Algo A Dizer
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A Anti-utopia de Eugene Zamiatin

Por Celso Gomes

Recomendo a leitura do romance Nós de Eugene Zamiatin em uma edição da Editora Anima, tradução do inglês de Lya Alverga Wyler de 1983. Desconheço se há alguma tradução diretamente do russo. Eugene Zamiatin publicou o romance Nós em 1920. O resumo é simples: pessoas vivendo em um tempo futuro no qual um o governo autoritário controla a vida de todos, ao mesmo tempo em que uma revolução está próxima de ser deflagrada. Esse foi um tema recorrente no século passado, tanto assim que podemos encontrar alguns elementos de Nós, em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, e em 1984 de George Orwell. Alguns críticos chegam a acusar Orwell de plágio, tal a semelhança entre os dois romances. Os personagens têm horas marcadas para seus encontros íntimos e seus contatos são impessoais. Em 1984, todos são controlados pelo Grande Irmão. No romance de Zamiatin há um Benfeitor, sempre presente. Em Nós, os prédios são transparentes e os moradores têm permissão de fechar cortinas apenas durante os encontros íntimos. Em 1984, existem as telas de vídeo. Em Nós, as pessoas não recebem nomes, mas números. Apesar de um tanto envelhecido, vale a leitura do livro, até para encontrar elementos básicos de vários outros romances escritos no século passado. Tecnicamente, o romance consiste em anotações do personagem D-503, que acredita nos princípios da sociedade totalitária em que vive. Para D-503, sua falta de privacidade é uma garantia de fidelidade do cidadão ao Estado. Esta total transparência da vida do cidadão é condição sine quae non para existência do governo totalitário sob o qual ele vive.
Mais do que uma obra política, Nós surgiu como um corajoso ataque ao totalitarismo estalinista que usurpou a liberdade humana e terminou por destruir a criatividade, violentando a arte. O romance é um libelo em defesa da liberdade do homem em uma narrativa surrealista, permeada pela ironia, em linguagem contida, propositalmente disciplinada. Em Nós, o herói D-503 - um matemático que trabalha na construção de um equipamento de tecnologia muito avançada - vive em constante conflito por ter como ideal subjugar suas emoções, embasando seus pensamentos nos argumentos inculcados em sua mente pelo Estado Uno. Ao longo do tempo, contrariamente ao seu discurso padronizado, ele se descobre possuidor de uma identidade individual, quando se vê apaixonado de forma avassaladora por uma mulher. Nesse momento, desejos não programados pelo sistema invadem seu arcabouço emocional levando-o a seguir impulsos que considerava irracionais. Procurando um médico, após uma de suas crises, o mesmo diagnostica que lhe nasceu uma alma e D-503 passa a se ver como terrivelmente doente, pois ter uma alma, ter imaginação era ter uma doença incurável no Estado Uno. Apesar de o médico decretar que esta doença seria incurável, outro médico defende a tese de que uma operação de remoção de um centro de imaginação no cérebro tornaria o indivíduo alheio à sua individualidade, o que tornaria D-503 completamente alienado do processo político em que vivia e alheio à revolução em curso.
Nós foi proibido pelo regime soviético e só foi publicado nos países do Ocidente. Zamiatin, que além de escritor era matemático e engenheiro naval, sobreviveu por milagre aos expurgos estalinistas. Em 1931, ele escreveu a Stalin pedindo permissão para emigrar: "O autor desta carta, um homem condenado à pena capital, solicita-lhe a comutação desta pena. Você provavelmente conhece meu nome. Para mim, como escritor, ser privado da possibilidade de escrever equivale a uma condenação à morte". Milagrosamente, Stálin concedeu e Zamiatin viveu algum tempo em Praga, vindo a morrer em 1937, praticamente esquecido em Paris, pois em seu período de exílio, jamais se juntou aos exilados russos.
Celso Gomes é advogado e escritor
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