente e para mim também, mas eu li muito Machado, Osman Lins, Kafka, Joyce, Proust, Musil e, sobretudo os americanos. Gosto imensamente dos autores americanos porque eles me ensinaram o caminho até a realidade, a minha realidade, quero dizer. Eles jamais abandonam a história e a vivência concreta do seu país. E por aí li bastante Fitzgerald, Hemingway, Faulkner, sobretudo John Barth e John Updike, o primeiro porque é um fabulista incomparável e o segundo porque é também um estilista de primeira linha. Queria ser escritor porque a ditadura militar me enojava e tanto o marxismo quanto o existencialismo, os quais eu admirava, cobravam um compromisso com o homem e a justiça social.

ALGO A DIZER – James Joyce disse certa vez que o escritor precisa de exílio e astúcia. Há certo exílio em sua vinda para o Rio de Janeiro, mas de onde vem sua astúcia?
Jair Ferreira dos Santos
A situação do artista no interior no mundo pré-internet era a migração ou a frustração. É o primeiro teste de coragem por que passa um autor – largar a paisagem à qual prometeu que seria isso e aquilo. Assim a vinda para o Rio foi realmente um desenraizamento e tanto, porque eu era caipira mesmo, tinha apenas alguma bagagenzinha livresca. Quando fui estudar comunicação, vi que os mestres já eram outros e fui obrigado a devorar Barthes, Levi-Strauss, Foucault, Lacan para me situar no ambiente intelectual. Não foi em vão, esses autores me prepararam para escrever um livreto que deu alguma ressonância ao meu nome, “O Que é Pós-Moderno”. Quanto à astúcia, não sei não, sou mais fruto do esforço, escrevo com muita dificuldade, média de uma página a cada três dias, e eu a creditaria ao trabalho, à minha teimosia e a certo gosto pela introspecção e a poesia, que estimulam a intuição

ALGO A DIZER – Como foi sua estréia na literatura?
Jair Ferreira dos Santos –
A estréia foi com o livro de contos Kafka na Cama, publicado em 1980 pela então prestigiosa Civilização Brasileira. A edição esgotou-se em dois anos e a recepção crítica foi das melhores. O livro me impôs um adeus às ilusões, porque eu achava que publicando um livro me tornaria de fato um escritor, com um coro em volta, etc., como um pão que sai do forno é um pão, inapelavelmente, mas nos dias e anos seguintes constatei que a mitologia do autor era dolorosa (e, pior, necessária), porque continuei a me sentir o mesmo pretendente vazio e vulnerável diante do desafio de produzir um texto que preste. Não tem essa de escritor pronto, um autor é sempre uma procura incansável.

ALGO A DIZER – Seu livro O Que é Pós-Moderno figura na coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense, com mais de cem mil cópias vendidas. Como surgiu a idéia deste livro? E o que é pós-moderno?
Jair Ferreira dos Santos –
O livro surgiu de uma dissertação de mestrado que não fiz. Baixei a bola e a transformei num texto que se aproximasse o máximo possível daquilo que os franceses chamam de “haute vulgarisation”, ou seja, um conceito complexo explicado para milhões. Deu certo, já vendeu mais de 120 mil exemplares. O pós-moderno é uma idéia ainda em processo e se caracteriza pelo advento da sociedade pós-industrial, isto é, com foco não na produção de bens industriais, mas na geração de informação e conhecimento necessários aos serviços, num contexto que não mais acredita, como na modernidade, nos grandes discursos (religião, razão, ideologia, História), cultivando antes as soluções parciais, pragmáticas, o aqui e a agora do consumo, do individualismo e do narcisismo contemporâneos. Isto bate em toda linha com o triunfo globalização e a generalização do capitalismo neoliberal, mas também não é o Fim da História. A crise ecológica é uma faca no pescoço das sociedades avançadas e vai obrigá-las a grandes reformulações. Para disseminar por todos os países o nível de consumo americano, por exemplo, serão necessários quatro planetas Terra.

ALGO A DIZER – Jair, você é um crítico mordaz da classe média urbana. Como surgiu essa decepção e onde você quer chegar com esse desnudamento?
Jair Ferreira dos Santos
Creio que é porque a classe média cultiva uma indecorosa inconsciência de classe e só a crítica, uma palavra execrada no jargão conformista atual, faz aflorar seu ridículo e suas contradições. Hoje todas as estratégias econômicas e políticas passam pela classe média porque ela é reformista, inerte, e absorveu, desmobilizou a grande onda de choque revolucionária dos anos 60 e 70. Além disso, ela é a principal destinatária da publicidade e do entretenimento midiático, ela é a espinha dorsal do consumismo, da obscenidade que são as celebridades, etc. Ela adora ser empulhada. Veja a televisão. Ela ajuda diariamente a classe média e os pobres a fingirem que não levam uma subvida, presenciando nas telas a “verdadeira vida”, que é a levada pela burguesia com seu alto consumo. É isto é um ideal de existência!!!!!!!!!!

ALGO A DIZER – Em seu último livro, no conto Cybersenzala, não há nenhuma alternativa para Oliveira?
Jair Ferreira dos Santos
De fato, os personagens de Cybersenzala, o conto, estão apanhados na arapuca contemporânea da ausência de projeto histórico, o que lhes rouba substância e densidade de vida. Esse é um dos males das sociedades da informação, cujo símbolo é o computador, onde velocidade rima com vacuidade. Para além do consumo e da acumulação de dinheiro e prestígio, isto é, do presente, não há horizontes. Oliveira é um operador do mercado financeiro acuado pela idade, pelos operadores mais jovens e pela precarização dos empregos. É arrogante, cínico, mas está topando com gente pior que ele. Os tiros nos animaizinhos noturnos com lentes infravermelhas são a perversão a que chegam as pessoas incapazes de cruzarem a fronteira do seu próprio ego, e essa covardia exige reparações simbólicas. Oliveira quer atirar em gente como ele, o que seria uma libertação, aliás, mas se contenta com ter boa pontaria contra animais indefesos. Há qualquer coisa de eunuco nessa história desmaterialização e virtualização da vida na atualidade e isto é apenas o começo da implantação da era da existência sem fundamento.

ALGO A DIZER –Tive a impressão, durante a leitura de Fado Pauleira, de que Breno Bastos, caminhava para o suicídio, mas essa porta também não estaria aberta para ele. Para onde caminha Breno Bastos?
Jair Ferreira dos Santos
Breno Bastos, o escritor, na verdade dá o passo para fora de si mesmo que Oliveira não consegue dar. Os recursos internos, a cultura, o autoconhecimento de Breno são muito superiores aos de Oliveira. Essa é a virtude cardeal da cultura humanística, ela nos ajuda a interpretar o Inferno diariamente – nossa missão aqui na Terra, segundo Goethe. Quanto ao suicídio, no texto está dito: “Muitas pessoas se matam para deixarem de morrer.”. Mas Breno escapa ao suicídio no final porque já passou do tempo hábil da morte gloriosa. Seria um gesto oco, presunçoso. Em vez disso, ele conquista a sua pequenez. Dispõe-se até a ler para cegos. Não é pouca coisa para alguém que está além do amor. Há nesse conto uma expressão que julgo adequada para nós. É que não há mais amor, há somente o “cálculo da solidão”, pois substituímos a solidão lírica do modernismo pela solidão conectada da pós-modernidade, ou seja, trocamos o contato pelo acesso, a possibilidade de medir à distância quando, onde e com quem vou estar, tudo isso bordejando a depressão. Basta ver que no orkut ninguém tem apenas uma pessoa em vista, são sempre várias. Bom, Breno Bastos representa também a maneira como estão envelhecendo os representantes da minha geração, a geração do “forever young”. A lógica do suicídio impossível pode ser torturante, mas é um avanço.

ALGO A DIZER – Tôni Labanca, personagem que vive em Monte Castelo, mas que poderia viver em qualquer lugar, é um típico picareta. Poderia ser caracterizado como uma metáfora do político brasileiro que serve à burguesia e só quer se dar bem?
Jair Ferreira dos Santos
Não sei se Tôni Labanca poderia viver em qualquer outro lugar ou em outra época. Monte Castelo é semelhante a Cornélio Procópio, onde nasci, no Paraná, e há no texto muitos regionalismos, começando pela linguagem. A maioria dos contos do livro falam cada um de uma mídia, e neste eu quis mostrar a mentalidade de alguém formado pelo cinema. Ele tinha um ideal cavalheiresco que vinha dos filmes americanos dos anos 50 e 60, mas nenhuma grana para realizar esse ideal. A saída era borboletear pelos espaços freqüentados pela burguesia interiorana. Ele de fato é um desses mediadores entre as classes, o picareta favorece alguém visando o benefício próprio, mas Tôni Labanca desenvolveu ao mesmo tempo certa visão de mundo, tão criativa quanto deturpada, que está longe de ser ingênua ou ineficaz. Ele afinal “sobe” na vida. E no Paraná, que é um estado corrupto por excelência. Mas como é um manipulador por natureza, sua ambição um dia será traída pela manipulação.

ALGO A DIZER – Nos dez contos de Cybersenzala há bastante ironia. Esse foi seu artifício para mostrar o conformismo, a solidão, e a indiferença com os excluídos por parte dessa classe média urbana, fútil e inculta, que fetichiza o dinheiro?
Jair Ferreira dos Santos
Sem dúvida, a ironia é um antídoto bastante forte contra a alienação. Mas é preciso levar em conta ainda a taxa de desencanto de um lado e de outro o invólucro de jogos e humor com que se tenta disfarçá-la. É entre os dois que se instala a ironia, uma das poucas armas contra o império do entretenimento, da banalidade da auto-ajuda. Quando Cioran diz: “Há dois mil anos Cristo vem nos punindo por não ter morrido num sofá”, ele põe a nu a mediocridade das crenças religiosas. À ironia eu procurei acrescentar um vocabulário mais amplo, algumas metáforas elaboradas, pôr um pouco mais de informação para ir na contramão do conto dietético, bom para revistas e a digestão. Mesmo que soe pretensioso, é preciso dizer que a literatura ainda é uma aventura pelo escamoteado, o impensado, o indizível, porque me parece insuportável entrarmos e sairmos de um livro sem que nada tenha se modificado em nós.

ALGO A DIZER – Os personagens de Cybersenzala não têm projeto de país; não há luta política ou ideológica; não há preocupação social com os excluídos; não vêem a miséria brasileira; não vivem em nosso mundo, mas em um mundo virtual do mercado financeiro. É assim que o Jair vê o mundo em volta?
Jair Ferreira dos Santos
“Bueno”, o Jair autor difere um pouco do Jair cidadão. O eu do ficcionista é uma ficção do eu. Tenho ideais literários que gostaria de alcançar e nem tudo que sou como pessoa e cidadão passa por ou para esses ideais. Além disso, ao fazer literatura você não escreve o que quer nem o que deve. Você escreve o que pode. Até onde alcanço, os brasileiros classe média, inclusive eu, somos um bando de pobretões individualistas. Se meus personagens vêem o mercado e não a miséria é porque a classe média tende a se comportar assim. Como cidadão, a miséria me angustia e freqüentemente me leva ao cinismo. Por exemplo, a situação brasileira é tão crítica que milhões jamais vão experimentar sequer um chikabon e eu, que não sou cristão, procuro não sofrer com isso. Nós sabemos quem são os responsáveis por esse estado de coisas. No meu cotidiano e, eventualmente, em alguns ensaios do meu livro Breve, o Pós-Humano procuro denunciá-los. Agora, nós estamos num mundo sem inocência e com imensos recursos em informação. Se os oprimidos preferem ver Big Brother a ler Guimarães Rosa numa biblioteca pública, eles devem também arcar com as responsabilidades disso.

ALGO A DIZER – Jair, qual o papel da literatura nos dias atuais? A literatura ainda pode modificar as pessoas com sua força de questionamento, como Kafka fez com a gente?
Jair Ferreira dos Santos –
Eu quero ser otimista, mas estamos no meio de uma revolução tecnológica, especialmente na área de comunicação, e a tendência parece encaminhar-se para mudanças radicais na forma de difusão da criação literária. A meu ver a literatura não acabará, porque narrar faz parte do processo de constituição da identidade humana e a poesia é a forma mais refinada de mergulharmos na dor e na alegria, coisas que dificilmente acabarão. Já o livro em papel sobreviverá talvez como certas artes menores, cunhagem de moedas, a tapeçaria, a gravura. A literatura mantém o homem permanentemente em questão, porque ele é o único ser cuja essência é a questão do seu ser – somos todos inacabados, incompletos e não é o Prozac que dará jeito nisso. Logo as coisas sérias transitarão por uma grande literatura minoritária, para poucos, como é o caso do surpreendente As Benevolentes, do franco-americano Jonathan Littell. Quando se falava na morte da arte de escrever pelo mercado de porcarias sub-literárias, surge um romance como este, de 900 páginas, em que um carrasco nazista bissexual dá sua visão da matança nos campos de batalha e de extermínio na Segunda Guerra Mundial. O poder hoje está com as neurociências, a biotecnologia e a hipercomputação e suas maravilhas, mas elas não são nada sem as palavras e a palavra é a nossa única possibilidade, como a flor que fura o asfalto, de transcendência na pura imanência tecnológica.

ALGO A DIZER – Há realmente algo de bom na nova literatura brasileira, ou são apenas apostas mercadológicas que serão esquecidas com o passar do tempo? E como anda o nosso mercado livreiro?
Jair Ferreira dos Santos –
Não sei, quase não leio os autores atuais. Mas vou refrasear sua pergunta: por que os escritores brasileiros não são xingados? Em 2006, se não me engano, o escritor francês Michel Houellebecq foi ameaçado de processo e agressões por muçulmanos fanáticos porque em seu romance A Possibilidade de Uma Ilha um personagem sugeria que aviões bombardeassem Teerã com milhões de minissaias. A piada é ótima, mas nós não vemos nada semelhante na nossa literatura. Um velho subjetivismo ou um sociologismo pouco flexível convergem sempre para a conciliação, a linha bem pensante, por aí vai. Então, pouco adianta você conhecer os novos autores ou o mercado planejar isso e aquilo porque a oferta dificilmente colocará em cena um autor com questões profundas e não artificiais. Por outro lado, nossa realidade em relação ao livro é dramática: temos 2.600 livrarias, quando a Unesco recomenda, para países com nossa população, um mínimo de 17.000 pontos de venda. Rondônia tem 620.000 habitantes, mas apenas quatro livrarias. Somente 26% dos brasileiros alfabetizados são capazes de ler e entender um texto longo. Para universalizar o livro por aqui, o preço do exemplar deveria ser um terço dos valores atuais. Apesar das melhoras pontuais, dá para imaginar a catástrofe cultural que estes números representam?

ALGO A DIZER – Quais os autores e os livros, nacionais e estrangeiros, que você recomendaria para os nosso leitores?
Jair Ferreira dos Santos –
Entre os nacionais eu indicaria O Filho Eterno (Cristóvão Tezza), um livro corajoso em sua temática, Impurezas Amorosas (crônicas de Miguel Sanches Neto), Elementares (Mário Pontes), ensaios que são uma excelente introdução ao romance policial, as duas belas novelas reunidas em Resumo de Ana (Modesto Carone) e o romance reeditado A Idade da Paixão (Rubem Mauro Machado). Entre os estrangeiros, além do já citado As Benevolentes, eu recomendaria Plataforma (Michel Houellebecq), romance que traz uma abordagem devastadora do turismo internacional, O coração é Um Caçador Solitário (Carson McCullers), um clássico da moderna literatura dos Estados Unidos, No Bosque da Noite (Djuna Barnes), o texto mais “cult” da “lost generation” americana, Na Praia (do inglês Ian McEwan), sobre as dificuldades afetivas e sexuais da juventude nos anos 50 e 60, e A Ilha de Arturo (Elza Morante), simplesmente o livro mais belo que já li.

ALGO A DIZER – Sendo um pensador de esquerda combativo, avesso ao senso comum e à moderação que caracteriza grande parte da classe intelectual brasileira, como você analisa o Governo Lula?
Jair Ferreira dos Santos
Jair Ferreira dos Santos –
Com extrema simpatia e, para dizer logo tudo, torcendo para que ele emplaque o terceiro mandato. A lista de realizações de um governo com origens populares é extraordinária dentro da nossa história, a começar pela geração de 10 milhões de empregos, os aumentos do salário mínimo, os 20 milhões que passaram das classes D e E para a classe C, o Bolsa Família, que redinamizou as economias do interior, o biodiesel, que inseriu o Brasil como peça fundamental no cenário mundial, a liquidação da dívida externa, por aí vai. O que não significa aprovação total. Acho que ele se afastou excessivamente dos movimentos sociais e não implementou a reforma agrária indispensável ao país, assim como não taxou os bancos e o mercado financeiro em geral. Essa gente suga a economia e praticamente não paga impostos sob o álibi de gerarem investimentos. Creio também que o PT é um partido demasiado problemático, em que a falta de experiência administrativa foi reforçada por uma verdadeira gincana de burrice entre seus quadros, a crermos nas aparições públicas de gente como Delúbio Soares e os aloprados de 2006. Biografia de militante não é argumento. Tais limitações parecem decorrer do único projeto viável para um governo do PT na atual conjuntura, que é o de compatibilizar crescimento com distribuição de renda, algo impensável no reinado de FHC. Elas se agravam ainda porque Lula não dispõe de nenhum veículo de comunicação, pois nem a Sarney, que é o monturo que é e jogou o país na hiperinflação, a mídia dispensou um tratamento tão sórdido e desrespeitoso quanto a Lula. Agora mesmo vemos O Globo e companhia praticarem um jornalismo xamanístico, como se evocando reiteradamente as palavras “crise de energia” e “epidemia de febre amarela” pudessem transformá-las em fatos. Tudo isso reflete uma vontade ferrenha de tirar Lula do poder assim como um preconceito das elites letradas contra alguém da cultura oral que lhes está dando ordens. Lula, assim, subverte o simbólico dos lugares de mando no Brasil, ofensa tão grande quanto abolir a proibição do incesto, pois ele não tem nenhum dos traços indispensáveis ao estereótipo do mando: é semiletrado, pobre, operário e branco adotivo (por ser pobre e nordestino, apesar de efetivamente branco). A meu ver, um terceiro mandato seria o acorde final perfeito no sentido de afastar ou eliminar da memória dos brasileiros o patriciado branco, proprietário, rico e letrado enquanto imago exclusiva dos destinados a ocupar o poder.

Celso Gomes é advogado e escritor
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Comentários
  William Cortezia
17/06/2013

Jair Parabens. O mesmo Jair que conheci há mais de 40 anos,retrata agora o positionamento burilado, mas sempre autêntico. Abraçāo Cortezia
 
  Mariza da silva ferro Vieira
16/10/2013

Excelente entrevista.Não conhecia as criticas de Jair, mas o pouco que li simpatizei com sua coragem e determinação de enfrentar atraves de livros fabulosos ) a verdadeira situação em que se encontra a nossa imaginaria sociedade de conveniencias. Parabéns.
 
  Léa Trindade
12/03/2014

Jair foi meu colega de escola e graças a ele consegui passar em Química quando estávamos no antigo científico. Ele ia à minha casa dar-me aulas particulares e era assombrosamente inteligente! Fico muito orgulhosa de ter feito parte do passado dessa pessoa tão brilhante merecedora de todos s louros! Grande abraço , meu amigo. Léa
 
  Regina Gulla
01/06/2015

Jair, adorei te conhecer, vou buscar sua ficção já já. Abraços. http://www.bosquesonhador.wordpress.com
 
 

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